Google Cloud amplia presença em LatAm para descobrir ‘o próximo grande fundador’

Darren Mowry, VP global de startups do Google Cloud, explica em entrevista à Bloomberg Línea por que a empresa está trocando o foco em grandes firmas de venture capital dos EUA por ecossistemas em São Paulo e Cidade do México; ‘existem investidores e fundos específicos que são construídos e crescem dentro da América Latina’, afirma

O investimento busca estreitar o relacionamento com os ecossistemas regionais e aproximação com os fundos locais, que vivem um momento “vibrante”, nas palavras do vice-presidente. (Foto: Angel Garcia/Bloomberg)

Bloomberg Línea — O próximo grande fundador de tecnologia pode estar em São Paulo ou na Cidade do México, e o Google Cloud, a unidade de serviços de computação em nuvem do Google, decidiu apostar mais fortemente nessa oportunidade na América Latina.

A divisão de startups da companhia está redesenhando sua estratégia global para dar mais peso a mercados fora dos tradicionais polos do Vale do Silício e Nova York, e isso inclui a contratação de equipes dedicadas no mercado latino-americano, segundo Darren Mowry, vice-presidente global de startups do Google Cloud.

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Em entrevista à Bloomberg Línea, o executivo disse que o plano de expansão na região inclui não apenas contratar profissionais de vendas e engenheiros, mas também pessoas focadas no ecossistema de venture capital, incubação e aceleração, baseadas em mercados como Cidade do México e São Paulo.

“O que estamos fazendo é expandir nossa equipe de venture capital porque sabemos que existem investidores e fundos específicos que não estão na Bay Area, nem em Nova York, que são construídos e crescem dentro da América Latina”, disse Mowry, durante o Google Cloud Next 2026, em Las Vegas, evento que reuniu cerca de 30 mil participantes, pouco mais de 30% deles do universo de startups, segundo a empresa.


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O movimento reflete como a inteligência artificial (IA) mudou a lógica tradicional do setor de tecnologia de onde surgem os negócios mais relevantes. Empreendedores em mercados fora dos Estados Unidos hoje têm acesso mais amplo a ferramentas para construir negócios disruptivos e conseguem levar suas soluções a países desenvolvidos de forma relativamente rápida.

O raciocínio por trás das mudanças acompanha as transformações trazidas pela inteligência artificial, uma vez que startups novas e com modelo de negócio impactantes podem surgir em qualquer lugar do mundo, como é o caso da dinamarquesa Lovable.

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Outro exemplo recente é o da Enter, startup brasileira do segmento jurídico com sede em São Paulo que desenvolve tecnologia de IA para ajudar empresas a lidar com o grande volume de ações na Justiça. Nesta semana, a startup anunciou um aporte de US$ 100 milhões, em uma rodada liderada pelo Founders Fund, de Peter Thiel, elevando seu valuation a US$ 1,2 bilhão.

Para o Google Cloud, o investimento na América latina busca estreitar o relacionamento com os ecossistemas regionais e aproximação com os fundos locais, que vivem um momento “vibrante”, nas palavras de Mowry.

O executivo, veterano da indústria de nuvem, chegou ao Google há pouco mais de quatro anos, após experiências em concorrentes como a AWS, onde permaneceu por quase 10 anos, e Microsoft, em passagem de intervalo semelhante.

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Darren Mowry, vice-presidente global de startups do Google: cinco anos atrás, a equipe de venture capital estava focada em gerenciar as firmas do topo, baseadas principalmente em São Francisco e Nova York

Há um ano assumiu a posição de VP global, além de ser conselheiro do CapitalG, fundo de investimento em growth da Alphabet, a holding dona do Google, que aportou em negócios como CrowdStrike, Stripe, Duolingo, Monzo e Airbnb.

Mowry conta que além dos créditos, oferecidos a partir de programas como o Google for Startups, e das parcerias com fundos, a companhia também começa a olhar para potenciais investimentos na região.

“Estamos percebendo um interesse crescente da CapitalG (growth) e da GV (early stage) em não olhar apenas para, novamente, San Francisco e Nova York, mas sim procurar fundadores empolgantes onde quer que estejam. Portanto, há uma oportunidade de trazermos nossas próprias equipes de venture capital para o mercado latino-americano”, afirma.

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Além da maior presença regional, a transformação tecnológica tem feito com que a divisão com foco em startups olhe de forma mais pragmática também para outros atores na cadeia de investimentos.

Sequoia e A16Z, duas das mais conhecidas gestoras de venture capital do mundo, continuam “muito importantes”, segundo o executivo, mas hoje o mundo se mostra muito maior e as dinâmicas de captação mudaram.

“Serei bem específico: cinco anos atrás, a equipe de venture capital estava focada em gerenciar as firmas do topo, baseadas principalmente em São Francisco e Nova York”, disse Mowry.

“Hoje, estamos criando equipes agora focadas em fundos de anjos muito nichados, pequenos e especializados, que nunca tivemos antes da IA. Isso nos permite garantir que não estamos contando apenas com os maiores cheques; estamos dispostos a trabalhar com qualquer pessoa que nos ajude a identificar o próximo grande fundador”.

Entre as diversas tendências de um setor em ebulição, uma está relacionada à busca de empreendedores para acessarem menos recursos de grandes firmas de venture e manterem participação relevante do negócio ao longo do tempo.

Antes, na era pré-IA, o movimento era esperar a validação - no caso, o investimento - de uma grande firma de VC, como a a16z, para que todos os outros atores do ecossistema corressem atrás da startup.

“Se você esperar por isso agora, você está atrasado e perderá o próximo Gemini ou Anthropic”, afirma o executivo.

Os investimentos do Google Cloud em startups procuram melhor posicionar a companhia na disputa com outros competidores, como AWS e Azure, da Microsoft. Hoje, a empresa está em terceiro lugar no mercado.

Com um modelo verticalizado de atuação - da infraestrutura até modelos próprios, como o Gemini -, a aposta é que a IA pode ser uma força transformadora do negócio ao longo dos anos - e as startups terão um papel relevante.

“Quando eu estava na Microsoft, antes da nuvem, sempre via as maiores empresas como os maiores clientes porque tinham mais funcionários e compravam mais coisas. Isso era nos anos 1990 e 2000. Neste novo mundo, temos startups de 20 pessoas, de 12 pessoas, que são capazes de usar quantidades incríveis da nossa nuvem para criar soluções realmente impactantes”, diz Mowry.

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