Bloomberg Línea — Em um ano desafiador para a indústria de cervejas, a Ambev avalia que não só conseguiu ganhar eficiência em diferentes frentes de sua operação como colheu frutos de uma estratégia adotada há mais tempo de investir nos segmentos que mais crescem, em particular na categoria de cervejas.
Foram resultados que refletiram a priorização da chamada ambidestria, de fortalecimento de pilares operacionais ao mesmo tempo em que a companhia continuou a investir em inovação de olho no crescimento. E que sustentam uma perspectiva considerada favorável pelo management.
“O ano de 2025 foi chamado internamente na Ambev de um teste de estresse, com um impacto sobre a indústria e uma retração em volume não vista em uma série longa de dez a doze anos, sob efeito muito forte do clima”, disse Guilherme Fleury, CFO (Chief Financial Officer) da Ambev, em entrevista à Bloomberg Línea.
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Houve queda de 4,5% no volume de cervejas no Brasil, com queda de um dígito alto nas bebidas do segmento core, como Skol e Brahma, em parte compensada pela expansão de 17% em marcas premium , como Corona, Original, Spaten e Stella Artois, e de 30% no zero álcool, com Corona Cero e Budweizer Zero (veja mais abaixo).
Segundo o executivo, 70% do delta da indústria de cervejas no ano passado foi explicado pelo clima, marcado por temperaturas mais baixas nas regiões Sudeste e Sul, principalmente a partir do meio de maio e junho.
“Voltamos a exercitar o que é historicamente uma força da Ambev, que é o foco no que a gente controla, protegendo o que é relevante para a geração de valor de longo prazo”, disse o executivo.
Apesar da queda em volume em 2025 – de 3,3% no resultado orgânico da companhia -, a receita líquida cresceu 4,0%, sob efeito da combinação de mix favorável, “premiumização” e gestão de receitas, enquanto o Ebitda avançou 5,6%, com ganho de 50 pontos base na margem Ebitda ajustada, para 33,4%.
Na avaliação da direção da Ambev, houve mais um impacto na frequência e nas ocasiões de consumo de cerveja – em bares, por exemplo - por causa do clima do que uma mudança de comportamento que reduzisse a demanda, um fenômeno mais evidente em mercados maduros.
Diante do diagnóstico, a empresa decidiu proteger os investimentos por trás das marcas – em marketing e em ações de conexão com os consumidores.
“Reavaliamos a alocação de recursos olhando para todas as linhas do P&L [o demonstrativo financeiro], como produção industrial e toda a frente logística, de tempo de entrega à distância entre a cervejaria e os mercados consumidores.”
Houve também impacto sobre o pagamento de bônus, que veio mais fraco em um ano em que o volume vendido ficou aquém do que era esperado.
Mas isso não impactou o nível de engajamento dos funcionários, pelo contrário, segundo o executivo: tais métricas atingiram o all-time high, o que sinalizou o comprometimento em momentos desafiadores, algo que ele ressaltou como parte do DNA da companhia.
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Segundo o CFO, apesar do ano duro em termos de volume da indústria, houve duas notícias relevantes: “nós lideramos onde houve crescimento”, em referência aos segmentos do mercado de cerveja.
No quarto trimestre em particular, Fleury disse que a expansão dos segmentos premium e zero álcool se deu em razão do desempenho de marcas da Ambev, o que se traduziu, portanto, em ganho de market share.
Trata-se de um momentum que a empresa tem buscado explorar neste começo de ano de 2026, segundo Fleury, que citou o lançamento recente da Skol Zero Zero – marca sem álcool, zero açúcar, sem glúten e de baixa caloria -, o que representa um investimento no segmento denominado de core.
“Para nós, é muito claro que ainda existem muitas oportunidades para desenvolver o mercado brasileiro [de cervejas]”, disse o executivo, citando que a empresa enxerga uma responsabilidade em liderar também essa frente.
Um exemplo citado foi o da Stella Pure Gold, lançada em 2023 e considerada a primeira cerveja sem glúten do país entre as grandes cervejarias – a marca teve expansão de 153% em volume em 2025.
“Há oportunidades tanto em aumento da frequência de consumo [de cerveja] como em novas subcategorias, em linha com três tendências”, segundo Fleury.
A primeira é a valorização de bebidas fáceis de tomar, dadas questões como o clima quente; a segunda é a busca por bebidas com sabor, por vezes adocicada ou com toque de limão – endereçada com o lançamento no Brasil da marca Flying Fish, originária da África do Sul, no segundo semestre de 2025.
E a terceira tendência é a de health & welness, que se traduz na preferência por bebidas sem álcool, com baixa calorias e até funcionais.
“São segmentos em que podemos começar com 100% de share, dado que se trata de inovações que inauguram novas subcategorias”, destacou.
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O fortalecimento de pilares da operação aliado ao investimento contínuo em inovação de marcas sustenta também uma perspectiva mais favorável para 2026 diante da avaliação de que a demanda por cerveja segue presente em mercados emergentes como aqueles em que a Ambev tem maior atuação, sob os drivers de impulso demográfico e de crescimento de renda.
Neste ano, um fator de impulso relevante da demanda deve vir da Copa do Mundo de futebol, nos Estados Unidos, no México e no Canadá, em junho e julho.
“Haverá mais ocasiões que reúnem as pessoas, em momentos de celebração”, disse o executivo, citando dos horários dos jogos – o Brasil na primeira fase, por exemplo, entrará em campo duas vezes às 19h de Brasília, e uma às 22h - ao aumento do número de partidas na competição no formato inédito com 48 países.
Essas ocasiões de consumo vão se dar justamente nos meses que foram mais afetados pelo clima frio em 2025.
Outro fator não recorrente que deve funcionar como impulso é o número de feriados “emendáveis” ao longo de 2026.
O CFO da Ambev, por outro lado, reforçou que essa perspectiva favorável é apenas um componente da equação de vendas e resultado que depende de a empresa continuar a fortalecer a sua “musculatura” operacional e a sua estratégia de investimento em marcas e nas conexões com consumidores.
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