Bloomberg — Kevin Warsh venceu a disputa pela presidência do Federal Reserve em parte ao traçar um caminho para juros mais baixos. Agora, o novo chefe do Fed enfrenta uma dinâmica bem diferente: como conter uma mudança repentina nas expectativas por juros mais altos, enquanto outros dirigentes alertam que a inflação voltou.
O desafio ficou evidente na quinta-feira, quando novos dados mostraram que o indicador de inflação preferido do Fed subiu 3,8% nos 12 meses até abril. É o nível mais alto desde 2023 e quase dois pontos percentuais acima da meta de 2% do banco central.
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Analistas que acompanham o Fed dizem que a janela para um corte de juros já foi fechada pelo choque nos preços de energia provocado pela guerra no Irã. Isso significa que simplesmente manter os juros no nível atual já pode representar uma vitória para Warsh.
“Não há apetite para cortes”, disse Stephanie Roth, economista-chefe da Wolfe Research. “Warsh precisa conseguir fazer os mercados retirarem da curva as apostas em altas de juros que passaram a embutir — esse é o maior desafio dele neste ano.”
A forma como Warsh conduzirá a narrativa sobre juros nos próximos meses pode definir o tom de sua gestão e moldar sua capacidade de convencer agentes externos de que está protegendo a independência do Fed.
Embora o presidente dos EUA, Donald Trump, tenha dito que quer que Warsh atue de forma independente à frente do banco central, a pressão política por juros menores continua próxima da superfície.
Apenas algumas horas depois de participar da cerimônia de posse de Warsh na semana passada, Trump afirmou que esperava que os juros caíssem “muito rapidamente”.
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Mudança de expectativas
A mudança na trajetória esperada para os juros ocorre num momento em que os custos de energia devem permanecer elevados por meses, mesmo que o conflito com o Irã chegue ao fim. O aumento dos investimentos em inteligência artificial também alimenta pressões inflacionárias mais amplas.
Isso levou uma série de dirigentes do Fed, nas últimas semanas, a alertar que o banco central já não pode sinalizar que cortes de juros continuam sendo o próximo passo mais provável. Em vez disso, preferem destacar o risco de aperto monetário — uma mudança drástica em relação ao início do ano, quando autoridades projetavam mais flexibilização em 2026.
Isso não significa, porém, que os dirigentes pretendam elevar os juros no curto prazo. O fim do conflito no Oriente Médio daria aos formuladores de política monetária tempo para avaliar seus impactos, enquanto um mercado de trabalho ainda preso a um ciclo de baixa contratação e poucas demissões reduz a necessidade de uma política mais restritiva.
“Acreditamos que o limite para elevar juros é mais alto do que o limite para cortá-los, mesmo antes de Kevin Warsh chegar ao Fed”, disse Robert Sockin, economista-chefe para os EUA da PGIM.
Ainda assim, já está claro que a inflação entrou em um patamar que poucos esperavam no início do ano.
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O índice de preços ao consumidor subiu em abril no maior ritmo desde 2023, levando investidores a inverter apostas de cortes para altas de juros. As expectativas de inflação de longo prazo também pioraram. Para os próximos cinco a dez anos, consumidores esperam inflação anualizada de 3,9%, acima dos 3,5% registrados em abril e o maior nível em sete meses, segundo a pesquisa de consumidores da Universidade de Michigan referente a maio.
“Em vez de construir argumentos a favor de cortes de juros, Warsh agora terá de gastar energia resistindo à pressão crescente, tanto de colegas quanto do público, por aperto monetário ou, no mínimo, manutenção dos juros”, disse Derek Tang, economista da LH Meyer/Monetary Policy Analytics, em Washington.
Pressão inflacionária
Há outros motivos pelos quais a política monetária pode já estar estimulando a inflação, em vez de desacelerá-la.
Matt Luzzetti, economista-chefe para os EUA do Deutsche Bank, alertou que o Fed pode ter reduzido os juros demais em 2024 e 2025, deixando a política monetária excessivamente acomodatícia. Essa preocupação se torna mais aguda sempre que a inflação sobe, porque isso eleva o nível considerado neutro para os juros — isto é, um patamar que nem restringe nem estimula a economia.
“Se você não faz nada, está afrouxando”, disse Fabio Natalucci, diretor-executivo do Andersen Institute for Finance & Economics, que trabalhou anteriormente no Fed e no Fundo Monetário Internacional.
A maioria dos dirigentes do Fed considera que a política monetária atual está próxima do nível neutro ou ainda ligeiramente acima dele.
As tensões dentro do Fed podem atingir o ápice na reunião de política monetária de junho, quando os dirigentes podem retirar do comunicado a chamada inclinação para flexibilização. Eles também divulgarão novas projeções, que podem incluir estimativas mais altas para a inflação e, no mínimo, adiar o cronograma esperado para futuros cortes de juros.
Um exemplo especialmente relevante é o do diretor do Fed Christopher Waller, que defendeu fortemente cortes de juros em 2024 e 2025, mas agora apoia deixar claro que o próximo movimento das taxas pode ser tanto uma alta quanto um corte.
“A realidade é que a inflação ficou persistente”, disse Diane Swonk, economista-chefe da KPMG. “Warsh está assumindo o Fed em meio a uma mudança na narrativa.”
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