Negociações nucleares EUA-Irã travam por causa do Líbano antes mesmo de começar

Irã adiou o início das negociações, que estava previsto para esta sexta, depois que os combates entre Israel e os militantes do Hezbollah apoiados pelo Irã se intensificaram no sul do Líbano; adiamento representa um golpe para Trump, que assinou um memorando de entendimento com o Irã na quarta-feira

Lebanon
Por Golnar Motevalli - Alex Longley - Galit Altstein

Bloomberg — O Irã adiou o início das negociações sobre um acordo de paz permanente com os Estados Unidos depois que os combates se intensificaram no sul do Líbano, um possível revés para os esforços de Donald Trump de encerrar a guerra e conter o programa nuclear de Teerã.

As conversas, que deveriam ocorrer na Suíça na sexta-feira (19), foram adiadas por causa desses confrontos entre Israel e os militantes do Hezbollah apoiados pelo Irã, segundo duas pessoas familiarizadas com a situação, que falaram com a Bloomberg News e pediram para não serem identificadas devido à sensibilidade do assunto.

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Israel e Hezbollah concordaram com um cessar-fogo ainda na sexta-feira, segundo uma autoridade americana, que pediu para permanecer anônima porque o acordo não é público. Ambos os lados disseram que se comprometeriam com uma trégua se o outro lado fizesse o mesmo, mas responderiam em caso contrário.


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O Irã insistiu num cessar-fogo no Líbano como parte do acordo de paz provisório finalizado com os Estados Unidos esta semana, e não enviou uma delegação às conversas em razão das novas hostilidades. O vice-presidente dos Estados Unidos JD Vance, que representaria Washington, também não viajou.

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Ainda não há indicação de uma nova data para o início das discussões.

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O adiamento representa um golpe para Trump, que assinou um memorando de entendimento com o Irã na quarta-feira apesar de críticas generalizadas de que concedia demais em termos de benefícios financeiros e alívio de sanções.

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Ele disse que o acordo evitaria uma crise econômica global, dado que o crucial Estreito de Ormuz reabriria para embarques de petróleo e gás.

“Não nos reunimos por desespero, o Irã sim. Eles estão ACABADOS!”, postou Trump na rede social Truth Social na sexta-feira. “Vamos cumprir os 60 dias. Eles não recebem dinheiro nenhum, nem dez centavos!”

Tráfego no Estreito de Ormuz

Ainda não está claro se os desdobramentos mais recentes afetarão o estreito, onde a atividade marítima aumentou desde que Trump e seu homólogo iraniano Masoud Pezeshkian assinaram o acordo.

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O tráfego pela via navegável — crucial para os fornecimentos globais de energia — pareceu diminuir no início da sexta-feira, um dia após uma disparada na retomada dos fluxos de petróleo conforme os dois países prometeram suspender um bloqueio duplo.

O Irã disse na sexta-feira que navios que cruzam o Estreito de Ormuz precisarão de sua permissão, preparando o terreno para um debate provavelmente controverso sobre futuros arranjos de pedágio.

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Embarcações que cruzam o estreito precisarão de uma apólice de seguro obrigatória que atualmente é gratuita, mas que poderia ter um custo no futuro, disse a Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico do país num documento em seu site. Os Estados Unidos, a Europa e os Estados árabes do Golfo rejeitaram a ideia de o Irã impor taxas sobre o ponto de passagem, e Vance minimizou a possibilidade na quinta-feira.

“Acreditamos que as vias navegáveis internacionais devem estar livres de pedágios”, disse ele, observando que os países da região “juntos vão definir um arcabouço de segurança adequado para o estreito no futuro.”

O petróleo subiu ligeiramente na sexta-feira, com o Brent em alta de cerca de 0,9% para US$ 80 o barril. Os preços ainda caíram cerca de 7,7% esta semana, com operadores antecipando que a reabertura do Estreito de Ormuz vai aliviar o maior aperto de fornecimento de energia da história.

Ataques no Líbano

Os combates no Líbano foram mais mortais que o usual, com o exército israelense dizendo que quatro de seus soldados foram mortos, incluindo um comandante de batalhão.

Os ataques de Israel mataram 18 pessoas, reportou a Agência Nacional de Notícias estatal do Líbano, enquanto o exército israelense disse ter atingido 80 locais do Hezbollah.

O Irã vê os Estados Unidos como tendo “responsabilidade direta” pela situação no Líbano e pelas ações militares de Israel, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores Esmail Baghaei em comunicado citado pela estatal Agência de Notícias da República Islâmica.

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As tensões entre os Estados Unidos e Israel por causa do Líbano crescem. Trump xingou o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu em ligações, acusando-o de quase inviabilizar o memorando desta semana com o Irã ao escalar ataques no Líbano.

Israel insiste que manterá tropas além de suas fronteiras até ter certeza de que o Hezbollah, designado organização terrorista pelos Estados Unidos, não é mais uma ameaça.

Trump disse à Axios numa entrevista gravada na quinta-feira e exibida na sexta-feira que tem uma boa relação com Netanyahu, mas que precisa “mantê-lo um pouco são”. Acrescentou que pode impedir Israel de atacar o Líbano porque “eles têm muito respeito por mim, e fazem o que eu mando.”

Israel não tolerará ataques a seus soldados ou território, e cobrará um “preço muito alto” do Hezbollah em resposta, disse Netanyahu numa publicação no X na sexta-feira. “Israel permanecerá na zona de segurança no sul do Líbano pelo tempo que for necessário para proteger as comunidades no norte”, disse ele.

O presidente libanês Joseph Aoun disse que a mais recente escalada israelense mina os esforços de cessar-fogo.

O Ministério das Relações Exteriores da Suíça disse que “permanece pronto para facilitar essas conversas”, e que “o trabalho preparatório relevante” no resort anfitrião de Burgenstock continua.

Um porta-voz da Casa Branca disse que uma delegação americana está preparada para partir na primeira oportunidade disponível.

Acordo provisório com o Irã

O memorando Estados Unidos-Irã assinado na quarta-feira levou Washington a suspender um bloqueio naval dos portos iranianos e o Irã a dizer que reabrirá o Estreito de Ormuz. Eles concordaram em estender o cessar-fogo durante a nova rodada de conversas, que deve terminar dentro de 60 dias, mas pode ser estendida.

Os lados tentarão chegar a um acordo sobre restringir o processamento de urânio do Irã, possivelmente por uma década ou mais, e destruir ou diluir seus estoques existentes de urânio altamente enriquecido.

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Os Estados Unidos e Israel começaram a bombardear o Irã em 28 de fevereiro, dizendo que precisavam impedir o país de construir uma arma atômica. Teerã há muito nega querer fazer isso, mas enriqueceu urânio muito além dos níveis necessários para usinas nucleares.

A guerra fez os preços da energia dispararem e elevou a inflação globalmente, enquanto aliados dos Estados Unidos como os Emirados Árabes Unidos e o Catar foram alvos de milhares de drones e mísseis iranianos.

Muitos especialistas atômicos dizem que 60 dias não serão suficientes para elaborar um acordo permanente com o Irã, dada a natureza complexa e técnica do tema.

Um acordo nuclear de 2015 entre o Irã e potências mundiais, incluindo os Estados Unidos, que Trump frequentemente ridiculariza e abandonou durante seu primeiro mandato, levou cerca de dois anos para ser concluído.

Os preços do petróleo permanecem cerca de 30% mais altos no ano porque levará meses, se não mais, para os fluxos de petróleo e gás natural liquefeito por Ormuz voltarem ao normal.

Além disso, os Estados Unidos e muitos outros países esgotaram estoques de emergência de petróleo a um ritmo recorde para conter os preços durante a guerra. Esses terão que ser reabastecidos, o que aumentará a demanda global.

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