Bloomberg Línea — A Vivara (VIVA3) fechou o primeiro semestre com margem bruta de 70,9%, a maior já registrada pela companhia no período, e reduziu a dívida líquida a R$ 140,9 milhões, queda de 57% em 12 meses.
O resultado tem origem em uma decisão tomada há mais de um ano: a maior rede de joalherias da América Latina abasteceu a fábrica de Manaus com o estoque de ouro acumulado e com metal recuperado de peças recompradas de consumidores, disse o CFO da companhia, Elias Leal Lima, em entrevista à Bloomberg Línea.
“Estamos sem comprar ouro de fornecedores desde maio do ano passado”, disse Lima.
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O intervalo coincidiu com o ciclo mais intenso de valorização dos metais preciosos em anos. Entre os dois primeiros semestres, a cotação à vista da prata em reais subiu 55% e a do ouro, 16%; desde 2022, a prata quase triplicou e o ouro mais que dobrou.
Maior percepção do risco geopolítico, decorrente de conflitos como a guerra entre EUA e Irã, e aumento das reservas de bancos centrais como o da China são apontados pelos analistas como principais fatores para o rali dos metais nos últimos anos.
Enquanto concorrentes absorviam a escalada em tempo real, a joalheria consumia matéria-prima adquirida a preços anteriores.
“Temos a política de não fazer hedges financeiros, uma vez que o estoque é o nosso hedge natural”, explicou o CFO.
A Vivara lista o hedge natural dos estoques e a reciclagem de metais entre as cinco fortalezas do seu modelo de negócio, ao lado da estratégia multimetal, da verticalização e do poder de precificação das marcas.
O desenho atravessa o balanço. A geração de caixa operacional somou R$ 147,3 milhões entre abril e junho, contra R$ 94,6 milhões um ano antes, e R$ 261 milhões no semestre, R$ 333 milhões acima do primeiro semestre de 2025.
Vivara Participacoes
A conversão de Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) em caixa alcançou 72% no trimestre, ante menos de 50% no mesmo período de 2025, e é o maior patamar já registrado para um segundo trimestre.
“Totalmente recorrente. É essencialmente puxado pela redução de dias de estoque”, respondeu o executivo, questionado se a conversão havia sido inflada por eventos pontuais.
O indicador de dias de estoque encerrou junho em 582, contra 670 um ano antes, queda de 88 dias que a companhia converte em R$ 234 milhões de capital liberado.
O saldo em reais ficou estável, em R$ 1,538 bilhão ante R$ 1,497 bilhão. O giro melhorou porque as vendas cresceram sobre uma base de estoque que parou de subir, não porque o estoque encolheu.
O executivo indica a possibilidade de uma retomada das compras, sem data definida. O retorno depende de variáveis fora do alcance da companhia, a cotação do metal entre elas, e ele classificou a informação como expectativa, não como decisão tomada.
Otimização de estoques
A pausa nas compras não veio de ruptura na cadeia de suprimentos. Ela integra um programa de otimização de estoques cobrado por investidores ao longo de 2025 e que agora reaparece no balanço convertido em caixa e em margem.
Durante o intervalo, a fábrica funcionou com o que já circulava dentro de casa: a parcela reciclada do metal e os derretimentos de peças de baixo giro.
Segundo o relatório de sustentabilidade da companhia, cerca de um terço do ouro processado vem de reciclagem interna, e dois terços de compra de terceiros, entre eles a AngloGold Ashanti, que extrai o metal em Minas Gerais e mantém acordo com a Vivara desde o fim da década passada.
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O metal barato explica parte do resultado. A outra parte é comercial. A receita bruta somou R$ 1,07 bilhão no trimestre, alta de 10,5%, ou 12,5% descontado o efeito de calendário, e R$ 1,82 bilhão no semestre, avanço de 11,8%.
As vendas em lojas cresceram 10% no trimestre, e relógios foi a categoria de maior expansão, 18,2%, puxada pelo segmento premium. Diferentemente dos dois trimestres anteriores, quando o volume conduziu o crescimento, desta vez o motor foi preço.
“Neste semestre, entregamos a nossa maior margem bruta histórica”, disse o executivo.
Fim de promoções
A companhia enxugou promoções e brindes nas duas marcas e aplicou reajustes seletivos, mais altos nas linhas de coleção, itens de menor comparabilidade que só existem no portfólio próprio, e mais contidos em alianças, correntes, argolas e itens religiosos, categorias em que a concorrência impõe teto. Os ajustes foram mais intensos na Vivara do que na Life, e o percentual médio não foi revelado.
“Por terem menos comparabilidade, eses itens podem ter um reajuste maior e um poder de precificação melhor”, disse o CFO.
O recorde do semestre convive com uma acomodação no trimestre isolado. A margem bruta de abril a junho foi de 71,7%, contra 72,2% um ano antes, ainda que 1,9 ponto percentual acima da registrada entre janeiro e março.
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O Ebitda somou R$ 205,4 milhões, com margem de 24,7% ante 25,7%, e o lucro líquido ficou em R$ 156,7 milhões, próximo aos R$ 155,3 milhões do segundo trimestre de 2025.
É no acumulado que a conta aparece. O lucro do semestre recuou a R$ 242,6 milhões, ante R$ 275,3 milhões, com margem líquida 4,2 pontos percentuais menor, em 17%.
A explicação está na mesma decisão que sustentou a margem bruta: produzir menos em Manaus reduziu a receita de subvenção do incentivo fiscal, de R$ 149,4 milhões para R$ 138,4 milhões, e diminuiu o imposto de renda diferido gerado pelas vendas entre fábrica e varejo, o que elevou a alíquota contábil. Em bases comparáveis, o lucro subiria 26% no trimestre e 25% no semestre. O movimento que liberou caixa comprimiu o resultado contábil.
A vantagem, além disso, tem prazo. À medida que peças produzidas com ouro mais caro entram no giro, o custo médio sobe e a margem se estreita.
“A Vivara vem gradativamente produzindo itens com esse ouro mais caro do que a companhia tem no estoque”, ponderou Lima.
O prazo encurta na proporção em que a rede cresce, porque cada ponto de venda novo exige mais produção e, portanto, mais metal.
Lojas
As aberturas aceleraram no segundo trimestre. Foram 17 pontos de venda, sendo 13 Life e quatro Vivara, contra cinco nos três meses anteriores, e encerrou junho com 520 endereços: 272 lojas Vivara, 237 Life e 11 quiosques. O guidance de 55 a 65 lojas em 2026 foi mantido, com o número tendendo ao meio da faixa.
Boa parte do plano consiste em completar a presença dupla das marcas. A Vivara está em 316 shoppings e opera as duas bandeiras em 191 deles, arranjo que, segundo o executivo, rende desempenho superior ao de praças com apenas uma. Restam 80 shoppings só com Vivara e 45 só com Life.
Nem toda a conta está em endereço novo. Entre as obras em curso está a loja do JK Iguatemi, em São Paulo, uma das que mais vendem na rede e hoje em operação temporária no formato pop-up, com reabertura prevista para o terceiro trimestre.
Fora do país, a operação se resume a uma unidade, no shopping Multiplaza, na Cidade do Panamá, aberta em outubro de 2024 em parceria com o Grupo Dorben, operador de marcas de luxo na América Latina.
A loja vende mais do que uma Vivara inaugurada em período semelhante no Brasil, informou Lima, sem previsão de segunda unidade nem de novos países.
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