Tom ‘hawkish’ do Fed freia recuperação de títulos de mercados emergentes

Postura mais dura de Kevin Warsh limitou a queda nos rendimentos impulsionada pela trégua entre EUA e Irã, e analistas de Wall Street já apontam o Fed como o novo risco principal para a dívida emergente

Kevin Warsh, novo presidente do Fed, adotou postura favorável a juros mais altos - indicador que preocupa mercados emergentes de títulos
Por Marcus Wong - Malavika Kaur Makol

Bloomberg — Justamente quando parecia que os títulos de mercados emergentes teriam um respiro diante da queda nos preços da energia, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Kevin Warsh, adotou um tom mais duro e mudou o cenário.

A guinada para uma postura mais restritiva de Warsh na reunião do Fed deste mês interrompeu a recuperação da dívida dos países em desenvolvimento.

PUBLICIDADE

Isso limitou a queda nos rendimentos impulsionada pelas negociações de paz com o Irã a movimentos muito menores do que os observados após o cessar-fogo de 8 de abril.

Agora, o principal risco para esses títulos passou a ser o banco central dos EUA, em vez do mercado de petróleo, afirmam os principais bancos de Wall Street, incluindo o Citigroup e o Goldman Sachs.


Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.

PUBLICIDADE

A nova ameaça é reforçada por uma correlação crescente entre as taxas de rendimento dos títulos do Tesouro e as dos mercados emergentes.

“A trajetória das taxas de juros dos EUA foi reavaliada para níveis muito mais altos”, disse Philip Fielding, gestor de carteiras da Fidelity International em Londres.

“Isso levou a um fortalecimento generalizado do dólar americano, criando um obstáculo óbvio para as posições em moeda local dos mercados emergentes financiadas em dólares.”

PUBLICIDADE

Um Fed mais hawkish, que leva a um aperto generalizado nas condições de financiamento, afetaria países que dependem mais fortemente de influxos de capital estrangeiro, como a Turquia e a Colômbia, disse Fielding.

Sensibilidade dos títulos de mercados emergentes subiu no último trimestre

Os comentários de Warsh em sua primeira reunião de política monetária como presidente do Fed — de que o banco central não tolerará inflação elevada — impulsionaram os rendimentos dos títulos do Tesouro americano e o dólar.

O dólar está agora a caminho de seu melhor desempenho mensal em um ano, enquanto o rendimento dos títulos de cinco anos dos EUA permanece mais de 60 pontos-base acima do nível em que se encontrava antes do início do conflito com o Irã.

PUBLICIDADE

“Logo após a assinatura do acordo entre os EUA e o Irã para pôr fim à guerra, as taxas locais dos mercados emergentes enfrentam agora um novo adversário — um Fed hawkish”, escrevem os estrategistas do Goldman Sachs, incluindo Kamakshya Trivedi e Danny Suwanapruti, em uma nota de 18 de junho.

Leia também: Sob Warsh, Fed prioriza combate a inflação e derruba operação pró-ouro e bitcoin

Petróleo alivia pressão

O acordo de paz entre os EUA e o Irã, firmado neste mês, removeu um dos maiores obstáculos para as economias em desenvolvimento ao pressionar os preços do petróleo para baixo, o que aliviou as pressões inflacionárias e deu aos bancos centrais dos mercados emergentes mais flexibilidade na política monetária.

O movimento é positivo para os títulos de dívida dos países em desenvolvimento, já que uma inflação mais moderada aumenta a perspectiva de futuros cortes nas taxas, impulsiona os preços dos títulos existentes e, ao mesmo tempo, melhora as perspectivas para muitas economias importadoras de petróleo.

No entanto, o dólar mais forte torna os bancos centrais dos mercados emergentes mais cautelosos quanto a sinalizar uma flexibilização da política monetária, o que limita o espaço para que os títulos em moeda local ampliem seus ganhos.

“O bastão dos fatores de risco será passado do petróleo para o Fed e o El Niño”, escreveram estrategistas do Citigroup, incluindo Luis Costa, em uma nota publicada em 18 de junho.

“É provável que os bancos centrais continuem cautelosos ao sinalizar que o risco passou, o que poderia manter os prêmios de risco elevados nos títulos em moeda local dos mercados emergentes.”

A correlação móvel de 30 dias entre os rendimentos dos títulos de cinco anos dos EUA e os títulos da América Latina com vencimentos semelhantes subiu para 0,49 na semana passada, ante 0,10 no final de fevereiro, enquanto a correlação para os mercados emergentes da Europa, Oriente Médio e África subiu de 0,03 para 0,43. Nos países emergentes da Ásia, a correlação subiu de 0,04 para 0,09.

Essa relação é ainda mais forte em alguns mercados de maior rendimento. A correlação de 30 dias entre as taxas de rendimento de cinco anos dos EUA e do México ultrapassou 0,8 em junho.

Leia também: Canal do Panamá amplia receita após fechamento do estreito de Ormuz redirecionar navios

Tom mais ‘hawkish’

Porém, nem todos esperam que taxas mais altas nos EUA prejudiquem essa classe de ativos.

A magnitude do risco para os títulos em moeda local dos mercados emergentes “depende do motivo pelo qual o Fed se torna mais hawkish”, afirmou Ward Brown, gestor de carteiras de renda fixa da MFS.

“Se a política monetária mais restritiva refletir um crescimento mais forte, as implicações para a dívida em moeda local dos mercados emergentes provavelmente permanecerão positivas no geral, com os fundamentos específicos de cada país e as iniciativas de reforma continuando a impulsionar o desempenho”, disse ele.

Por enquanto, os investidores afirmam que a durabilidade do acordo de paz entre os EUA e o Irã continua sendo outra variável-chave.

Uma redução duradoura nas tensões geopolíticas ajudaria a manter os preços do petróleo sob controle e preservaria espaço para que os bancos centrais flexibilizassem a política monetária, enquanto qualquer retomada do conflito poderia reverter rapidamente esses ganhos.

O acordo de paz provisório “é um fator positivo líquido para os títulos em moeda local dos mercados emergentes”, afirmou Hakan Aksoy, gestor sênior de carteiras de mercados emergentes da Amundi.

Ainda assim, “a durabilidade do acordo de paz ainda não é certa, por isso continuamos a esperar volatilidade bidirecional nos mercados, impulsionada pelas notícias”, disse ele.

Veja mais em bloomberg.com

Leia também

EUA e Irã lançam novos ataques e colocam cessar-fogo em risco

Itaú eleva projeção para o dólar em 2026 e vê apenas mais um corte da Selic neste ano