Ambev dá ‘primeiro passo’ para um ano positivo com portfólio reforçado, diz CFO

Em entrevista à Bloomberg Línea, Guilherme Fleury detalha a estratégia que levou a empresa a bater o consenso e diz que crescimento do volume em cerveja não foi por aumento de estoques

Ambev

Bloomberg Línea — Depois de um ano duro em 2025, impactado por um clima desfavorável que reduziu o consumo de cerveja no Brasil, a Ambev registrou no primeiro trimestre um resultado que surpreendeu analistas e levou a ação da fabricante de bebidas (ABEV3) a valorizar 15,30% na terça-feira (5).

Para o CFO, Guilherme Fleury, o desempenho nos primeiros três meses do ano é um “primeiro passo relevante” para entregar um resultado positivo em 2026, em um ano favorecido pela Copa do Mundo, por um calendário de feriados mais denso e por projeções de um clima menos adverso para o setor.

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“Começamos bem e sabemos o que temos que fazer para entregar. Nosso portfólio está muito bem encaixado, e vamos continuar trabalhando duro para isso”, disse Fleury em entrevista à Bloomberg Línea, após a divulgação dos resultados.


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Na visão do executivo, a Ambev colheu os frutos de um trabalho que tem sido realizado ao longo do último ano, que inclui um esforço para fortalecer seu portfólio de bebidas e revisar a sua alocação de recursos.

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Isso, de acordo com o executivo, permitiu manter o crescimento do Ebitda e das margens em 2025 e preparar o terreno para os resultados positivos deste começo de ano. “A gente entra em 2026 mais forte – com marcas mais fortes, com essa disciplina financeira mais sólida, com esse exercício de alocação de recursos mais maduro”, afirmou.

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Na visão do CFO, o que faltou em 2025 para alcançar resultados melhores foram momentos que favorecem as celebrações, prejudicados pelo clima, e não porque o brasileiro deixou de gostar de cerveja.

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Isso muda em 2026. Depois de um carnaval que foi “forte”, segundo ele, a expectativa é positiva para a Copa do Mundo, com horários favoráveis dos jogos do Brasil na primeira fase.

“A gente tem mais do que 11 marcas jogando muito bem, muito bem posicionadas, cada uma fazendo o seu papel — e ainda tem algumas no banco que vão entrar em jogo", disse o executivo, fazendo uma brincadeira com o futebol.

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Segundo o executivo, o crescimento de 1,2% do volume de cerveja vendido no Brasil – que superou o consenso – é explicado por um ganho de participação de mercado e da recomposição de estoques no início do ano, que ficaram baixos após um dezembro excepcionalmente forte.

O executivo negou que a expansão tenha refletido uma acumulação de estoques no canal de distribuição, já em preparação para a Copa do Mundo, algo apontado por alguns analistas.

“A gente não fez estoque no trimestre”, afirmou o CFO. “O segundo trimestre será, obviamente, relevante nessa construção de estoque quando olharmos para a Copa do Mundo – que pega um pedaço do segundo e um pedaço do terceiro trimestre –, mas nada disso impactou o Q1.”

A questão foi levantada entre analistas em relatórios após a divulgação dos resultados. O Bank of America e o BTG Pactual apontaram a possibilidade de que o volume reportado tivesse sido inflado pelo reabastecimento do canal, que inclui vendas a distribuidores, atacadistas e pontos de venda – e não por crescimento real do consumo.

Inovação no ‘core’

A expansão do volume foi puxada principalmente pelo crescimento das marcas de alto valor – como Stella Artois, Spaten, Corona e Original –, que cresceram acima de 20% no trimestre, segundo a empresa.

No entanto, as marcas do segmento principal (chamado de “core”), voltadas ao consumidor de menor renda e ao consumo em bares e estabelecimentos, registraram queda de um dígito baixo.

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O CFO reconheceu a divisão, mas disse que a Ambev tem se empenhado para fortalecer o segmento, com a visão de que “a categoria de cerveja precisa ter um core forte”.

Na visão dele, a força no core proporciona uma base para inovar e crescer em verticais relevantes, como em produtos zero álcool, cervejas saborizadas e drinks prontos, que são novas apostas da fabricante.

Ele cita como exemplo a Skol Zero Zero, uma cerveja sem álcool, sem açúcar, sem glúten e com 12 quilocalorias por lata. Segundo ele, a receptividade do consumidor nos mercados do Sul e Sudeste, onde o produto foi lançado, tem sido positiva.

“O core é importante do ponto de vista de acessibilidade da categoria, ao mesmo tempo que precisamos trazer produtos novos que conectam o consumidor em outros segmentos”, disse o CFO. “O que temos feito dentro do core é trabalhar para dar a ele o peso que merece.”

A visão é de que a categoria de cerveja hoje é versátil e oferecer oportunidades de crescimento em várias frentes. “Quando você olha outros mercados, como o México, você vê mixtures e drinks feitos a partir de uma base alcoólica de cerveja. No Brasil isso ainda é muito incipiente – tem muito espaço para crescer", disse Fleury.

No portfólio de bebidas sem álcool, de baixa calorias e sem glúten, a empresa registrou crescimento de 70% no primeiro trimestre, com destaque para o avanço de 170% da Stella Pure Gold, de 180% da Michelob Ultra e de 70% da Corona Cero.

Custos e preços

Enquanto avança no portfólio premium, a Ambev também busca estratégias para lidar com a pressão do aumento dos custos.

Sobre a possibilidade de acelerar o repasse de preços ao consumidor para compensar esse aumento, Fleury foi cauteloso. O CFO evitou dar indicação sobre a trajetória de preços para os próximos trimestres, mas descreveu a lógica que orienta as decisões da empresa.

Segundo o executivo, a Ambev busca um equilíbrio entre proteger o crescimento da categoria e proteger a rentabilidade – e enxerga ganhos de produtividade industrial como um caminho para reduzir a dependência do repasse de preços.

“Se consigo trazer produtividade industrial, consigo proteger a categoria tendo menos necessidade de colocar preço nessa equação”, afirmou.

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