Bloomberg — O Deutsche Bank e o Wells Fargo estão entre os bancos que declaram que a valorização do dólar como porto seguro, impulsionada pela guerra, provavelmente chegou ao fim, à medida que o cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã leva investidores a buscar ativos de maior risco.
A moeda americana apagou todos os ganhos acumulados desde o início da guerra entre Estados Unidos e Irã após Teerã anunciar na sexta-feira (17) que o Estreito de Ormuz está “completamente aberto” para o tráfego comercial. O desenvolvimento reduziu a demanda por ativos considerados porto seguro, como o dólar, tradicionalmente visto como um refúgio em tempos de crise.
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O Bloomberg Dollar Spot Index caiu até 0,6%, ao menor nível desde 27 de fevereiro. O índice acumula queda de cerca de 1,9% desde que Estados Unidos e Irã concordaram com uma trégua em 7 de abril.
No mesmo período, as moedas mais sensíveis ao risco — lideradas pelas de países escandinavos, Nova Zelândia e Austrália — lideram os ganhos frente ao dólar, enquanto o índice S&P 500 se recuperou e atingiu novas máximas históricas nesta semana.
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Analistas defendem que chegou a hora de apostar contra o dólar, e investidores globais parecem seguir esse caminho. Eles elevaram as taxas de proteção cambial a uma máxima de dois anos, segundo a State Street Corp. No mercado de opções, a confiança no dólar murchou, com o posicionamento no nível menos otimista das últimas semanas.
Com o apelo de porto seguro em declínio, investidores voltam a mirar nos ventos contrários que derrubaram o dólar 8% no ano passado — o pior desempenho desde 2017 —, incluindo a perspectiva de cortes de juros pelo Federal Reserve.

“Há uma clara rotação para fora de portos seguros como o dólar em direção a ativos de risco”, escreveu Kathleen Brooks, diretora de pesquisa da corretora XTB em Londres, em um e-mail. “Se o conflito entre Estados Unidos e Irã chegar a uma resolução em breve, vejo um período prolongado de fraqueza para o dólar à frente.”
O Estreito em foco
O Estreito de Ormuz “está declarado completamente aberto” para todas as embarcações comerciais durante o período restante do cessar-fogo, disse o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, na sexta-feira. Os preços do petróleo recuaram.
Alguns analistas alertaram, porém, que pode ser cedo demais para apostar na fraqueza do dólar. Analistas de câmbio do Citigroup disseram na quinta-feira que a relação risco-retorno favorecia apostas na valorização do dólar. Preços de commodities persistentemente altos vão limitar os ganhos em ativos de risco, sustentando os rendimentos dos títulos e o dólar, afirmaram.
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O alívio nas tensões reacendeu a desconfiança em relação à moeda americana que molda as conversas sobre ela desde que o presidente Donald Trump tomou posse no ano passado.
No Wells Fargo, estrategistas recomendaram comprar a coroa sueca frente ao dólar. O Deutsche Bank aconselhou vender uma medida ampla da moeda americana, com perspectiva de que o euro possa eventualmente superar US$ 1,20 pela primeira vez desde janeiro — ante cerca de US$ 1,18 hoje.
Já estrategistas do JPMorgan Chase disseram na semana passada que “o dólar parece sair em situação pior no médio prazo por causa do conflito”, em parte devido aos altos gastos com a guerra.
Independência do Fed
Brooks, da XTB, elenca alguns dos desafios para a moeda americana, além das expectativas de que o Fed eventualmente corte os juros enquanto os mercados antecipam altas em outros países.
Ela aponta para possíveis preocupações com a independência do Fed, já que a ameaça de Trump nesta semana de demitir o presidente da instituição, Jerome Powell, caso ele não deixe o cargo “a tempo”, cria um cenário possível em que o presidente nomeie um aliado como presidente interino enquanto o indicado Kevin Warsh aguarda confirmação.
“Isso poderia nos levar de volta ao tema da desvalorização do dólar, que pesou bastante sobre a moeda no ano passado”, disse Brooks.
Nas entrelinhas, há também a visão de parte de Wall Street de que Trump gostaria de ver um dólar mais fraco para apoiar as exportações americanas, embora o governo tenha reafirmado repetidamente a tradicional política americana de “dólar forte”.
Visão pessimista
Com a mudança no sentimento do mercado, gestores de ativos aumentaram as apostas contra o dólar nas primeiras semanas de abril, segundo um modelo do Morgan Stanley. Uma pesquisa do Bank of America realizada entre 3 e 9 de abril — período que coincide com o início do cessar-fogo — mostra que a segunda aposta de maior convicção entre gestores de fundos neste ano, atrás apenas da compra de títulos, foi a venda a descoberto do dólar.
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“Os investidores veem a guerra com o Irã mais como uma mudança de patamar na trajetória do dólar em 2026 do que como uma alteração de tendência”, escreveram estrategistas do BofA, entre eles Ralf Preusser e Meghan Swiber, em nota divulgada nesta semana.
A medida em que investidores internacionais eliminam o risco cambial de suas posições em ativos americanos — por meio de derivativos que apostam contra o dólar — é outro possível gatilho de fraqueza para a moeda.

Dados da State Street, um dos maiores bancos custodiantes do mundo, mostram que eles se lançam sobre essa proteção, elevando as taxas de hedge sobre a moeda americana a 63% na esteira do anúncio do cessar-fogo.
“Os mercados estão quase agindo como se o conflito não tivesse acontecido”, disse Andrew Hazlett, operador de câmbio da Monex Inc.
Além disso, uma resolução da guerra, ao reduzir preocupações com economias fora dos Estados Unidos, pode levar investidores a comprar mais ativos internacionais.
“Os fatores para o movimento de diversificação estão presentes por baixo, mas estão sendo ofuscados por outras preocupações no momento”, disse Beata Manthey, chefe de estratégia de renda variável europeia do Citigroup, em entrevista à Bloomberg Television nesta semana.
-- Com a colaboração de George Lei.
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