Bloomberg Línea — A MRV Incorporação, principal negócio do conglomerado MRV&Co, registrou um lucro líquido ajustado de R$ 132,8 milhões no primeiro trimestre de 2026 — resultado 7,4 vezes maior na comparação anual.
No entanto, a margem bruta – um dos indicadores mais acompanhados pelo mercado por sinalizar a rentabilidade futura da companhia e seu ritmo de recuperação – ficou estável em 31% na comparação trimestral, apesar da melhora de 3,7 pontos percentuais na comparação anual.
Esta foi a primeira interrupção do ciclo de alta da margem desde o segundo trimestre de 2022. O indicador é observado como termômetro central da tese de recuperação da MRV, que passou por um processo de turnaround após a explosão dos custos de construção no pós-pandemia.
Ricardo Paixão, CFO da MRV, reforçou que o cenário atual não é uma virada na tendência de bons resultados da companhia.
“Foi um ponto fora da curva”, afirmou em entrevista à Bloomberg Línea. “Olhando para frente, não vejo porque não possamos ter uma melhora similar ao ritmo anterior.”
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O que segurou a expansão de margem foi a deterioração das expectativas com a inflação de custos, causada pela guerra entre Estados Unidos e Irã no Oriente Médio.
Com a alta dos preços do petróleo e insumos do setor de construção, a MRV decidiu revisar de forma conservadora suas projeções de inflação, elevando em dois pontos percentuais a estimativa de custo sobre os empreendimentos já lançados. O efeito prático é um aumento no custo ainda a incorrer nas obras em andamento.
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O CFO afirmou ainda que o efeito da inflação deve ser parcialmente compensado pelas mudanças recentes no programa Minha Casa Minha Vida. No final de abril, o governo promoveu uma correção nas faixas de renda e nos parâmetros do programa, ampliando a capacidade de pagamento dos clientes em todas as faixas — da 1 à 4.
A atualização eleva o poder de compra dos usuários do programa e abre espaço para reajuste de preços por parte das incorporadoras, funcionando como uma válvula de alívio para a pressão de custos.
Segundo Paixão, a medida deve aparecer melhor nos resultados do segundo trimestre. “Os novos parâmetros do MCMV nos permitem tentar compensar, em parte, esse aumento potencial de inflação. Mas ainda não vimos efetivamente essa inflação acontecer, são projeções”, afirmou.
Prejuízo no consolidado da MRV&Co
Já a MRV&Co, grupo que reúne a MRV, Urba, Luggo e Resia, encerrou o primeiro trimestre de 2026 com prejuízo líquido ajustado de R$ 14,4 milhões.
O balanço do conglomerado segue impactado negativamente pela subsidiária americana Resia que, sozinha, registrou um prejuízo de R$ 120 milhões. O resultado reverteu lucro de R$ 116,5 milhões no quarto trimestre de 2025 e também ficou 94,5% abaixo do montante alcançado no mesmo período do ano anterior.
A subsidiária norte-americana registrou a venda de um ativo por valor inferior ao contabilizado no balanço, ampliando o prejuízo da operação.
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O plano de desinvestimento, no entanto, segue em curso: a companhia projeta concluir vendas relevantes de propriedades até o fim de 2026, o que deve reduzir progressivamente a alavancagem e a despesa financeira da unidade.
Apesar da pressão já esperada da Resia, a MRV também teve os resultados afetados por outro fator: o descasamento entre produção e repasses no trimestre. A MRV produziu em média 3.200 unidades por mês contra apenas 2.700 repassadas – um gap de 1.500 unidades que pressionou a geração de caixa e o reconhecimento de receita.
O CFO destacou que mais de 40% das vendas do primeiro trimestre se concentraram em março, impedindo que essas unidades fossem reconhecidas a tempo no resultado do primeiro trimestre. A expectativa é que o descompasso beneficie os resultados do próximo trimestre.
“Certamente no segundo trimestre teremos crescimento maior de receitas e de vendas. Vamos voltar pra aquela trajetória de resultado ainda mais forte”, disse.
A receita líquida consolidada da companhia somou R$ 2,776 bilhões no período, alta de 21,6% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior. As despesas operacionais consolidadas, por sua vez, totalizaram R$ 444,5 milhões, avanço de 6,5% na comparação anual.
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