Bloomberg Línea Brasil — Em mais um capítulo da guerra do delivery, o iFood, líder setor no país, ajuizou uma ação judicial contra a Keeta e a sua controladora chinesa, a multinacional Meituan.
Em uma petição submetida a uma das Varas Empresariais de São Paulo, a empresa brasileira acusou as concorrentes de terem supostamente criado uma rede clandestina de recolha de dados que envolveria o assédio sistemático de trabalhadores e espionagem empresarial.
Segundo os documentos do processo, o plano teria se baseado em uma estratégia de concorrência desleal com o objetivo de minar a posição do iFood, precisamente no momento em que a Keeta preparava a sua entrada multimilionária no mercado nacional.
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A Keeta entrou no Brasil no ano passado, com investimento anunciado de US$ 1 bilhão para estruturar uma operação no mercado local.
O iFood pediu para que a Justiça condene as companhias ao pagamento de R$ 1 milhão por danos morais, além de danos materiais, incluindo danos emergentes e lucros cessantes.
E exige que as rés cessem imediatamente qualquer abordagem a colaboradores para fins de obtenção de dados sigilosos, proíba a divulgação ou exploração comercial de qualquer dado obtido ilicitamente, sob pena de multa diária de R$ 100 mil.
Em nota à Bloomberg Línea, a Keeta informou que opera em conformidade com todos os requisitos locais. “A empresa reforça que não aborda indivíduos para os fins descritos e destaca, ainda, que não recebeu qualquer notificação. A Keeta informou que segue rigorosamente a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) e possui políticas internas robustas e transparentes quanto ao uso de dados” (veja a íntegra da nota ao final do texto).
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De acordo com a acusação do iFood, a Keeta e a Meituan não atuaram de forma direta numa primeira fase, e teriam utilizado mais de 30 empresas de consultoria interpostas — muitas com ligações diretas à China — para abordar mais de 240 colaboradores do iFood através do LinkedIn.
O modelo, segundo os advogados do iFood, funcionava sob o disfarce de falsas entrevistas para relatórios de mercado. Aos funcionários eram oferecidas compensações financeiras invulgarmente elevadas, que chegavam a atingir entre US$ 400 e US$ 500 por hora, para responderem aos questionários.
Contudo, o teor das perguntas, segundo a acusação do iFood, não visava tendências genéricas, mas sim segredos de negócio, como taxas de comissão cobradas a restaurantes parceiros, modelos de logística, planos de expansão e estratégias de subsídios a utilizadores.
As primeiras movimentações foram detectadas em março de 2025, mas o caso ganhou contornos criminais em maio daquele ano, após denúncias ao Canal de Integridade do iFood.
A investigação interna culminou na identificação, por exemplo, de um ex-funcionário que teria atuado como um elo central na fuga de informação.
Alvo de uma operação de busca e apreensão e de um inquérito policial, o funcionário confessou às autoridades que vendia dados à consultora China Insights Consultancy (CIC).
As provas anexadas incluem mensagens de um grupo no WhatsApp, ironicamente batizado de “Rádio Peão ifood”, onde o ex-funcionário comemorava o recebimento de milhares de reais convertidos de dólares, partilhava as listas de perguntas estratégicas e incentivava colegas a venderem dados operacionais.
A prova que conecta as consultorias à liderança da Meituan foi obtida nos Estados Unidos, onde o iFood exigiu judicialmente que a plataforma Zoom cedesse os registos técnicos das reuniões efetuadas com os funcionários subornados.
A auditoria digital da acusação do iFood revelou que, embora os encontros fossem agendados pelas consultoras, vários participantes ocultados por códigos numéricos acederam às videochamadas utilizando e-mails corporativos oficiais com o domínio meituan.com.
Para a acusação do iFood, esta é a prova de que os executivos chineses extraíam os segredos industriais em tempo real. Apesar de notificações extrajudiciais enviadas a consultoras como SixDegrees e BCC Global, o iFood afirma que o assédio continuou de forma ininterrupta até maio de 2026.
Amparado pela Lei de Propriedade Industrial, o iFood alega que a Keeta e a Meituan violaram frontalmente os artigos que tipificam os crimes de concorrência desleal por meio de fraude e suborno de empregados.
Na ação, a empresa exige que as rés cessem imediatamente qualquer abordagem a colaboradores para fins de obtenção de dados sigilosos, proíba a divulgação ou exploração comercial de qualquer dado obtido ilicitamente e condene as gigantes asiáticas ao ressarcimento integral por danos materiais e morais.
Posicionamento da Keeta
“A Keeta defende um mercado aberto e justo e, para isso, está profundamente comprometida com os mais altos padrões éticos e legais, e opera em conformidade com todos os requisitos locais. A empresa reforça que não aborda indivíduos para os fins descritos e destaca, ainda, que não recebeu qualquer notificação. A Keeta segue rigorosamente a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) e possui políticas internas robustas e transparentes quanto ao uso de dados.
A Polícia Civil abriu uma investigação sobre denúncias de ataques coordenados de espionagem contra a Keeta e restaurantes em Santos, após o lançamento da operação da plataforma na cidade. Pelo menos 8 restaurantes locais foram abordados por indivíduos que se apresentavam como supostos funcionários da empresa, apresentando credenciais falsas, com o objetivo de obter dados dos estabelecimentos, incluindo dados sensíveis.
A Keeta reitera seu total compromisso com um ambiente de concorrência livre e justa, baseado nas melhores práticas de mercado, e se coloca à disposição para cooperar com as autoridades sempre que necessário"









