Bloomberg News — As empresas de bebidas alcoólicas contaram durante anos com uma demanda global estável, com o consumo de álcool profundamente ligado à vida social e à cultura dos consumidores.
Porém, hoje, preocupações com a saúde e orçamentos familiares mais apertados têm levado as pessoas a beber menos. Essa mudança afeta o setor de bebidas, elimina centenas de bilhões de dólares do valor de mercado das principais empresas de cerveja, vinho e destilados e força os produtores a cortar custos, trocar executivos e lançar novas ofertas.
Veja a seguir o que está provocando a queda no consumo de álcool, onde ela é mais intensa e como o setor tenta se adaptar ao que pode ser uma nova realidade.
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Quanto o consumo de álcool está diminuindo?
De 2019 a 2025, o consumo de álcool, medido por porções, caiu a uma taxa anual composta de 2%, de acordo com análise de dados preliminares do setor feita pela IWSR, empresa de pesquisa de mercado de bebidas. Isso significa que o número de porções diminuiu, em média, 2% ao ano no período.
A medição por porções leva em conta que uma cerveja tem volume maior do que, por exemplo, a dose de gim usada em um coquetel.
Os dados da IWSR abrangem 21 países e o varejo duty-free global, que juntos representam cerca de 75% do mercado mundial. Todas as categorias de bebidas alcoólicas — cerveja, vinho, destilados, cidra alcoólica e RTDs, ou coquetéis “prontos para beber” — foram incluídas.

O declínio acompanha uma tendência global de queda na demanda por álcool, medida pelo consumo per capita em volume, iniciada há uma década, segundo a Organização Mundial da Saúde.
A IWSR, que mede o consumo geral por porções, registrou o mesmo padrão, com um breve pico durante a pandemia de Covid-19, quando consumidores entediados passaram a beber mais em casa.
O consumo aumentou 2,3% entre 2020 e 2021, mas voltou a cair a partir de 2022, segundo os dados da IWSR, recuando 2,8% em 2025 na comparação com 2024.

As pessoas estão bebendo menos, em parte, porque passaram a beber com menos frequência. Em uma pesquisa global da Euromonitor, 23% dos entrevistados disseram que bebiam semanalmente em 2025, ante 25% em 2020. Uma parcela cada vez maior dos consumidores reserva a bebida para ocasiões especiais.
As tendências variam de acordo com o tipo de bebida. A cerveja, historicamente uma das categorias mais vendidas entre as bebidas alcoólicas, agora está entre as de pior desempenho.
Sua posição foi afetada pelo avanço de alternativas como os RTDs, comercializados sob marcas como White Claw e BuzzBallz.
Essas bebidas atendem à demanda dos consumidores por conveniência, levando o consumo, medido em volume, a crescer 2% em 2025, segundo a IWSR.
Mesmo com clima favorável ou grandes eventos esportivos, as vendas de cerveja em volume seguem abaixo das médias históricas — sinalizando uma estagnação de longo prazo, segundo analistas da Scope Ratings.
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Onde a bebida está caindo?
A queda anual composta nas porções de álcool entre 2019 e 2025 medida pela IWSR foi especialmente acentuada na China: 6%.
No país, o governo intensificou o combate ao exagero entre funcionários públicos, proibindo álcool em eventos oficiais e desencorajando presentes de luxo.
Isso prejudicou os fabricantes de baijiu, destilado tradicional chinês. A produtora Sichuan Swellfun relatou queda de 42% na receita em 2025, para cerca de 3,04 bilhões de yuans (US$ 445 milhões).

A França registrou a segunda maior taxa de queda: 3%. Além da China, os recuos mais significativos ocorreram em mercados de alta renda, como EUA e Europa.
Embora os mercados emergentes geralmente sejam menos lucrativos do que os desenvolvidos para as empresas do setor, as vendas ainda crescem em alguns deles.
África do Sul e partes da América Latina são vistas como pontos positivos, à medida que mais pessoas se mudam para as cidades, onde as principais marcas de bebidas alcoólicas estão mais disponíveis.
A Índia também é considerada um mercado promissor, impulsionada pelo aumento da renda disponível e por um grupo de quase um bilhão de pessoas que se aproxima da idade legal para beber, que varia conforme o estado.
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Quem está bebendo menos?
A narrativa de que os membros da Geração Z (entre 14 e 27 anos) são abstêmios é exagerada. Mas há evidências de uma diferença geracional nos hábitos de consumo de álcool.
Apenas cerca de 32% dos consumidores da Geração Z disseram beber toda semana, ante 45% entre grupos mais velhos, segundo pesquisa do UBS Evidence Lab realizada nos maiores mercados de álcool, incluindo China, EUA e Brasil.
Cerca de 53% dos consumidores da Geração Z disseram praticar abstinência intermitente — deixar de beber por um período — em uma pesquisa da IWSR feita em 15 grandes mercados no segundo semestre de 2025. Entre todos os adultos que bebem, o percentual foi de 39%.
O movimento da “curiosidade sóbria” dos últimos anos costuma ser associado aos adultos mais jovens.
O conceito envolve uma postura mais consciente em relação ao consumo de álcool, repensando a relação com a bebida e, muitas vezes, optando por beber menos ou não beber, sem necessariamente se identificar como totalmente abstêmio.
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Por que as pessoas estão bebendo menos?
A maior conscientização sobre os riscos à saúde ligados ao consumo de álcool é um fator importante.
Durante anos, orientações médicas se concentraram na ideia de que o consumo moderado era relativamente seguro — ou até benéfico, por potencialmente reduzir o risco de doenças cardíacas.
Mas, em 2023, a OMS declarou que “nenhum nível de consumo de álcool é seguro”, já que a substância está associada a vários tipos de câncer. A agência afirmou não haver “nenhum estudo” demonstrando que os possíveis efeitos benéficos do álcool superam o risco de câncer.
As pressões financeiras também pesam, já que inflação e incerteza econômica levam parte dos consumidores a reduzir gastos discricionários, como os com bebidas alcoólicas.
Outro fator é o uso crescente de medicamentos GLP-1 para perda de peso, que reduzem o apetite, inclusive por álcool.
Na pesquisa do UBS, 47% dos entrevistados que tomaram um medicamento GLP-1 disseram ter reduzido o consumo de álcool durante o tratamento, ante 17% que afirmaram ter mantido a mesma quantidade. Nas pesquisas, cerca de 12% dos americanos disseram usar um medicamento GLP-1.
Em países onde a maconha é legalizada, como EUA e Canadá, sua popularidade também influencia esse movimento.
Aproximadamente dois terços dos americanos de 18 a 34 anos disseram usar cannabis no lugar do álcool ao menos uma vez por semana em uma pesquisa da Bloomberg Intelligence no fim de 2024.
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Quais são os sinais de estresse no setor de álcool?
Depois de atingirem recordes durante a pandemia, as ações de empresas como a Boston Beer, fabricante da cerveja Samuel Adams; a Constellation Brands, produtora e distribuidora de cervejas, vinhos e destilados nos EUA; e a Diageo recuaram fortemente.
A capitalização de mercado combinada das principais empresas listadas de cerveja, vinho e destilados caiu 48% em relação ao pico de junho de 2021, apagando US$ 850 bilhões em valor, segundo um indicador da Bloomberg que acompanha 54 companhias do setor.

Várias empresas do setor entraram em crise em meio à recessão. Entre as destilarias americanas que pediram falência no ano passado estão a A.M. Scott Distillery, de Ohio, e a Luca Mariano Distillery, de Kentucky.
O conglomerado californiano Vintage Wine Estates entrou com pedido de falência em 2024 e teve seus ativos colocados em leilão. A Brewdog, que já esteve entre as maiores cervejarias independentes do Reino Unido, faliu após a demanda despencar e sua dívida aumentar.
A americana Tilray Brands adquiriu seus ativos em março, durante o processo de insolvência no Reino Unido, por £33 milhões (US$ 44,6 milhões), uma fração de sua avaliação de £1 bilhão.
Outras empresas também enfrentam dificuldades. Na Escócia, onde o uísque precisa envelhecer por pelo menos três anos e um dia, quase uma em cada cinco destilarias enfrentava dificuldades financeiras no último trimestre do ano passado, segundo dados analisados pela empresa de reestruturação BTG.
“As destilarias da Escócia, onde se concentra a maior parte da produção de uísque do Reino Unido, enfrentam uma tempestade perfeita de queda na demanda, aumento dos custos de produção e tarifas mais altas nos principais mercados — fatores que já custaram o negócio de várias marcas nos últimos meses”, disse Thomas McKay, sócio-gerente da BTG na Escócia, em comunicado.
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Como as empresas de bebidas alcoólicas estão cortando custos?
A Heineken NV, fabricante da cerveja homônima, planeja cortar 7% de sua força de trabalho global, de 87 mil pessoas, ao longo de dois anos, principalmente na Europa.
O volume total consolidado de vendas — que reúne bebidas produzidas e vendidas pela cervejaria holandesa e por terceiros licenciados — caiu 2,1% em 2025.
Em Kentucky, a Brown-Forman, fabricante do uísque Jack Daniel’s, também anunciou um plano para reduzir em 12% seu quadro global de funcionários. A empresa ainda fechou sua última tanoaria própria, instalação onde barris são fabricados e reparados, como parte da iniciativa de corte de custos.
Depois que a oferta superou a demanda, a fabricante de bourbon Jim Beam, controlada pela gigante japonesa Suntory Holdings Ltd., anunciou uma pausa de um ano na produção de sua principal destilaria em Clermont, Kentucky, iniciada no começo de 2026.
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Quais executivos caíram?
O CEO da Heineken, Dolf Van den Brink, deve deixar o cargo em junho, depois de a empresa apresentar desempenho inferior ao das rivais Carlsberg A/S e Anheuser-Busch InBev nos últimos anos.
Em abril, Bill Newlands deixou os cargos de presidente e CEO da Constellation Brands após a demanda fraca por vinho, cerveja e destilados.
No ano passado, a Diageo interrompeu os esforços da CEO Debra Crew para conter a queda nas vendas da destilaria, agravada pela desaceleração da demanda por tequila nos EUA.
Durante sua gestão, a empresa abandonou uma meta histórica de vendas, emitiu um alerta de lucro e enfrentou dificuldades para lidar com as tarifas sobre importações impostas pelos EUA sob o governo Donald Trump. A Remy Cointreau SA e a Davide Campari-Milano NV também promoveram mudanças no comando.
No lugar desses executivos, as empresas passaram a apostar em líderes experientes. A Diageo nomeou Dave Lewis, conhecido por liderar a recuperação da rede britânica Tesco Plc após um escândalo contábil. A Remy, da mesma forma, escolheu Franck Marilly, veterano do setor de luxo, como CEO.
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Como as empresas de bebidas estão diversificando os negócios?
As alternativas com baixo teor alcoólico ou sem álcool se tornaram uma forma cada vez mais popular de moderar o consumo sem deixar de participar de ocasiões sociais.
Por isso, fabricantes de bebidas vêm adicionando esses produtos a seus portfólios em uma tentativa de preservar participação de mercado.
A Carlsberg entrou no mercado de refrigerantes com a aquisição, no ano passado, da Britvic, fabricante do concentrado Robinsons e do suco J2O.
A Heineken e a AB InBev adotam estratégias “além da cerveja”, com foco no desenvolvimento de produtos fora da categoria tradicional, como cidra, hard seltzers e cerveja sem álcool.
O consumo por porções de cerveja sem álcool, vinho, destilados, cidra e RTDs cresceu a uma taxa anual composta de 8% entre 2019 e 2024, segundo a IWSR.
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