Bloomberg — Para o mundo exterior, a gigante brasileira da moda Azzas 2154 (AZZA3) parece viver um momento de destaque.
Sua mais recente campanha de inverno contou com Sarah Jessica Parker; Meryl Streep apareceu na estreia de Diabo Veste Prada 2 usando seus saltos pretos Scarpin; e Justin Bieber foi visto usando uma jaqueta puff estampada da companhia.
Dentro da sede corporativa, porém, uma crise ganha força.
Há meses, as ações da empresa estão em queda livre, e acumulam desvalorização de 60% desde uma fusão malsucedida em 2024.
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As vendas de muitas de suas 28 marcas estão estagnadas. A alta administração virou uma espécie de “porta giratória”, com pelo menos nove executivos deixando a companhia nos últimos dois anos.
E a tensão entre seus dois líderes — Alexandre Birman e Roberto Jatahy — veio a público na semana passada, quando os dois entraram em disputa judicial sobre a condução do negócio.
Os dois lados agora consideram até mesmo separar novamente a companhia, com a Azzas contratando o Itaú para avaliar uma cisão, informou o jornal O Globo na sexta-feira.
“A Azzas sempre foi vista como uma empresa premium, de alta qualidade”, disse Lucca Silva, gestor de portfólio da Persevera Asset Management.
Mas “quando a equipe se desintegra, a governança se deteriora e os talentos saem, tudo isso passa a ser seriamente questionado”.
Representantes da Azzas não quiseram comentar.
A companhia é um nome importante da indústria brasileira de calçados, reconhecida globalmente.
Sapatos da Schutz, marca da Azzas, aparecem regularmente na revista Vogue. O país também abriga empresas como Alpargatas, fabricante das icônicas Havaianas, e Grendene, uma das maiores produtoras de sandálias do mundo.
A Veja — cujos tênis se tornaram onipresentes nas ruas de Manhattan — pode ser uma marca francesa, mas boa parte de sua produção está concentrada no Brasil, cercada por abundante oferta de borracha e couro.
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Em 2024, a Arezzo Industria e Comercio, de Birman, e o Grupo de Moda Soma, de Jatahy, se uniram para formar a Azzas, reunindo marcas focadas em sapatos, vestidos, roupas esportivas e vestuário infantil.
Mas a companhia passou a enfrentar instabilidade e alta rotatividade. Em abril, as ações caíram 11% após a saída de Ruy Kameyama, visto como um elo entre Birman e Jatahy, menos de um ano depois de assumir a liderança da divisão de moda e lifestyle. Poucas semanas antes, Rafael Sachete, que passou mais de 20 anos na Arezzo e depois na Azzas, também havia deixado a empresa.
“Pelo menos metade do desempenho das ações desde a fusão foi influenciada por essa percepção de maior dificuldade de integração devido à alta rotatividade”, disse Rodrigo Gastim, analista do Itaú BBA, em entrevista.

Reportagens da imprensa local descreveram a relação tensa entre Birman — visto como um líder intenso, praticante de triatlo e envolvido em todos os aspectos do negócio — e Jatahy, conhecido por adotar um estilo mais laissez-faire.
Para os investidores, ficou claro com o tempo que os estilos dos dois entrariam em choque. Em teleconferência com investidores em junho, Jatahy afirmou que havia tanta fricção entre ele e Birman que “se tornou impossível trabalhar”.
Menos de um ano depois, os dois parecem próximos de seguir caminhos separados. Dias antes da reportagem sobre uma possível cisão nos negócios da Azzas, veio à tona que Jatahy, responsável pela operação de moda feminina da companhia, apresentou um pedido judicial relacionado à gestão de uma marca masculina, segundo reportagem de O Globo.
A Azzas respondeu dizendo ter sido “surpreendida” pela iniciativa e acrescentou que esse tipo de decisão cabe ao CEO, Birman.
Um representante de Birman não quis comentar.
A disputa agora está em arbitragem, cujo início era esperado para o fim da semana passada, segundo O Globo.
O processo “pode durar meses, sem garantia de que as negociações entre as partes levem a uma solução no curto prazo”, escreveu João Pedro Soares, analista do Citigroup, em relatório na segunda-feira.
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“Uma separação ou cisão pode acabar sendo o desfecho que mais gera valor para o grupo neste momento, diante das incertezas sobre governança.”
Soares recomenda posição neutra para a Azzas, considerando as ações de alto risco. Atualmente, o papel conta com sete recomendações equivalentes a compra, ante pelo menos 13 na época da fusão, segundo dados compilados pela Bloomberg.
Como ocorre com muitas empresas no Brasil, os juros em dois dígitos representam um desafio para o negócio.
No último trimestre, a divisão de sapatos e bolsas da Azzas registrou queda anual de 6,9% na receita bruta, enquanto as vendas da unidade de básicos despencaram 19%. No consolidado, o lucro líquido caiu 67%.
Ainda assim, há pontos positivos. Um deles é a FARM Rio, marca conhecida pelas estampas coloridas usadas por artistas como Bieber e Beyoncé. As vendas internacionais da marca cresceram 17% na comparação anual.
“A FARM é a potência do grupo”, disse Gastim, do Itaú BBA. “A marca continua abrindo novas lojas, o crescimento em dólar tem sido bastante forte e hoje ela é o principal motor de expansão da companhia.”
Soares, do Citi, também vê a marca — supervisionada por Jatahy — como a joia da coroa da Azzas.
“Acreditamos que o cenário mais provável é uma capitalização ou cisão da marca FARM, dadas suas perspectivas de crescimento mais fortes em relação ao restante do grupo”, escreveu.
--Com a ajuda de Gabriel Diniz Tavares.
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