Fintech Meu Tudo disputa consignado com o Pan sem canibalizar, diz CFO do BTG

Renato Cohn afirmou a jornalistas que a aquisição de 48% da fintech, concluída em abril e com opção futura de compra do controle, integra a nova vertical de varejo bancário, que pode chegar a 20% das receitas do BTG no médio prazo, ante 11% no primeiro trimestre

Pátio Malzoni, onde fica a sede do BTG Pactual e outras companhias como o escritório do Google em São Paulo

Bloomberg Línea — A fintech Meu Tudo, cuja aquisição de 48% foi concluída em abril pelo BTG Pactual (BPAC11) com opção de compra de controle, seguirá operando de forma independente dentro da nova vertical de Consumer Finance & Banking do banco e disputará espaço com o Banco Pan no mercado de crédito consignado sem, contudo, canibalizar a operação da subsidiária.

A avaliação foi feita pelo CFO do BTG, Renato Cohn, em teleconferência com jornalistas na segunda-feira (11), ao comentar o resultado do primeiro trimestre.

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“Não acho que ela canibaliza o Pan, mas, sem dúvida, ela compete com o Pan como ela compete com inúmeras outras instituições financeiras que fazem esse produto. Então, [isso ocorre] dentro de um processo de competição natural”, afirmou o executivo.


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“É uma empresa completamente independente que tem o nosso apoio e que continua o caminho dela de crescimento.”

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Sobre a opção de compra do controle da fintech, prevista no acordo, Cohn confirmou o mecanismo sem detalhar prazos: “Tem uma opção, ela é mais longa, mas tem, sim, uma opção de compra de controle”.

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A nova vertical, criada após a consolidação integral do Pan no começo deste ano, deve ganhar peso crescente na composição de receitas do BTG nos próximos anos.

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O segmento respondeu por 11% das receitas do banco no primeiro trimestre, ante 10% no trimestre anterior, e pode chegar a patamar próximo de 20%, segundo o CFO.

“No longo prazo, médio prazo, a gente conseguindo melhorar, é algo que poderia chegar acima de 15%, 20%, mas isso é no longo prazo, vai levar um tempo para que isso aconteça”, afirmou.

“É nessa direção que a gente caminha, para que a área de Consumer Finance fique uma área mais relevante dentro do conjunto de receitas do BTG."

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A ênfase no varejo bancário foi tema central também na teleconferência com analistas, quando representantes de bancos estrangeiros concentraram perguntas sobre a exposição crescente do BTG ao ciclo de crédito ao consumidor, historicamente mais sensível à inadimplência e a movimentos macroeconômicos do que as áreas de banco de investimento e gestão de patrimônio que consagraram a instituição.

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Indagado por jornalistas se a vertical não ficaria mais vulnerável ao cenário macro, Cohn reconheceu a ciclicidade, mas reafirmou a tese.

“A gente entende, obviamente, que esse negócio mais de varejo tem as suas ciclicidades, ela depende dos ciclos macroeconômicos, mas a gente entende também, a gente acompanha muito de perto a evolução desses ciclos e estamos confortáveis de continuar investindo e crescendo ali na área do varejo”, disse.

Fundada em Fortaleza em 2017 e com originação mensal próxima de R$ 2,5 bilhões, a Meu Tudo, cuja grafia comercial adotada pela fintech é meutudo, opera de forma 100% digital e concentra produção em consignado INSS e privado.

Além da Meu Tudo, o BTG anunciou recentemente acordo para adquirir o banco Digimais, em operação ainda sujeita a leilão competitivo conduzido pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos) e pelo Banco Central.

Cohn enquadrou a transação como movimento de special situations, área do banco com histórico em aquisições do tipo, mas a leitura no mercado é de que o conjunto reforça a frente de varejo.

Risco da aposta no consignado

A carteira de Consumer Finance cresceu 14% no trimestre, acima da expectativa do banco, impulsionada pelo consignado privado destinado a trabalhadores do regime CLT, produto regulamentado no ano passado.

“É uma linha nova, um produto novo no mercado, não só aqui no BTG, mas é um produto novo no mercado, e a gente é otimista e quer avançar nisso”, disse Cohn, que projetou crescimento sustentado da linha nos próximos 12 a 18 meses, ainda que sem repetir o ritmo trimestral.

No produto, o CFO destacou o consignado como vetor de crescimento estrutural. “O crédito consignado, tanto o público e mais recentemente o privado, veio para facilitar o acesso de crédito e baratear o acesso de crédito para uma parte muito relevante da população consumidora”, disse, citando a regulamentação do consignado CLT, aprovada no ano passado, como nova frente de expansão.

Em relação ao Pan, cujo ROE (rentabilidade) roda historicamente abaixo do BTG, Cohn projetou convergência até meados de 2028, citando que isso seria sustentado pela unificação dos sistemas bancários, ganhos de eficiência e melhora na originação.

Quanto ao impacto da maior exposição ao crédito de varejo no perfil de risco do banco, Cohn afirmou que a transição não altera de forma relevante a dinâmica de provisões.

“A parte nossa dessa parte de Consumer Finance é quase que integralmente com garantia. Se você pensar o crédito de veículos, que é a maior carteira, ela tem a garantia do veículo, e o crédito consignado tem a garantia da consignação do salário. Isso é 90% da carteira, ou mais, até quase 95% da carteira”, afirmou.

O CFO ressaltou que a métrica de alavancagem do banco, carteira sobre patrimônio, segue estável em 4,8 vezes.

Mercado de capitais em ano eleitoral

Sobre o cenário para o mercado de capitais no segundo semestre, Cohn minimizou o impacto da corrida eleitoral.

“Sinceramente, não acho que a eleição é um grande fator de volatilidade. O mercado está bastante acostumado e ciente com qualquer um dos cenários eleitorais que possa acontecer”, disse.

O executivo avaliou que mais de uma dezena de empresas estão prontas para acessar o mercado acionário, mas evitou citar nomes ou cravar números.

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