Crise da Ypê aquece procura por concorrentes e marcas próprias de supermercados

Nas prateleiras dos supermercados, varejistas buscam ocupar o espaço deixado pela líder do setor com seus próprios produtos ou com os de concorrentes; Ypê apresentou à Anvisa mais de 200 ações em implantação nas linhas de produção e controle

Gôndola de detergentes em loja da bandeira Dia em Vila Gomes, zona oeste de São Paulo, nesta quarta-feira (13). O espaço antes ocupado pela Ypê foi preenchido pela marca própria da rede após a determinação da Anvisa

Bloomberg Línea — O recolhimento de produtos da Ypê determinado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) abriu uma janela para outra disputa nas gôndolas. Algumas redes de supermercados de conveniência adotaram a estratégia de ocupar o espaço deixado pela líder com a própria marca.

Jéssica Costa, head e sócia da AGR Consultores, afirma que o movimento depende do perfil de público de cada bandeira. Clientes mais sensíveis a preço tendem a migrar para a marca própria, que costuma entrar abaixo do produto recolhido.

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Já o consumidor que prioriza segurança percebida vai à rival tradicional, no caso a Limpol, da Bombril. “A marca própria também pode ocupar o espaço na gôndola como um abastecimento temporário, evitando o vácuo”, afirmou Costa à Bloomberg Línea.


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Para a consultora, o ideal é dividir a prateleira entre a linha da rede e a marca rival, de forma a atender tanto o cliente que prioriza economia quanto aquele que privilegia segurança conhecida.

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A Bloomberg Línea visitou na quarta-feira (13) uma loja da bandeira Dia em Vila Gomes, na zona oeste de São Paulo. O vão antes dedicado ao detergente líquido Ypê amanheceu ocupado pelos frascos da linha “Melhor a Cada Dia”.

Leia mais: Anvisa nega recurso da Ypê e mantém suspensão a 23 produtos da marca de limpeza

A etiqueta de preço da Ypê seguia colada ao trilho da prateleira, apontando para o vazio. Uma caixa de papelão da Ypê com produtos em pó, ao fundo, indicava a circulação recente da marca no estoque. O concorrente Limpol também sumiu da gôndola ao lado.

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A Dia Brasil informou à Bloomberg Línea que iniciou “imediatamente o protocolo interno para retirada preventiva em todas as lojas dos itens impactados” assim que tomou conhecimento da decisão da Anvisa.

A rede afirmou em nota não ter identificado desabastecimento nas unidades, e reforçou o estoque com produtos de outras marcas de mesma categoria. “Seguimos acompanhando possíveis novas manifestações da Anvisa e do fabricante sobre o tema e consequentes atualizações nos protocolos atuais”, disse a empresa.

Mudança de hábito

Na sexta-feira (15), a Anvisa rejeitou o recurso administrativo apresentado pela Química Amparo, fabricante da marca e decidiu manter a suspensão da fabricação, comercialização, distribuição e uso de 23 produtos da marca Ypê.

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A medida atinge linhas de lava-louças, sabão líquido para roupas e desinfetantes com numeração final 1 no lote, fabricados na unidade de Amparo, município do interior paulista.

A agência manteve, contudo, suspenso o recolhimento, à espera de plano de gestão a ser apresentado pela fabricante para os produtos já distribuídos no varejo.

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Entre os profissionais de limpeza, o número “1” no final do lote virou o símbolo do alerta sobre os produtos. “Quando o áudio caiu nos grupos de WhatsApp das diaristas, ninguém esperou laudo. Eu mesma avisei o gerente do hotel para descartar tudo o que tinha”, afirma Fátima da Costa, responsável pela limpeza de um pequeno hotel na zona oeste.

Ela diz que usava o detergente Ypê diariamente, em estoque renovado toda semana. Quando o alerta circulou, suspendeu o uso no mesmo turno. Migrou para a Limpol até o produto da marca se esgotar nas prateleiras. Agora limpa louça com a marca da rede de supermercado. “O cheiro é diferente, mas faz espuma”, diz Fátima.

A Química Amparo, fabricante da Ypê, fatura cerca de R$ 10 bilhões por ano. A empresa é a segunda maior do setor de limpeza doméstica no Brasil, atrás da Unilever, dona de Omo, Comfort e Cif. Concorre ainda com a P&G, fabricante de Ariel, Downy e Ace, e com a Reckitt, dona de Veja e Vanish. Entre as nacionais, Bombril, Flora (Minuano, da J&F) e Limppano (ODD) operam em escala menor.

A Limpol, porém, tem limites para surfar a crise da concorrente. A marca pertence à Bombril, que entrou em recuperação judicial em fevereiro de 2025 e adiou no último 30 de abril a divulgação dos resultados de 2025, em razão dos trabalhos de auditoria em curso, segundo comunicado.

A companhia registrou receita bruta de R$ 1,847 bilhão nos primeiros nove meses de 2025, último período consolidado disponível, alta de 6,3% na comparação anual.

O volume vendido somou 348,5 mil toneladas, avanço de 7,4%. Os números agregam o portfólio inteiro da fabricante, que inclui também Pinho Bril, Mon Bijou, Kalipto e a palha de aço Bombril. A marca Limpol está entre as dadas em garantia das debêntures emitidas pela companhia. A Bombril não respondeu ao pedido de comentário enviado pela reportagem.

Amaciante Ypê em parceria com a L'Occitane au Brésil, na versão rosa, permanece na gôndola da rede Dia em Vila Gomes. A linha está fora do recall da Anvisa.

Rastreabilidade industrial

A Química Amparo, da Ypê, reconheceu em reuniões técnicas com a Anvisa nesta semana que as falhas apontadas pela fiscalização precisam ser corrigidas, e apresentou mais de 200 ações em implantação nas linhas de produção e controle.

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A empresa informa que manteve a linha de produção inoperante desde 7 de maio, e iniciou ações de limpeza, readequação de processos, melhoria do controle de qualidade e aquisição de equipamentos.

Segundo o advogado Fernando Moreira, doutor em Engenharia de Produção com ênfase em Governança e Compliance e professor da FGV, a rastreabilidade industrial é o que permite à fabricante isolar o problema sem paralisar a operação inteira.

“O recall a lote específico pressupõe que a empresa consiga, pelos sistemas internos, demonstrar à autoridade sanitária em que ponto da linha o desvio ocorreu. Sem isso, o recolhimento se amplia”, afirma Moreira, que não tem relação direta com o caso.

O risco sanitário, depois da determinação da agência, já basta para gerar direito a troca ou reembolso, independentemente de dano comprovado, segundo o advogado.

O episódio entra numa lista que o varejo brasileiro conhece bem. Recalls coordenados por vigilância sanitária vão de extratos de tomate a casos mais graves. Um surto de intoxicações por metanol adicionado ilegalmente a bebidas alcoólicas, em substituição ao etanol mais caro, mobilizou em 2025 Anvisa, Ministério da Saúde e governos estaduais.

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