Bloomberg Línea — Viajantes latino-americanos que visitaram a Costa Rica concordam que o país é um destino único, mas caro e com forte influência do dólar, apesar de ter moeda própria.
A Costa Rica se mantém como um dos destinos turísticos mais caros da América Latina, mesmo após episódios recentes de deflação — um fenômeno explicado por fatores estruturais como altos custos de produção, baixa concorrência e um modelo econômico que elevou a renda em determinados setores.
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Enquanto isso, a valorização do colón (moeda local) frente ao dólar e a entrada de capitais externos começam a pressionar a competitividade das indústrias locais.
Segundo o Índice de Custo de Vida da plataforma Numbeo, a Costa Rica aparece entre os destinos mais caros da América Latina e do Caribe em 2026, com índice de 52,87, superada apenas por alguns territórios ultramarinos, pela Jamaica e pelo Uruguai.
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“A Costa Rica é um dos países mais caros da América Latina por uma combinação de fatores estruturais, mais do que por elementos conjunturais”, disse à Bloomberg Línea o economista e diretor da consultoria costarriquense CEFSA, Daniel Ortiz.
Em primeiro lugar, ele explicou que o país tem custos de produção relativamente altos em comparação com outros países. Isso inclui salários mais elevados do que a média regional, encargos sociais expressivos e custos energéticos e logísticos superiores.
A isso se soma um mercado pequeno, com menor escala, o que limita a possibilidade de diluir custos fixos e, consequentemente, encarece os preços finais.
Segundo Ortiz, o modelo econômico incentivou a atração de investimento estrangeiro e de setores de alto valor agregado, como dispositivos médicos e serviços empresariais.
“Isso elevou a renda média em determinados segmentos da economia, mas também gerou pressões de alta nos preços de bens e serviços não comercializáveis internacionalmente, como habitação, serviços e comércio”, apontou.
Outro elemento-chave é a estrutura de mercado.
Em vários setores há pouca concorrência ou alta concentração, o que reduz a pressão baixista sobre os preços. Além disso, há rigidezes decorrentes de questões regulatórias e impostos indiretos que também encarecem bens e serviços.
Fenômeno multifatorial
Luis Vargas Montoya, pesquisador associado do Programa Estado da Nação (PEN), considera que o alto custo de vida no país é resultado de um fenômeno multifatorial.
Em primeiro lugar, destaca a alta dependência de importações, inclusive de produtos de consumo básico, o que incorpora custos adicionais que acabam se refletindo em preços mais elevados do que os de outras economias da região com maior produção local.
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Em segundo lugar, aponta a desigualdade como fator relevante. A existência de segmentos com alto poder aquisitivo pressiona os preços para cima, ao elevar a média de renda e consumo.
Um terceiro elemento é o turismo e a chegada de aposentados estrangeiros, principalmente dos Estados Unidos e do Canadá, que têm maior capacidade de pagamento e contribuem para encarecer bens e serviços, especialmente em certas regiões do país.
O pesquisador também menciona fatores institucionais, como fragilidades na regulação de alguns mercados, nos quais a concentração ou a falta de concorrência permite manter preços elevados.
Em suma, “todos esses quatro fatores fazem da Costa Rica um país relativamente caro em comparação com o restante da região. É uma economia que cresce em ritmo muito bom, mas, infelizmente, esse crescimento se concentra em poucas mãos e infla os preços em geral”, observou Luis Vargas Montoya.
Valorização da moeda
A forte valorização do colón costarriquense entre 2022 e 2026 é um dos fenômenos macroeconômicos mais relevantes dos últimos anos, segundo Melizandro Quirós, economista especialista em mercados financeiros e imobiliários do país.
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Entre os principais fatores estão o aumento do investimento estrangeiro em zonas francas, o crescimento das exportações de alto valor — como dispositivos médicos e serviços — e a expansão do turismo norte-americano, que elevaram a entrada de divisas.
A queda do petróleo a partir de 2023 também contribuiu: a receita petroleira diminuiu em mais de US$ 800 milhões por ano, aliviando a pressão sobre a taxa de câmbio.
No campo financeiro, juros altos em colones combinados com inflação negativa atraíram capitais internacionais, enquanto o ajuste fiscal reduziu o risco-país e facilitou o endividamento externo.
No entanto, a valorização da moeda tem gerado efeitos adversos sobre as empresas locais, que arcam com custos em colones mas recebem menos receitas em dólares — o que pressiona sua competitividade. Para Quirós, o quadro reflete uma economia com crescimento setorial desigual, “que depende significativamente do setor externo (zonas francas)”.
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