Rio supera São Paulo em tráfego de helicópteros. E o petróleo explica a virada

Crescimento das operações do aeroporto de Jacarepaguá para plataformas offshore supera movimento de Campo de Marte e reforça protagonismo fluminense, explicou Flávio Pires, CEO da Associação Brasileira de Aviação Geral, à Bloomberg Línea

Aeroporto de Jacarepaguá concentra voos de helicópteros usados para transporte de pessoal da indústria de petróleo e gás
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Bloomberg Línea — O Aeroporto de Jacarepaguá, na zona oeste do Rio de Janeiro, superou o Campo de Marte, em São Paulo, em pousos e decolagens e se tornou o terminal com maior tráfego de helicópteros do país, segundo dados da Aeronáutica. A liderança de voos nesse tipo de aeronave era tradicional da capital paulista, cidade mais rica do Brasil.

A explicação está no petróleo. Quase todo o movimento de asa rotativa de Jacarepaguá vem do apoio às plataformas instaladas no mar, num vaivém que não para ao longo do dia.

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O aeroporto, conhecido pelo código SBJR, também atente operações de aviação executiva, táxi aéreo e voos de apoio a atividades econômicas e turísticas da região. São o segmento offshore (em alto-mar) e o helicóptero que respondem pelo posto de liderança.

“Hoje quem é responsável pelo número de operações do aeroporto é o petróleo”, disse Flávio Pires, CEO da ABAG (Associação Brasileira de Aviação Geral), à Bloomberg Línea.


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Em junho, Jacarepaguá registrou 6.630 pousos e decolagens, mais do que o triplo do Campo de Marte (2.051).

Os dados referentes a 100 aeródromos constam no Relatório Comparativo do CGNA (Centro de Gerenciamento da Navegação Aérea), órgão ligado ao DECEA (Departamento de Controle do Espaço Aéreo), no Comando da Aeronáutica.

“A cada meia hora, uma aeronave decola ou pousa para atender à exploração de petróleo e gás no litoral”, diz Pires.

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Para ele, o que houve foi mudança de escala. Os helicópteros que abastecem as plataformas estavam distribuídos por várias bases ao longo da costa, do Espírito Santo a Macaé, passando pelo norte fluminense, como Farol de São Tomé, principal praia de Campos de Goytacazes.

“Os contratos de offshore, as aeronaves que prestam serviço para a Petrobras têm aumentado gradativamente nos últimos cinco anos", afirmou o CEO da ABAG.

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Com o tempo, essas operações se concentraram na capital do Rio, no ritmo em que a produção offshore da bacia fluminense avançou.

“É mudança de patamar mesmo, e vai continuar aumentando à medida que aumenta cada novo contrato”, afirma Pires.

Procurada, a Petrobras não respondeu de imediato ao pedido de comentário sobre a concentração de contratos de voos em Jacarepaguá.

Como o principal polo da indústria petrolífera nacional, o Rio abriga as sedes administrativas das principais gigantes do setor, concentrando a operação de plataformas sobretudo nas bacias de Santos e Campos, por meio de consórcios com multinacionais como a Shell, TotalEnergies, Equinor, Galp, CNOOC, CNPC. Há ainda operadoras independentes como PRIO (antigo PetroRio) e a Enauta.

Quem colhe esse crescimento é a Pax Aeroportos, concessionária dos dois terminais, controlada pelo fundo XP Infra IV, administrado pela XP Asset Management, gestora da XP Inc, que arrematou o Jacarepaguá e o Campo de Marte no leilão de 2022. O contrato de 30 anos, a contar da assinatura da concessão em março de 2023, vence em 2053.

Por trás do fundo estão cerca de cinco mil cotistas pessoas físicas, que se tornaram, na prática, sócios do aeroporto mais movimentado em asas rotativas do Brasil. A Pax já ampliou o terminal de passageiros de Jacarepaguá, que ficou 60% maior.

Jacarepaguá está encravado na zona oeste, a região mais dinâmica do Rio e a de maior potencial de expansão imobiliária. No entorno, a Barra da Tijuca e o Recreio dos Bandeirantes concentram uma vida corporativa, comercial e turística de elite.

É ali que ficam os Estúdios Globo, maior canal de TV do país, e o complexo multiuso da Multiplan (MULT3), que reúne o BarraShopping, o New York City Center e o VillageMall, este voltado ao mercado de luxo, além do ParkShopping Jacarepaguá, também da operadora de retail real estate.

O aeroporto também serve aos executivos de escritórios quanto aos turistas que sobrevoam as praias, muitos deles partindo diretamente de heliportos espalhados pela cidade.

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Para quem opera no terminal, a dimensão do aeroporto pode ser até maior na comparação com outras cidades do mundo.

“Com mais de 90 mil operações de helicópteros em 2025, ele se tornou o maior centro de asas rotativas do mundo”, afirmou Paul Malicki, CEO da Flapper, plataforma de fretamento de táxi aéreo e jatos executivos do país, também com base em dados do DECEA do ano passado.

Pista do Aeroporto de Jacarepaguá

A virada de Jacarepaguá diante do Campo de Marte se consolidou no segundo semestre de 2025. Malicki explicou que, segundo dados da DCIA, entre janeiro e novembro de 2025, o aeroporto carioca registrou mais de 22 mil operações de helicópteros a mais em comparação ao ano anterior, o que representa um crescimento de 36%.

O executivo também atribuiu o salto de Jacarepaguá à combinação de voos offshore e panorâmicos.

A liderança do aeroporto do Rio é de fluxo, não de frota. São Paulo continua com o maior número de helicópteros baseados, com aeronaves matriculadas e hangaradas na cidade em quantidade que nenhuma outra capital reúne.

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Malicki calcula 243 helicópteros baseados em São Paulo, somando heliportos na região metropolitana como os da HBR, Helipark e Helicidade, contra menos de 200 no Rio.

“São Paulo provavelmente ainda é a cidade mais dependente de helicópteros do mundo”, disse o executivo, em vídeo postado na conta de Instagram da Flapper, acrescentando que “é sempre bom compartilhar um pouco dessa responsabilidade com outros centros urbanos”.

Investimento de R$ 120 milhões

Jacarepaguá tem pista de apenas 900 metros e navegação exclusivamente visual, sem instrumentos. É uma restrição física que limita o porte da asa fixa e deixa o campo livre para o helicóptero, que dispensa pista longa. Ali mantêm base operadoras como Bristow, Líder e Omni Táxi Aéreo, e a vocação, declarada pela própria concessionária, é servir aos voos que abastecem as plataformas da Bacia de Santos.

Em março, o Ministério de Portos e Aeroportos inaugurou as obras da Fase 1B em Jacarepaguá, cerca de R$ 120 milhões, preparando o aeroporto para a navegação por instrumentos (IFR). O IFR muda a economia do ativo porque hoje os dois operam por regra visual e fecham pista com tempo ruim.

Houve obras de restauração da pista de pouso e decolagem, a recuperação do pavimento do pátio de aeronaves, a modernização dos sistemas de iluminação e da sinalização vertical, além da implantação de áreas de segurança.

A concessionária Pax Aeroportos estuda transformar os dois terminais em bases para os eVTOL (aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical), em parceria com a operadora de vertiportos UrbanV. Se o projeto avançar, o mesmo aeroporto que hoje vive do petróleo será um dos primeiros a receber a aviação elétrica.