Na Riachuelo, megafábrica em Natal vira pilar da estratégia para recuperar as margens

CEO André Farber, que chegou à liderança em 2023, focou na redução de estoques e transformou o parque têxtil que produz 37 milhões de peças em um dos motores de crescimento; lucro do grupo mais que dobrou em 2025 em relação ao ano anterior, mas ações ainda acumulam queda

Fábrica da Riachuelo em Natal, no Rio Grande do Norte
08 de Abril, 2026 | 06:00 AM
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Bloomberg Línea — A fábrica da Guararapes, em Natal, deixou de ser vista como uma “pedra no sapato” para se tornar peça central na estratégia da Riachuelo e um dos principais motores da melhora nos últimos anos de margens e lucro da varejista de moda.

Essa mudança coincide com a chegada do CEO profissional André Farber, em maio de 2023, e com um redesenho mais amplo do negócio, que envolveu redução de estoques, reorganização da cadeia produtiva, revisão de portfólio e venda de ativos.

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Nesse período, a empresa criou uma diretoria dedicada à área de supply chain, relançou marcas próprias - como o caso da marca focada em jeans Pool, ampliou a capacidade do parque fabril e concluiu a venda do Midway Mall, o maior shopping center de Natal, por R$ 1,6 bilhão, em dezembro do ano passado.

“O varejo de moda mudou muito nos últimos anos. Hoje não é só sobre custo, é sobre velocidade, qualidade, controle da cadeia e capacidade de responder rápido ao consumidor e às tendências”, disse o CEO André Farber em entrevista à Bloomberg Línea.

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Os números do balanço da empresa ajudam a entender essa virada.

O lucro líquido somou R$ 512 milhões no acumulado de 2025, mais que o dobro do ano anterior. A trajetória marca uma mudança relevante em relação a 2023, quando a companhia operou com prejuízo de R$ 34 milhões.

A companhia também encontrou uma alavanca relevante na operação financeira, cujo Ebitda cresceu 19,3% em 2025, para R$ 482 milhões, em meio à expansão disciplinada da carteira de cartões e empréstimos.

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Ao mesmo tempo, a gestão passou a extrair mais produtividade da ponta comercial, com aceleração do e-commerce, retomada da abertura e reforma de lojas e geração de valor por metro quadrado 33,5% maior em dois anos.

Apesar das mudanças que se refletem em números, o investidor da marca ainda se mostra receoso.

As ações do grupo (RIAA3) na bolsa acumulavam queda de quase 4% no ano até terça-feira (7), enquanto o Ibovespa registrava ganhos de 17%.

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Enquanto isso, no centro dessa virada está a fábrica de Natal. Considerada o maior parque têxtil da América Latina, a unidade reúne etapas que vão da malharia à customização, passando por tinturaria, lavanderia e costura, e concentra a base da estratégia de verticalização do grupo.

“Com a fábrica integrada, ganhamos agilidade para ajustar coleções, testar e reagir mais rápido. No fim do dia, não é só sobre custo de produção, é sobre eficiência da cadeia”, disse Farber.

A fábrica do grupo responde por cerca de 40% dos produtos vendidos pela Riachuelo e por aproximadamente metade das peças de vestuário nas categorias feminino, masculino e infantil.

Ao mesmo tempo, a empresa mantém importações em segmentos específicos, como alfaiataria e peças em nylon, que exigem maquinário mais especializado.

Desde a chegada do CEO, a unidade também passou a ajustar sua produção com foco em categorias consideradas essenciais para o negócio, como básicos e jeans — itens com maior rotatividade nas lojas.

Somada às oficinas de costura e fornecedores nacionais, a produção doméstica do grupo chega a 69% do total comercializado.

Em 2025, esse braço industrial forneceu cerca de 37 milhões de peças para abastecer as lojas em todo o país, sendo que 72% tiveram o algodão como principal matéria-prima.

Centro da operação

As costureiras e costureiros seguem no centro da operação: são cerca de 5.100 profissionais responsáveis pelas linhas de produção, que incluem categorias como feminino, básico e infantil.

Para uma jornada de 44 horas, o salário mínimo de um costureiro oscila entre R$ 1.800 a R$ 2.600 por mês.

A produção combinada da fábrica e das oficinas parceiras gira em torno de 120 mil peças por dia, enquanto a capacidade instalada da unidade é de cerca de 110 mil peças diárias.


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A companhia mantém ainda três centros de distribuição, localizados em Guarulhos (SP), Manaus (AM) e Natal (RN), que ajudam a sustentar a logística nacional.

Esse reposicionamento também é percebido internamente. “A fábrica virou uma só com o restante da companhia”, disse Abias Vale, responsável pela área de facilities, sustentabilidade e segurança do trabalho da fábrica.

Segundo ele, a integração com a fábrica e o restante da empresa aumentou a pressão por eficiência e melhorou o alinhamento com a estratégia comercial.

“Somos um fornecedor como outro qualquer. Se o nosso preço não for competitivo, o comercial compra do mais barato”, disse.

Parte de fiação de algodão da fábrica da Riachuelo

Essa maior integração entre a fábrica e a ponta, que são as lojas, faz parte de um redesenho mais amplo da operação. A companhia passou a investir em controle por SKU, uso de dados para precificação e uma logística mais escalável.

Essa mudança também aparece em indicadores operacionais. A geração de valor por metro quadrado cresceu 33,5% em dois anos, atingindo R$ 7.708 em 2025, segundo o último balanço financeiro da empresa.

Ao mesmo tempo, a fábrica passou a ocupar papel central também na agenda de sustentabilidade da companhia.

“A fábrica é um pilar da estratégia de sustentabilidade, porque concentra uma parte relevante das nossas emissões e é onde temos mais controle dos processos”, disse à Bloomberg Línea Taciana Abreu, diretora de Sustentabilidade do grupo.

Segundo ela, a verticalização permite ganhos operacionais e ambientais difíceis de capturar em cadeias terceirizadas. “A gente consegue olhar para todos os processos e buscar eficiência em escala.”

A executiva explica que a transformação recente da companhia vai além da operação e envolve uma mudança mais ampla de mentalidade. “Foi um arco de muita transformação — cultural, de visão — de entender o que vai levar a empresa para os próximos 70 anos”, disse.

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Esse processo incluiu decisões estruturais, como a venda de ativos, caso do shopping Midway. “São decisões que você corta na carne, mas que são necessárias para pensar nos próximos 70 anos”, disse Abreu.

Apesar do avanço, a estratégia não elimina a dependência com produtos do exterior e segue importando categorias como alfaiataria e tecidos sintéticos, em que a indústria asiática mantém vantagem competitiva.

“A China é muito melhor do que a gente nisso”, disse Taciana, ao explicar a decisão de focar o sourcing de tecidos específicos. “O preço é um fator decisivo no Brasil”, afirmou.

Além da aposta no algodão, a empresa investe em outros tipos de maquinário, como é o caso da estamparia digital, que reduz o uso de água e o custo das peças. Enquanto o jeans do tipo sarja custa cerca de R$ 28 por peça ao grupo, o jeans ‘normal’ que utiliza outro tipo de maquinário e customização custa cerca de R$ 34.

Do fundador à cultura da empresa

Quem visita a fábrica em Natal encontra um ambiente que preserva traços pouco usuais para operações industriais. Há funcionários circulando de bicicleta entre os setores e momentos de descanso ao ar livre durante os intervalos, próximos ao refeitório ou sob a sombra de árvores.

A cultura remete ao fundador Nevaldo Rocha, que, segundo funcionários, defendia um ambiente de trabalho mais confortável - sobretudo para as costureiras.

A história de Rocha se mistura com a da Riachuelo diante da proximidade que o fundador teve em vida com a marca. É possível encontrar faixas com frases motivacionais do empresário na fábrica.

Ainda jovem, ele deixou o interior do Rio Grande do Norte em um “pau de arara” (transporte improvisado) rumo a Natal, onde começou a trabalhar como balconista em uma loja de tecidos.

Frase motivacional na fábrica da Riachuelo em Natal com imagem do fundador, Nevaldo Rocha

Com o tempo, assumiu o negócio do antigo patrão e deu origem ao que viria a se tornar a Guararapes.

Sua trajetória ficou marcada pela aposta na produção local e na verticalização da cadeia, além de uma cultura empresarial voltada para o vínculo com os funcionários.

Rocha faleceu em 2020. Seu filho mais velho, Flávio Rocha, assumiu a condução do grupo e permaneceu como CEO até a chegada de André Farber, em 2023. Atualmente, ele ocupa a presidência do conselho da Guararapes.

Flávio Rocha também tem atuação na política. Chegou a se lançar como pré-candidato à presidência em 1994, foi deputado federal entre 1987 e 1995 e se filiou ao Novo no início de abril, depois de passar anos no Republicanos.

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