Bloomberg Línea — A Loft tem expandido sua atuação no segmento imobiliário para levar serviços financeiros a incorporadoras e oferecer garantia locatícia para pessoa jurídica.
A aposta da startup, que tem os fundos americanos Andreessen Horowitz e Tiger Global entre seus investidores, ocorre depois de a empresa atingir um crescimento de 55% o número de transações no primeiro semestre de 2026.
A proptech somou 338 mil transações entre compra, venda e locação no período, ante 218 mil no mesmo intervalo de 2025.
A Loft atribui o crescimento a uma combinação de fatores: o patamar ainda elevado de juros, a maturação do produto de crédito com garantia de imóvel (Home Equity) e a entrada da empresa no mercado primário, atendendo incorporadoras pela primeira vez.
Em entrevista à Bloomberg Línea, o CEO Mate Pencz disse que a diferença de custo entre linhas de crédito sem garantia e o Home Equity tem empurrado cada vez mais brasileiros para o produto, que cresceu 150% no período.
“As pessoas estão pagando 120% ao ano no cartão de crédito, e no Home Equity dá para se financiar em quatro, cinco, seis anos a 15%”, afirmou.
Segundo Pencz, o produto deixou de ser marginal na operação e está entre as principais linhas de receita da empresa. “Imaginamos que, nos próximos anos, deve continuar sendo um dos carros-chefe”, disse.
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No semestre, de acordo com dados da Associação Brasileira de Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), o mercado de home equity registrou alta de 30,9%, somando R$ 6,67 bilhões em concessões.
A Loft não abre o crescimento em receita, mas Pencz disse que a alta “acompanha mais ou menos a tendência do volume de transações”.
Com o ritmo atual de expansão e de desenvolvimento de produtos financeiros sustentados por agentes de inteligência artificial, a Loft deve voltar ao mercado e anunciar uma aquisição nos próximos meses.
“O M&A seria mais para trazer adjacências financeiras. O desenvolvimento tecnológico continua dentro de casa”, disse, sem oferecer detalhes.
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A última compra da Loft foi a Vista, em 2022, software de CRM e ERP focado na gestão operacional e de relacionamento para imobiliárias. Antes, entre 2020 e 2021, a proptech fez cinco compras, que ajudaram a desenhar o stack de produtos financeiro atual.
Mercado primário e o problema do distrato
A principal novidade operacional do semestre foi a entrada da Loft no mercado primário, atendendo incorporadoras — segmento com o qual a proptech não trabalhava até então, mesmo já fazendo mais de 3 mil financiamentos por mês no mercado secundário.
Segundo Pencz, a decisão seguiu uma lógica de continuidade e é a última etapa para atender os três agentes principais do setor: consumidores, imobiliárias e incorporadoras.

O ponto de entrada foi o momento do repasse, quando o comprador de um imóvel na planta precisa trocar o financiamento tomado junto à incorporadora por um financiamento bancário na entrega das chaves — etapa em que, segundo a empresa, se concentra boa parte dos distratos do setor.
“A pior coisa para uma incorporadora é o distrato. Ela tem que retomar o apartamento, revender aquilo que já vendeu, e muitas vezes não consegue pelo mesmo preço”, afirmou o CEO.
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Cyrela e Trinus já usam a nova plataforma de crédito para incorporadoras, lançada em maio e voltada a empreendimentos de médio e alto padrão, com unidades acima de R$ 600 mil. Pencz afirmou que a operação deve superar as metas internas de originar R$ 1 bilhão para o produto neste ano, sem detalhar números.
A startup também reformulou garantia locatícia para pessoa jurídica. “Fomos de zero para algumas centenas de transações por mês, já temos tração real”, disse. A meta agora é aproximar o volume da fiança PJ do que a empresa já tem na locação para pessoa física, hoje acima de 20 mil contratos por mês.
A reestruturação também está associada a um esperado efeito da reforma tributária. A regra que entra em vigor em 1º de janeiro de 2027 estabelece que proprietários pessoas físicas que alugarem mais de três imóveis e somarem receita bruta anual superior a R$ 240 mil (ou R$ 288 mil no próprio ano) serão obrigatoriamente enquadrados como contribuintes dos novos impostos (IBS/CBS).
Para isso, deverão obter um CNPJ cadastral para emissão de notas fiscais, sem que isso altere sua condição de pessoa física para fins de Imposto de Renda.
“Esse produto vai fazer ainda mais sentido porque essa piscina vai crescer”, projeta Pencz.
Avanço da inteligência artificial
Os avanços da companhia, segundo o cofundador, são impulsionados por um novo ritmo na adoção de inteligência artificial. Em 2026 a Loft passou a operar com agentes de IA em praticamente todas as pontas do negócio — tanto para uso interno, em áreas como RH e suporte técnico, quanto para atendimento a corretores, imobiliárias, proprietários e inquilinos.
Segundo o executivo, os agentes assumiram etapas repetitivas do atendimento — hoje disponível 24 horas por dia, sete dias por semana — e permitiram realocar parte da equipe para funções mais consultivas.
“Isso avançou muito a jornada, mas ainda com o ser humano dando apoio na ponta mais consultiva, que é onde ele mais rende hoje em dia”, disse Pencz. O custo de oferecer atendimento contínuo caiu de forma expressiva em relação ao modelo anterior, baseado em escalas humanas em três turnos.
Entre os produtos, a Loft diz ter aumentado em 30% a taxa de aprovação do crédito imobiliário com IA e digitalizado 100% do processo de fiança para locações comerciais, com análise em menos de um minuto. Na ponta comercial, o qualificador de leads da Loft já foi testado por mais de 200 imobiliárias parceiras.
Pencz afirmou que a empresa investiu “um pouco mais da metade” dos R$ 100 milhões que planeja aplicar em tecnologia ao longo de 2026. Para o segundo semestre, o executivo adiantou dois focos: agentes dedicados a atender incorporadoras e agentes voltados a necessidades financeiras dos usuários, como antecipação de aluguel e de comissões de corretores.
A chegada dos agentes não teria provocado demissões na proptech, hoje com 1400 funcionários. “Aumentamos o time em 10%”, diz, sobre a chegada de profissionais em tecnologia. Profissionais em áreas mais impactadas pelos agentes de IA migraram para divisões mais especializadas.
“Temos conseguido mais do que triplicar a empresa nesses últimos anos com o quadro de funcionários praticamente estável. Para isso, temos treinado as pessoas para assumirem desafios novos internamente e não devemos fazer demissões”, diz o CEO.
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