Bloomberg Línea — Em um recém-inaugurado escritório em São Paulo, espaço que funciona como o showroom da marca, a cúpula global da Skechers procurou dar um recado direto: o Brasil deixou de ser um mercado secundário para a marca de calçados.
A empresa americana - adquirida há cerca de um ano pela 3G Capital, de Jorge Paulo Lemann, Marcel Herrmann Telles e Carlos Alberto Sicupira - é a terceira maior fabricante de tênis do mundo, atrás de Adidas e Nike, mas é um nome ainda com menor reconhecimento pela maioria da população brasileira.
O novo momento da marca em território nacional, onde chegou por meio de distribuidores por volta de 2007, ocorre em meio à busca por novos mercados para os seus produtos.
Conhecida pelo conforto dos seus tênis, muitos sob a alcunha de “dad shoes”, a Skechers tem no universo da corrida a sua maior categoria, com itens como o Aero Burst e Aero Razor.
“A nossa entrada no mercado brasileiro não foi por causa do 3G. Faz parte do nosso plano de longo prazo”, disse Michael Greenberg, cofundador e presidente global da marca, em entrevista a jornalistas.
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Segundo o americano, antes mesmo da negociação com o 3G, a cúpula da empresa veio ao Brasil no começo de 2025 para escolher os locais onde pretendiam estabelecer as primeiras lojas próprias da marca.
“Não era uma questão de se viríamos ao Brasil com força total. Era uma questão de quando”, afirmou Greenberg. Segundo ele, o país reúne o que a companhia considera a combinação ideal para acelerar vendas: mais de 200 milhões de habitantes e uma presença histórica ainda tímida da marca.
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A primeira loja foi aberta em janeiro deste ano e a marca soma hoje cinco lojas próprias no Brasil, abertas nos últimos meses em Guarulhos, no Outlet Premium de Itupeva, na Barra da Tijuca (Rio de Janeiro), em Contagem (Minas Gerais) e na Anália Franco (São Paulo).
A meta é chegar a dez lojas até o fim deste ano, com a ambição de ultrapassar 100 pontos de venda no país nos próximos anos. “Acreditamos que a Skechers pode ter — para chutar um número — mais de 100 lojas, mas na verdade muitas mais do que isso”, disse Greenberg.
Presente em mais de 180 países, a companhia, fundada na Califórnia em 1992, pretende saltar das atuais 5.300 lojas para 10.000 unidades no mundo todo, o “mais rápido possível”.
A operação brasileira passou a funcionar sob dois formatos de loja — outlet e “concept store” — e ganhou, nesta semana, um canal de e-commerce próprio, o primeiro da marca no país.
Segundo os executivos, o Brasil vinha crescendo historicamente mais devagar do que outros mercados latino-americanos, como o Chile — onde a Skechers é líder de mercado —, por causa de entraves regulatórios e tributários que tornavam a operação mais complexa.
“Nós acreditamos que o Brasil tem plenas condições de chegar no mesmo lugar de mercados desenvolvidos como Chile, Peru e Colômbia ou ainda além disso”, afirmou Sabrina Mônaco, country manager da operação local.

Atualmente, a América Latina representa pouco menos de 20% do volume global de vendas da Skechers. A estimativa é de que esse mercado avance para um percentual entre 25% e 30% no futuro.
“Não havia dúvida de que o produto teria um bom desempenho no Brasil assim que tivéssemos a chance de vir. Só estávamos crescendo tão rápido no resto do mundo que deixamos esse processo de lado por um tempo”, afirmou David Weinberg, COO Global da companhia.
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A prioridade, segundo Weinberg, esteve por um período no desenvolvimento de grandes centros de distribuição já construídos nos Estados Unidos, na Europa e na China, hoje os principais mercados para os produtos da Skechers.
Weinberg evitou cravar um valor total a ser investido no Brasil, dizendo que a companhia vai aportar “o que for necessário”, conforme a velocidade de crescimento do mercado local.
Ainda assim, os executivos deram uma primeira dimensão do compromisso: somando o relançamento da operação, a companhia já investiu dezenas de milhões de dólares no país, e o compromisso de investimento — em marketing, estoque, produção local, o novo centro de distribuição e a formação do time brasileiro — já passa de US$ 50 milhões.
“Acreditamos que o negócio no Brasil deveria dobrar a cada dois ou três anos daqui para frente. Pode ser mais rápido que isso”, disse Weinberg. A expectativa da companhia é manter a infraestrutura sempre um passo à frente do ritmo de vendas, para não travar o crescimento por falta de estoque ou capacidade logística.
Hoje, a produção local responde por cerca de 50% do portfólio vendido no Brasil, com o restante importado — sobretudo os modelos mais tecnológicos, que dependem de materiais ainda não disponíveis no país.
A companhia, que não possui fábrica própria em nenhum lugar do mundo, opera com parceiros terceirizados de produção também no Brasil.
Corrida, futebol, basquete e pickleball
A estratégia de produto no país está concentrada em quatro categorias esportivas — corrida, basquete, futebol e pickleball. A corrida é tratada como a maior aposta. Lá fora, a marca tem investido na formação de clubes de corrida, presença em maratonas e ativações de prova de tênis nas ruas.
Por aqui, começou assumindo o naming rights do Parque Villa-Lobos, em São Paulo, um espaço que reúne muitos corredores e praticantes de outros esportes diariamente.
“Achamos que é uma oportunidade incrível, e é um momento de corrida. Chamamos isso de ‘running moment’”, disse Greenberg, ao comentar o crescimento do mercado de corrida de rua. O Brasil soma hoje mais de 14 milhões de atletas, segundo dados de mercado.
Questionado sobre a concorrência com marcas que já têm contratos de patrocínio de longo prazo com as principais maratonas do país, como Nike, Adidas e Olympikus, o executivo disse que a estratégia da Skechers passa por difundir a tecnologia proprietária — como o sistema sem uso das mãos Hands Free Slip-ins — e pela experimentação direta do produto em eventos.
“Nós competimos com reconhecimento de marca, investimento, produto e tecnologia”, disse. “É uma maratona, não uma corrida de 100 metros”, após repetir algumas vezes que a companhia está apostando no país no longo prazo.
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Globalmente, a companhia estima ter vendido mais de 300 milhões de pares de calçados no ano passado e projeta faturamento superior a US$ 10,5 bilhões neste ano — crescimento puxado, segundo os executivos, por um ritmo de cerca de US$ 1 bilhão em receita adicional por ano entre 2020 e 2024, hiato à parte o ano da pandemia.
Em 2024, último resultado divulgado publicamente antes de a companhia deixar a bolsa de Nova York, a Skechers registrou receita recorde de aproximadamente US$ 9 bilhões.
“Houve desaceleração em relação ao crescimento entre 2020 e 2024, mas a Skechers ainda está crescendo a um ritmo significativo e a demanda pela marca ainda é muito forte. A maior empresa de artigos esportivos está perdendo bilhões de dólares a cada ano. Nós estamos no caminho oposto”, afirma o cofundador.
Questionado sobre o futuro da companhia, Greenberg disse acreditar que a Skechers “será uma empresa aberta de novo um dia”, mas afirmou que o próximo horizonte da marca é atingir US$ 15 bilhões em receita global, sem especificar um prazo. Um patamar que, segundo ele, não deve ser o teto.
“Mesmo nos Estados Unidos, onde começamos a nossa história, continuamos a crescer. Eu costumo dizer que você pode fazer uma empresa como esta crescer por cem anos.”









