Retorno da direita leva estrangeiros a aplicação recorde em títulos públicos do Chile

Após a vitória eleitoral de José Antonio Kast, posições de não residentes em títulos soberanos denominados em pesos saltaram US$ 2,93 bilhões, um recorde, para US$ 20,2 bilhões em maio

Vitória de José Antonio Kast deu início ao governo mais à direita desde a redemocratização do Chile (Foto: Cristobal Olivares/Bloomberg)
Por Carolina Gonzalez
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Bloomberg — Investidores estrangeiros estão aumentando as compras de títulos públicos chilenos em moeda local no ritmo mais acelerado da história, atraídos pelo enfraquecimento do peso, pela perspectiva de cortes de juros e pelo retorno de um governo mais favorável ao mercado.

As posições de não residentes em títulos soberanos denominados em pesos saltaram US$ 2,93 bilhões, um recorde, para US$ 20,2 bilhões em maio, último mês com dados disponíveis do banco central. Com isso, o avanço acumulado desde o início do ano chegou a 36%, superando com folga o crescimento observado em qualquer outro país da América Latina.

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A demanda começou a ganhar força no início do ano passado, quando José Antonio Kast avançou nas pesquisas eleitorais, e acelerou depois que venceu o segundo turno em dezembro, dando início ao governo mais à direita desde a redemocratização do Chile, em 1990.

Também chama a atenção o fato de que a última vez que o investimento estrangeiro cresceu em ritmo semelhante foi durante a eleição de outro governo favorável ao mercado, no fim de 2017. Somem-se a isso o peso desvalorizado e a expectativa crescente de corte de juros, e fica claro por que o Chile se tornou tão atraente.


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“Um governo favorável ao mercado e a continuidade das expectativas de consolidação fiscal fazem do Chile um mercado atraente para o retorno dos investidores estrangeiros”, afirmou Christopher Mejia, analista de dívida soberana de mercados emergentes da T. Rowe Price. “Os mercados esperam reformas voltadas ao crescimento.”

O governo Kast apresentou um projeto de lei para estimular a economia, com propostas que incluem redução da carga tributária das empresas, garantias para alíquotas de impostos em grandes projetos de investimento e subsídios ao emprego. Kast afirmou esperar a aprovação final do Congresso ainda neste mês, com a meta de alcançar crescimento de 4% até o fim do mandato.

Mais por vir

O peso chileno chegou a perder 7% depois que os EUA lançaram ataques aéreos contra o Irã no fim de fevereiro.

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Embora tenha recuperado parte das perdas, a moeda ainda é negociada em torno de 920 pesos por dólar, longe do nível de três anos, de 852 por dólar, registrado em fevereiro.

Além disso, a moeda dificilmente deve se fortalecer no curto prazo, já que persistem as pressões para que o Federal Reserve eleve os juros nos EUA, enquanto a queda das expectativas de inflação e os dados fracos de crescimento no Chile reforçam as apostas em um corte de juros dentro de um ano.

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As taxas implícitas de inflação para um ano — indicador das expectativas inflacionárias — caíram mais de 200 pontos-base desde o início de maio, para 2,33%, perto do menor nível desde janeiro de 2024 e abaixo da meta de 3% do banco central.

Como resultado, o mercado de juros passou a precificar taxa básica de 4,26% em um ano, queda de 40 pontos-base no último mês e abaixo dos atuais 4,5%.

Tudo isso fez do Chile o principal destaque da região. As posições estrangeiras em títulos soberanos locais da Colômbia recuaram 8,5% nos cinco primeiros meses do ano, depois que o governo encerrou um programa de swaps em francos suíços que deixava alguns bancos estrangeiros com títulos soberanos como garantia.

No Brasil, onde a inflação acelerou, as posições de não residentes cresceram apenas 2,5% no mesmo período. No México, caíram cerca de 3,5%.

Recurso renovado

O renovado interesse representa uma reversão acentuada.

Investidores estrangeiros reduziram suas participações em títulos da dívida soberana chilena em 43% entre o final de 2019 e o final de 2024, mesmo com o aumento da emissão pelo governo.

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A dívida chilena perdeu popularidade após os protestos sociais de 2019, que desencadearam duas tentativas fracassadas de reforma constitucional e sucessivas retiradas de fundos de pensão, reduzindo a liquidez dos mercados de capitais do país.

No quarto trimestre de 2024, os investidores estrangeiros detinham apenas 8% da dívida pública denominada em pesos, a menor participação já registrada, de acordo com dados do Ministério das Finanças.

O presidente Kast assumiu o cargo prometendo reduzir os gastos públicos, desburocratizar o setor público, diminuir os impostos corporativos e impulsionar o investimento em infraestrutura. Ele também prometeu reprimir a imigração ilegal e o crime.

Essas políticas ajudaram a reduzir o spread dos títulos chilenos em dólares em relação aos títulos do Tesouro dos EUA para menos de 80 pontos-base em maio, pela primeira vez desde 2007, enquanto o custo do seguro contra um default soberano caiu para o menor nível em sete anos em fevereiro.

Em março, último mês para o qual há dados disponíveis do Ministério da Finanças, as participações estrangeiras na dívida soberana local totalizaram 15,6%. Em maio, esse percentual era de 10,1% no Brasil e de 11,6% no México.

Fatia atingiu o pico no quarto trimestre de 2019, em cerca de 20%

Ainda assim, a continuidade da valorização das participações estrangeiras está longe de ser garantida. O Ministério das Finanças já abandonou sua meta de equilibrar o chamado orçamento estrutural até 2030 e agora projeta um déficit equivalente a 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Também solicitou ao Congresso autorização para emitir US$ 6,2 bilhões adicionais em títulos neste ano.

“O Chile continua em uma boa trajetória, mas levará algum tempo para que os resultados se concretizem”, disse Gordian Kemen, chefe de estratégia soberana para mercados emergentes do Standard Chartered.

“Os investidores permanecem cautelosos, pois o ajuste fiscal pode levar bastante tempo, a inflação ainda está elevada e o banco central está em compasso de espera.”

Em 2018, após a eleição do presidente de direita Sebastián Piñera, o aumento das participações estrangeiras perdeu força após abril e nunca mais recuperou o vigor dos meses anteriores.

No entanto, Mejia considera os recentes contratempos da Kast como temporários e não acredita que eles afetem as participações estrangeiras.

“O governo afirmou que a situação fiscal está pior do que o esperado, mas está sinalizando uma mudança nesse sentido”, disse Mejia. “Isso não representa uma mudança na direção da dinâmica do déficit.”

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