Bloomberg Línea — O início de 2026 pode marcar um ponto de inflexão para a Creditas, que reportou nesta quinta-feira (7) resultados recordes que podem sinalizar a maturidade de sua estratégia de eficiência apoiada em inteligência artificial.
A fintech brasileira registrou uma receita de R$ 633 milhões no primeiro trimestre, um salto de 23,1% em relação ao mesmo período do ano anterior, impulsionada tanto pela expansão dos volumes quanto pela reprecificação de seu portfólio.
“Nos últimos trimestres, temos conseguido avanços significativos nos nossos modelos preditivos e, com isso, melhorado a experiência de cliente e conseguido uma melhor assertividade dos preços para os nossos clientes”, afirma Sergio Furio, CEO e fundador da Creditas, à Bloomberg Línea.
“A melhor aderência de nossos modelos à projeção de perdas e rentabilidade das transações permite ajustar o preço e com isso melhorar a conversão, ampliando margens e reduzindo custo de aquisição.”
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A originação de crédito somou R$ 1,1 bilhão entre janeiro e março — o maior volume trimestral da história da fintech. Os números foram impulsionados por expansões recordes nos segmentos de Auto Equity, de 18,7% versus o primeiro trimestre de 2025, e Home Equity, 33,8%, que são os dois principais negócios no portfólio da fintech.
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Segundo o balanço, as verticais de consignado privado (e-consignado) e financiamento de veículos também cresceram, acompanhadas por seguros, divisão que voltou à rentabilidade no trimestre.
O lucro bruto atingiu o patamar histórico de R$ 253,5 milhões no trimestre, com uma margem de 40%. O prejuízo operacional foi reduzido para R$ 34,9 milhões no trimestre e está no menor patamar desde 2024.
Segundo Furio, esse resultado negativo é um efeito contábil da metodologia IFRS, que exige o reconhecimento de provisões no momento da originação, e não reflete o fôlego financeiro da operação.
“Estamos gerando caixa desde 2023, já é o terceiro ano consecutivo com geração de caixa. Nós esperamos que já na segunda parte do ano comecemos a gerar lucro operacional positivo”, disse o empresário de origem espanhola.
A carteira de crédito fechou no período a R$ 7,6 bilhões, alta de 22,4% na comparação ano contra ano e 6,4% em relação ao último trimestre de 2025.
Segundo o executivo, após um período focado na manutenção do tamanho da carteira, a prioridade voltou a ser a expansão. “Agora, já estamos obviamente priorizando esse crescimento, que não pode ser mais de 25% a 30% para evitar queima de caixa”, afirmou.
O motor dessa transformação tem sido a migração para uma arquitetura “AI-First”. A fintech tem utilizado agentes de inteligência artificial em todas as camadas do negócio, da subscrição de risco ao atendimento.
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Na frente de cobrança, por exemplo, os agentes autônomos apresentam desempenho que supera benchmarks humanos. “Temos agora os primeiros casos em operações de cobrança de curto prazo que são 100% geridos pelos nossos agentes de IA, com performance, inclusive, superior aos consultores humanos, que estão um pouco mais focados na parte de late stage de cobrança”, conta Furio.
Um segundo uso da tecnologia é no backoffice e operações, o que tem permitido, de acordo com o CEO, entregar mais resultados com menos recursos. No trimestre, apesar do avanço de quase 30% na originação, as despesas operacionais ficaram em R$ 288,4 milhões, patamar que a companhia tem mantido nos últimos dois anos.
A mudança estende-se também ao coração tecnológico da fintech, onde os desenvolvedores passaram a atuar como “arquitetos da solução”, enquanto os agentes de IA ficam responsáveis por criar a maior parte do código.
O avanço nas aplicações tecnológicas permitiu que a receita por colaborador chegasse ao patamar de R$ 1,4 milhão em março de 2026. Dois anos antes, o valor estava em R$ 900 mil.
Para o restante de 2026, a Creditas projeta manter o pé no acelerador, com a meta de atingir uma receita de R$ 2,8 bilhões — um crescimento próximo a 30%. Na visão de Furio, o cenário macroeconômico de juros elevados no Brasil, embora desafiador, acaba impulsionando a demanda pelo modelo de colateral da fintech.
Com a pressão no orçamento das famílias, a busca por taxas menores torna-se uma questão de sobrevivência financeira. “Isso permite que os brasileiros troquem dívidas de curto prazo e juros altos por crédito de longo prazo com custo menor, reduzindo a pressão orçamentária”, diz.
Mesmo com a Selic em patamares restritivos, a companhia foca na expansão das margens, que já atingiram o objetivo de longo prazo de 40% após o desconto de funding e inadimplência.
A expectativa é que qualquer alívio na política monetária funcione como um vento a favor adicional para o resultado final. “Estamos em um momento com custo de crédito baixo para nós. Se a Selic desce, mesmo que seja pouco, isso nos ajudará a elevar ainda mais nossa estrutura de margens”, afirma.
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