Tesouro age para aliviar a pressão no mercado de títulos públicos indexados à inflação

Governo já reduziu volume dos leilões de NTN-Bs, cancelou vendas para preservar a liquidez do mercado e está preparado para ir mais longe, disse o secretário do Tesouro Nacional, Daniel Leal, à Bloomberg News

As recompras são parte da atuação do Tesouro, afirmou o secretário do Tesouro Nacional, Daniel Leal (Foto: Arthur Menescal/Bloomberg)
Por Martha Beck - Beatriz Reis
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Bloomberg — O Tesouro Nacional está preparado para intensificar ações para aliviar a pressão no mercado de títulos públicos indexados à inflação, NTN-Bs, que movimenta cerca de R$ 2,3 trilhões, afirmaram dois dos principais responsáveis pela gestão da dívida pública em entrevista à Bloomberg News, à medida que as preocupações dos investidores elevam os juros reais desses papéis.

O governo já reduziu o volume dos leilões de NTN-Bs e cancelou vendas para preservar a liquidez do mercado. Mas as autoridades estão preparadas para ir ainda mais longe, realizando recompras desses títulos, se necessário, segundo o secretário do Tesouro Nacional, Daniel Leal, e o subsecretário da Dívida Pública, Francisco Segundo.

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“Temos paciência e caixa suficientes para continuar emitindo pouco pelo tempo que julgarmos necessário”, disse Segundo. “E caso o mercado opere com a disfuncionalidade a ponto de exigir uma recompra, a gente vai fazer.”


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As recompras são parte da atuação do Tesouro, afirmou Leal. Segundo ele, às vezes apenas reduzir a oferta de títulos é suficiente e, em outras ocasiões, cancelar um leilão basta para que o mercado volte ao equilíbrio sem necessidade de medidas adicionais. “A recompra eventualmente pode acontecer como aconteceu no início do ano, como aconteceu em outros momentos pelo Tesouro. Ela é só um outro tipo de atuação”, disse.

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“Por isso que a gente tem tenta ficar sempre com o caixa confortável, a gente não tem pressa”, afirmou Leal.

As preocupações dos investidores com a situação fiscal do Brasil, somadas a fatores técnicos, estão elevando fortemente os juros reais, fazendo com que os mercados financeiros exijam prêmios excepcionalmente altos para manter títulos do governo.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem ampliando os gastos públicos para sustentar o crescimento da economia enquanto busca um quarto mandato, levando a dívida pública a níveis recordes. Essa expansão dos gastos também dificulta o trabalho do Banco Central para trazer a inflação de volta à meta e reduz as expectativas de futuros cortes na taxa de juros.

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“A reprecificação do ciclo de política monetária foi muito grande e sempre machuca”, afirmou Segundo ao comentar a decisão de cancelar um leilão de títulos indexados à inflação na semana passada. Ele acrescentou que o governo precisa continuar trabalhando para fortalecer as contas públicas. “Há trabalho a ser feito no fiscal.”

Ainda assim, esses fatores macroeconômicos, por si só, não explicam completamente as recentes tensões no mercado brasileiro de títulos indexados à inflação, disse Leal, apontando para outro conjunto de fatores que amplificaram o movimento de alta dos juros.

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Entre esses fatores estão o aumento da concorrência dos títulos incentivados de infraestrutura, isentos de imposto de renda, e a redução da indústria de fundos multimercado no Brasil, que historicamente era uma importante fonte de demanda pelos títulos públicos indexados à inflação.

Leal afirmou que, em algum momento, o governo precisará enfrentar o que classificou como um desequilíbrio prejudicial criado pelos títulos isentos de imposto, que vêm desviando a atenção dos investidores dos títulos públicos indexados à inflação.

“É um equilíbrio ruim”, afirmou, ressaltando, porém, que qualquer mudança precisará ser cuidadosamente planejada para evitar turbulências no mercado.

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Segundo ele, acabar abruptamente com qualquer tratamento tributário favorecido para esses títulos poderia aumentar a incerteza e piorar as condições do mercado antes que houvesse alguma melhora. “Nesse meio do caminho, e talvez você perca vários soldados, você tem que desenhar muito bem para que o processo seja o menos doloroso possível.”

Dívida em moeda estrangeira

O Tesouro Nacional também está avançando nos planos para aumentar a participação da dívida em moeda estrangeira em sua estratégia de financiamento. O objetivo dessa iniciativa é ampliar a base de investidores, e não solucionar qualquer dificuldade de captar recursos no mercado doméstico.

Atualmente, as obrigações em moeda estrangeira representam cerca de 4% da dívida federal total do Brasil, bem abaixo da meta de 7% estabelecida no Plano Anual de Financiamento (PAF) de 2026. Mesmo que esse percentual seja alcançado, mais de 90% dos títulos públicos continuarão denominados em moeda local.

“Isso não tem nada a ver com qualquer dificuldade de nos financiarmos no mercado doméstico”, disse Leal.

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Segundo Leal, o retorno do Tesouro ao mercado de títulos em euros e os planos para a primeira emissão de títulos em yuan, na China, fazem parte de um esforço mais amplo para atrair investidores estrangeiros também para o mercado doméstico de dívida e ajudar a estabelecer referências de preços que possam facilitar a captação de recursos no exterior por empresas brasileiras.

As autoridades afirmaram que os preparativos para a emissão dos títulos Panda estão avançando e que a oferta inaugural poderá captar até 5 bilhões de yuans (US$ 736 milhões).

O Tesouro captou cerca de US$ 10 bilhões nos mercados internacionais de dívida ao longo deste ano.

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