Bloomberg Línea — O risco de um “Super Niño” volta a pairar sobre os mercados globais e já começa a influenciar as projeções sobre inflação, commodities e ações na América Latina. As chances de esse fenômeno ocorrer têm aumentado, enquanto a agência climática dos Estados Unidos estima uma probabilidade de 25% para um evento “muito forte”.
A preocupação não se limita ao clima. O fenômeno surge em um momento em que o petróleo permanece próximo dos US$ 100 por barril, com temperaturas globais recordes e expectativas de taxas de juros ainda elevadas.
Para as bolsas latino-americanas, o impacto poderá ser sentido inicialmente nos setores de serviços públicos, agricultura, mineração, bancos e alimentos.
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A equipe do Bradesco BBI afirmou que “os setores de agricultura e serviços públicos costumam sofrer o maior impacto”, enquanto, durante os últimos episódios severos do El Niño, a carteira de ações vencedoras do banco superou em 26 pontos percentuais a das perdedoras no segundo semestre do ano.
Entre as empresas que o banco considera como potenciais beneficiárias estão a Axia (AXIA3), a Eneva (ENEV3), a São Martinho (SMTO3), a Ecopetrol (ECOPETL), a Enel Chile (ENELCHILE), a Colbún (COLBUN) e a Camil (CAML3). Por outro lado, Sabesp (SBSP3), SLC Agrícola (SLCE3), Credicorp (BAP), Buenaventura (BVN), Bancolombia (CIB) e Antofagasta figuram entre as mais expostas.
No entanto, os investidores devem levar em conta que a sensibilidade não é uniforme.
O índice de exposição macro do Bradesco BBI coloca a Colômbia, o Peru e o Brasil entre as economias latino-americanas mais vulneráveis devido à sua dependência da agricultura e da energia hidrelétrica, enquanto o México aparece como o mercado historicamente menos correlacionado com as variações associadas ao El Niño.
Risco no Brasil
O Brasil surge como um dos principais focos de interesse para os investidores, pois o fenômeno pode afetar simultaneamente as chuvas, a geração de energia hidrelétrica e a produção agrícola.
Pedro Grimaldi, analista do Bradesco BBI, escreveu em um relatório que “quando a hidrologia fica abaixo do esperado e a demanda aumenta, o Operador Nacional do Sistema Elétrico é obrigado a acionar usinas térmicas de alto custo”, o que, historicamente, faz subir os preços da energia.
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Essa mudança altera rapidamente o panorama do setor elétrico no mercado de ações. A Axia, cuja carteira é composta em 99% por energia hidrelétrica, mas com exposição significativa aos preços spot, figura entre as principais beneficiadas, pois o aumento das tarifas poderia compensar os menores volumes de geração. A Eneva, focada na geração térmica, também poderia obter maiores receitas caso aumente a produção das usinas a gás.
A Sabesp, por outro lado, figura entre as empresas mais vulneráveis.
O Bradesco BBI alertou que “o El Niño poderia afetar negativamente os reservatórios regionais, tornando seu produto — a água — mais escasso, sem qualquer benefício compensatório proveniente de preços mais altos, uma vez que as tarifas são reguladas e fixas”.
O setor agrícola brasileiro também enfrenta um impacto desigual.
Henrique Bustolin, analista do banco, destacou que “o Brasil é um país de dimensões continentais, por isso o El Niño não afeta todas as regiões da mesma forma”. O sul costuma se beneficiar de chuvas mais intensas, enquanto o norte e o nordeste enfrentam condições mais secas.
ASÍ SE HA COMPORTADO LA ACCIÓN DE SABESP
Isso altera o comportamento esperado de várias ações do setor agrícola. A SLC Agrícola, com maior exposição ao Nordeste brasileiro, figura entre as empresas prejudicadas. Em contrapartida, a 3tentos poderia se beneficiar por sua presença mais concentrada no Sul do país.
A São Martinho também figura entre as potenciais vencedoras. O Bradesco BBI explicou que “a produção de cana-de-açúcar no Sudeste Asiático costuma ser afetada negativamente durante o El Niño, melhorando as perspectivas para os preços globais do açúcar”.
Essa avaliação coincide com a da Bloomberg Intelligence.
Marina Cavalcante e Jason Miner apontaram que a probabilidade de ocorrência do El Niño subiu para 82% para o período de maio a julho e alertaram que o fenômeno “pode gerar padrões de chuva e calor mais prejudiciais” para a soja, o milho, o café, o algodão e o açúcar durante a safra de 2026-2027.
O Bradesco BBI também vê oportunidades no setor de alimentos. A Camil, cujo faturamento depende em cerca de 45% do arroz, poderia se beneficiar caso os preços globais do cereal voltem a subir devido a problemas climáticos na Ásia e na América Latina.
Maiores vulnerabilidades
O impacto histórico do El Niño nos mercados andinos está entre os mais graves da região, especialmente na Colômbia e no Peru.
O Bradesco BBI lembrou que o Peru é um dos mercados de ações com maior correlação negativa em relação às mudanças na temperatura global, enquanto eventos extremos anteriores chegaram a reduzir em até três pontos percentuais o PIB do país.
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Na Colômbia, o principal risco volta a concentrar-se na geração hidrelétrica e no setor bancário. O relatório destacou que, durante o período de 2023-2024, “os níveis dos reservatórios caíram para apenas 29% a 32% da capacidade”, levando os preços spot da eletricidade a subir mais de 90%.
A Ecopetrol (ECOPETL) surge como uma das principais beneficiadas, pois o aumento da geração térmica eleva a demanda por gás natural. O Bradesco BBI destacou que “a demanda por geração de energia elétrica a gás cresceu mais de 164% em relação ao mesmo período do ano anterior no primeiro semestre de 2024”.
O Bancolombia (CIB), o Davivienda (PFDAVVND) e o Grupo Aval (AVAL) enfrentam uma situação diferente. A deterioração da situação dos clientes agrícolas e industriais durante episódios climáticos severos costuma elevar a inadimplência e pressionar as provisões.
O Peru enfrenta simultaneamente vários pontos de vulnerabilidade. O fenômeno afeta a pesca, a mineração, a infraestrutura e o crédito.
O Bradesco BBI lembrou que, durante a temporada de pesca costeira de 2023-2024, “a TASA e o Austral Group (AUSTRAC1) sofreram uma queda na biomassa de anchova devido às altas temperaturas do mar”, enquanto a Buenaventura (BVN) e a Cerro Verde (CVERDEC1) enfrentaram custos operacionais mais elevados e prejuízos logísticos causados por inundações.
A Credicorp (BAP) e a Intercorp Financial Services (IFS) também registraram uma deterioração nos empréstimos nas regiões costeiras afetadas.
O Chile surge como uma exceção parcial na América Latina. O fenômeno costuma aumentar as chuvas na região centro-sul, onde se concentra grande parte dos reservatórios hidrelétricos.
O Bradesco BBI informou que a Enel Chile (ENELCHILE) registrou um aumento de 12% na geração hidrelétrica em 2024, enquanto a Colbún (COLBUN) e a Aguas Andinas (AGUAS/A) também se beneficiaram de melhores condições hidrológicas.
As mineradoras do norte do Chile continuam expostas a interrupções logísticas e chuvas intensas. A Antofagasta está entre as empresas sob observação devido a possíveis problemas operacionais.
México resiste
O México surge como um dos mercados mais resistentes ao fenômeno climático. O Bradesco BBI afirmou que o país “se destaca como o menos afetado, de longe”, graças a uma economia mais diversificada, voltada para a indústria e os serviços.
As vulnerabilidades parecem estar mais concentradas nos setores aeroportuário e de abastecimento de água. Grupos aeroportuários com exposição à região do Pacífico, como a GAP (GAPB) e a OMA (OMAB), enfrentam maiores riscos de furacões, enquanto a Rotoplas (AGUA) poderia se beneficiar de uma maior demanda por soluções de armazenamento de água durante as secas.
A Argentina, por outro lado, surge como o caso mais favorável da região. Após vários anos afetada pelo fenômeno La Niña, o retorno das chuvas elevou a safra de soja para 50 a 52 milhões de toneladas e permitiu uma forte recuperação do setor agrícola.
O Bradesco BBI afirmou que o Cresud (CRES) registrou “uma recuperação operacional direta”, enquanto bancos como o Galicia (GGAL), o Banco Macro (BMA) e o BBVA Argentina (BBAR) melhoraram a qualidade de suas carteiras graças à recuperação do setor agroexportador.
O fenômeno também começa a se estender ao consumo global e aos alimentos processados.
O Barclays alertou que o cacau “continua entre as commodities agrícolas mais sensíveis ao El Niño”, depois que as alterações climáticas em Gana e na Costa do Marfim impulsionaram os preços para mais de US$ 10.000 por tonelada em 2024.
O banco observou que o mercado pode ter “caído demais” após a recente correção para US$ 3.000 por tonelada, devido aos estoques ainda baixos e aos novos riscos climáticos.
A Barry Callebaut figura entre as empresas mais expostas, pois o cacau representa cerca de 50% de sua composição de matérias-primas. A Lindt enfrenta outra pressão: novos aumentos no preço do cacau poderiam prolongar o período de preços mais altos e volumes mais baixos no setor de chocolates.
O impacto potencial já começa a se estender para além da agricultura e da energia. Shaun Osborne e Eric Theoret, analistas do Scotiabank, alertaram que “um forte evento El Niño atua como um choque de oferta significativo, elevando os preços reais globais das commodities entre 3,5 e 4 pontos percentuais”.
A Bloomberg estima que um episódio grave poderia elevar os preços globais dos alimentos básicos em até 7%, o que representaria uma pressão adicional para os bancos centrais, que ainda enfrentam inflação persistente e taxas de juros elevadas.

Para os investidores, o risco não se resume mais apenas a identificar quais países podem sofrer mais chuvas ou secas, mas sim a compreender como o fenômeno altera os preços relativos, os custos energéticos, as cadeias agrícolas e a demanda por commodities.
Os dados históricos relativos a episódios graves do El Niño mostram que os impactos no mercado de ações tendem a se concentrar em setores específicos, em vez de afetar os mercados como um todo.








