Preço do combustível faz venda de carro elétrico chinês disparar no Uruguai

A gasolina mais alta da América Latina tem impulsionado principalmente os emplacamentos de marcas como BYD no país

Um elétrico da BYD circula pelas ruas de Montevidéu, no Uruguai. Veículos movidos a bateria representam quase um quarto das vendas de carros novos e SUVs no país.
Por Ken Parks

Bloomberg — Os preços da gasolina no Uruguai, os mais altos da América Latina, estão impulsionando as vendas de veículos elétricos - principalmente chineses - no país, onde pela primeira vez superaram os emplacamentos de veículos a combustão.

O movimento ocorre em meio ao aumento dos custos de energia e às iminentes mudanças nos incentivos fiscais.

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Em um país conhecido por atrair os mais abastados da América do Sul, a gasolina premium custa atualmente cerca de US$ 2,40 por litro. O governo do Uruguai, que controla as importações e o refino de combustíveis, aumentou os preços em cerca de 21% desde 1º de abril, em consequência da guerra no Irã.

Embora ainda esteja atrás de lugares como Hong Kong e a Suíça, o preço na bomba no Uruguai é mais alto do que na Noruega, na França e no Reino Unido, apesar da renda significativamente mais baixa, de acordo com o site GlobalPetrolPrices.com. Também é mais alto do que nos países vizinhos, a Argentina (cerca de US$ 5,40) e o Brasil (quase US$ 4,90) por galão.

Os uruguaios compraram cerca de 9.500 veículos elétricos neste ano até maio, em comparação com cerca de 8.600 veículos a gasolina ou a diesel.

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Um deles foi Gustavo Berrueta. Com 56 anos, ele comprou um Seagull da BYD em maio cerca de US$ 22.000, por recomendação de amigos que já conheciam a empresa chinesa, que desbancou a Tesla (TSLA), de Elon Musk, como a maior vendedora mundial de veículos elétricos.

“Temos a gasolina mais cara do mundo neste país”, disse Berrueta enquanto dirigia seu novo Seagull. “Este carro será usado para trabalhar na Uber e, com um carro a gasolina, isso seria impensável.”

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O Uruguai lidera a América do Sul na adoção de veículos elétricos: sua participação nas vendas de automóveis novos, liderada por marcas chinesas como BYD e Geely, atingiu 43% entre janeiro e maio, quase o dobro do nível registrado no mesmo período do ano passado e um aumento em relação aos baixos índices de um dígito registrados ainda em 2023, de acordo com dados compilados pela associação do setor automotivo Acau.

Leia mais: Como os carros clássicos viraram tese de investimento desta gestora com R$ 2,2 bi

A participação de mercado dos veículos novos movidos a gasolina e diesel — segmento em que empresas ocidentais e japonesas têm presença mais forte — caiu para 39% nos primeiros cinco meses de 2026, ante 68% no ano passado. Os modelos híbridos ocupam o restante do mercado de automóveis novos no Uruguai.

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Carros eletrificados lideraram as vendas de novos entre Janeiro e Maio. Fonte: Entidades setoriais dos países

Até mesmo autoridades estão percebendo essa mudança. O presidente do Banco Central, Guillermo Tolosa, afirmou recentemente que os veículos elétricos e uma rede elétrica baseada em energia renovável ajudaram a mitigar o impacto inflacionário do choque nos preços do petróleo causado pela guerra no Irã.

Incentivos

A infraestrutura de recarga ainda não se tornou um gargalo para a adoção de veículos elétricos no Uruguai, um país um pouco maior que a Flórida, onde muitos motoristas recarregam seus veículos em casa. A concessionária estatal de energia UTE expandiu sua rede pública de recarga em todo o país para quase 500 pontos, ante 136 no final de 2021.

Martin Nuñez, diretor de vendas de concessionárias como a Sadar Portones, na capital Montevidéu, observou um aumento nas vendas de veículos elétricos desde abril, quando o governo aumentou os preços da gasolina em 7%.

“A explicação que muitos clientes que me procuram no meu showroom dão é que não aguentam mais os aumentos no preço do combustível e querem se antecipar aos aumentos de impostos”, disse Nuñez.

Atualmente, os veículos elétricos pagam um tributo de registro reduzido e estão isentos de um imposto de importação de 23%, bem como de um imposto especial de consumo, conhecido localmente como Imesi, aplicado a veículos movidos a gasolina, que pode chegar a 46%.

Carros e SUVs elétricos dominam os emplacamentos graças a incentivos e aumento do combustível. Fonte: Acau

O ministro da Fazenda, Gabriel Oddone, afirmou no mês passado que o governo planeja começar a reduzir gradualmente alguns desses incentivos fiscais para veículos elétricos no segundo semestre do ano, argumentando que o setor já está suficientemente consolidado para competir sem subsídios.

Isso poderia levar a um boom nas vendas de veículos elétricos nos próximos meses, antes que eventuais aumentos de impostos entrem em vigor, afirmou Delfina Matos, consultora sênior da Exante, empresa de consultoria empresarial com sede em Montevidéu.

“Provavelmente não veremos a mesma taxa de crescimento que observamos nos últimos anos”, disse Matos. “Algumas vendas não ocorrerão sem esses benefícios fiscais, dado o impacto deles no preço final.”

Justino Terra e sua esposa analisaram um SUV Geely EX5 antes de darem uma entrada no mês passado para a compra de um BYD Yuan Plus de US$ 36.990, com entrega prevista para meados de julho. O funcionário de banco de 29 anos, que estima dirigir milhares de quilômetros por ano, diz que queria deixar de pagar na bomba e garantir um bom preço.

“Agora era a hora de comprar, porque ouvi dizer que poderia haver mudanças no Imesi e no imposto de registro de veículos elétricos”, disse ele. “Nunca consideramos um carro a gasolina.”

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