Bloomberg Línea — Julio Glinternick Bitelli, embaixador do Brasil na Argentina desde 2023, retornará a Buenos Aires em data ainda a ser definida após ter sido chamado para consultas em Brasília pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva, em decorrência das declarações do presidente argentino, Javier Milei, durante a convenção do Partido Liberal (PL) em São Paulo.
O retorno do diplomata foi confirmado pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil ao jornal La Nación, embora sem especificar uma data para seu retorno.
O incidente, ocorrido em 25 de julho de 2026, resultou na crise diplomática mais grave entre os dois países desde o retorno da democracia nas duas nações sul-americanas na década de 1980.
Durante o evento em que foi lançada a pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, Milei chamou Lula de “presidiário”, classificou o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes de “lixo careca” e criticou o sistema judiciário brasileiro por não permitir que ele visitasse o ex-presidente Jair Bolsonaro.
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Na madrugada de 26 de julho, o Itamaraty convocou Bitelli para consultas. No mesmo dia, o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, foi convocado para que lhe fosse comunicada a decisão do governo brasileiro.
Não é a primeira vez que Bitelli é convocado para consultas por Brasília. Em julho de 2024, ele já havia sido convocado pelo Itamaraty para consultas internas e para atualizar informações sobre as relações bilaterais com o governo de Milei. Sem o confronto público desta ocasião, aquele episódio não gerou polêmica em 2026.
Bitelli chegou a Brasília no dia 27 de julho e se reuniu por cerca de 40 minutos com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, para uma primeira avaliação da crise. Naquele mesmo dia, ele acompanhou o presidente Lula em atividades oficiais, conforme a agenda do ministro das Relações Exteriores.
Foco regional
Bitelli assumiu o cargo de embaixador em Buenos Aires em 2023, após a aprovação de sua nomeação pela Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado brasileiro. Até o momento de sua transferência para Buenos Aires, ele estava na embaixada em Rabat, em Marrocos.
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Os documentos do Senado destacaram, na época, sua experiência anterior na região, incluindo uma passagem por Bogotá, e o associaram ao relançamento da agenda estratégica bilateral, após a visita do então recém-eleito Lula a Buenos Aires, em janeiro de 2023, e antes da vitória de Milei em dezembro daquele ano.
Desde sua chegada à Argentina, Bitelli assinou acordos e notas bilaterais e recebeu delegações oficiais brasileiras, entre elas uma missão sobre as hidrovias dos rios Paraguai e Lagoa Mirim, em agosto de 2024, e o secretário-executivo do Ministério da Cultura, em setembro de 2025.
Em julho de 2025, ele integrou a delegação oficial de Lula durante a visita a Buenos Aires para a 66ª Cúpula dos Presidentes dos Estados-Partes do Mercosul, conforme aprovado pelo Decreto de 31 de outubro de 2025.
Estudantes brasileiros
Em fevereiro de 2024, Bitelli teve que se pronunciar publicamente para esclarecer que o governo de Milei não discriminava os brasileiros, após relatos de recusas de entrada a estudantes que utilizavam o status de turista para cursar universidades públicas argentinas gratuitamente.
“Nossa preocupação era saber se havia algo arbitrário, se havia algo discriminatório contra os brasileiros e se havia algo que fosse contra as regras do Mercosul, e, na verdade, nada disso existe”, declarou ele na época à Folha de S. Paulo.
O embaixador esclareceu que se tratava de uma aplicação mais rigorosa das regras já existentes, como a exigência de uma passagem de volta, sem alterações na política migratória. Dados da Direção Nacional de Migração da Argentina mostraram que apenas 23 brasileiros foram recusados entre janeiro e fevereiro de 2024, o que equivale a 0,002% do total de entradas.
O porta-voz presidencial Adrián Ravier afirmou que 40% dos estudantes das faculdades de medicina na Argentina são estrangeiros.









