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Lula esperava vencer no primeiro turno; agora revê estratégia e busca virada difícil

Derrota coloca presidente diante de um dos maiores desafios da sua carreira política. Surpreendida pela vantagem do adversário, campanha admite erros de leitura do eleitorado e tenta ampliar o apoio para além da esquerda a menos de três semanas da votação

Desempenho abaixo do esperado levou a campanha a suspender atividades públicas e se debruçar sobre os motivos da derrota (Foto: Bloomberg)
Por Simone Iglesias - Martha Beck - Andrew Rosati
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Bloomberg — Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ir para o segundo turno atrás de Flávio Bolsonaro, foi ainda mais doloroso porque ele acreditava que poderia liquidar a disputa contra o adversário já no domingo (4).

“Eu estava convencido de que ganharia a eleição no primeiro turno”, disse Lula em São Paulo, depois que os resultados finais mostraram vantagem inesperada de Flávio, que chega ao segundo turno de 25 de outubro como amplo favorito.

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Para alguns aliados, a declaração foi menos uma demonstração de força do que uma evidência de quanto a campanha interpretou mal o eleitorado. As próximas três semanas vão mostrar se este choque será suficiente para dar novo impulso à campanha de Lula e permitir que protagonize mais uma virada.


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O desempenho abaixo do esperado levou a campanha a suspender atividades públicas e se debruçar sobre os motivos da derrota na segunda-feira (5). Assessores e Lula passaram o dia reunidos para reavaliar uma estratégia que não previu a força da onda conservadora em torno de Flávio nem o sentimento contrário ao PT.

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A derrota coloca Lula diante de um dos maiores desafios da sua carreira política. O presidente já superou adversidades na trajetória até o Palácio do Planalto em 2003 e ainda depois de ver tudo desmoronar com sua prisão por acusações de corrupção, posteriormente anuladas, o que lhe permitiu enfrentar e derrotar o então presidente Jair Bolsonaro quatro anos atrás.

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A apenas 20 dias do segundo turno contra Flávio, assessores e aliados dizem que o presidente precisa ampliar o apelo para além da esquerda, se reconectar com eleitores que não foram às urnas e convencer uma coalizão desmoralizada pelo resultado das urnas nos estados de que ainda pode virar a disputa.

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Não há consenso, porém, sobre como fazer isso nem se existe tempo suficiente para reverter o que alguns aliados enxergam como uma rejeição mais profunda a Lula e ao PT.

Há mais de duas décadas no centro da política brasileira, o partido agora encara a perspectiva de ver a principal liderança caminhar para a saída do poder sem um sucessor evidente, o que deixaria a esquerda à deriva e sem um rumo claro.

“A questão é que o PT é um partido fragmentado e, historicamente, Lula tem sido quem toma as decisões finais e o mantém unido na medida do possível”, disse Mario Braga, analista geopolítico da consultoria RANE.

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Lula construiu sua marca política em torno da resiliência pessoal e da capacidade para enfrentar disputas difíceis. Os resultados do primeiro turno, porém, expuseram vulnerabilidades que, segundo pessoas envolvidas na campanha, ficaram encobertas por um excesso de confiança tanto em torno do presidente quanto do PT. Todos os que conversaram com a Bloomberg News pediram anonimato para discutir a estratégia eleitoral.

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Ao contrário da primeira campanha presidencial vitoriosa, em 2002, quando Lula buscou aproximação com segmentos tradicionalmente desconfiados da esquerda, o presidente entrou nesta eleição com o argumento de que os eleitores já o conheciam e sabiam qual era o seu histórico e dos seus governos. Ele rejeitou repetidamente a ideia de que precisava reafirmar credenciais políticas, como o compromisso com a responsabilidade fiscal.

Um aliado disse que essa convicção prejudicou Lula e o deixou menos disposto a abrir novos canais com eleitores fora da base tradicional. O presidente também resistiu a pedidos de integrantes da campanha para apresentar uma agenda mais voltada ao futuro e dar menos destaque à história pessoal e ao legado, segundo outra pessoa a par das discussões. Lula rejeitou explicitamente essa abordagem.

O resultado foi muito mais uma derrota de Lula do que uma vitória de Flávio, disse Thomas Traumann, analista político e ex-secretário de imprensa da ex-presidente Dilma Rousseff.

“Lula fez uma campanha que tratava muito dele próprio, do legado, e falou pouco demais sobre os problemas das outras pessoas ou sobre o futuro.”

Integrantes da campanha discutem agora algumas mudanças imediatas. Uma delas é estabelecer um contraste mais nítido com Flávio e transformar o segundo turno em confronto direto entre os dois campos políticos. Outra é concentrar esforços nos 21% dos eleitores aptos que não votaram no primeiro turno, grupo potencialmente decisivo em uma disputa na qual Lula terminou cerca de 2,2 milhões de votos atrás de Flávio.

Cansaço do eleitor

Esta sempre se mostrou uma eleição complicada para o presidente em terceiro mandato, que precisa superar a fadiga de uma parte substantiva da população com ele e com o PT e, ao mesmo tempo, apresentar-se como vetor de mudança.

Duas pessoas envolvidas na campanha disseram que há agora uma série de erros que precisam ser corrigidos e que Lula terá de estar disposto a enfrentá-los. Elas também citaram o que descreveram como uma tendência do PT de dominar as discussões com parceiros da coalizão, além de uma percepção mais ampla de que Lula continuava politicamente invencível.

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O resultado foi “uma mensagem política muito forte de que os brasileiros estão cansados da esquerda e muito irritados com o governo Lula, porque Lula falhou com eles nos problemas cotidianos do Brasil: inflação, segurança pública e corrupção”, disse Maurício Santoro, pesquisador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil, no Rio de Janeiro.

As derrotas sofridas por aliados reforçaram a percepção de uma onda conservadora mais ampla e de uma esquerda em dificuldades. Quando Lula falou ao país depois dos resultados, estava cercado por parceiros políticos derrotados, entre eles o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, que perdeu a disputa pelo governo de São Paulo, e as ex-ministras Simone Tebet e Marina Silva, derrotadas nas eleições para o Senado.

Isso deixa Lula com pouco tempo para recuperar o entusiasmo não apenas dos eleitores, mas também da própria coalizão.

Integrantes da equipe econômica veem pouco espaço para novas medidas do governo capazes de alterar de forma fundamental a dinâmica do segundo turno.

Iniciativas adotadas na reta final da campanha, entre elas a proibição das apostas online e o aumento dos benefícios do Bolsa Família, não conseguiram mudar significativamente uma disputa que esses integrantes do governo passaram a enxergar cada vez mais como um referendo sobre o desempenho de Lula.

O resultado da eleição também deve dificultar a agenda econômica no Congresso, sobretudo no Senado, cuja composição mudará significativamente porque dois terços das cadeiras estiveram em disputa no domingo. Um integrante da área econômica disse que o resultado tornará mais difícil para o governo avançar em algumas prioridades, mesmo em caso de vitória de Lula.

Até o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, importante interlocutor do governo no Congresso, saiu politicamente enfraquecido da votação depois que aliados sofreram derrotas expressivas no Amapá, estado que representa.

De forma mais geral, o resultado expôs fragilidades na coalizão montada por Lula quando voltou ao poder. Ele venceu a eleição de 2022 com a promessa de formar uma frente ampla contra a direita e fez campanha ao lado de políticos de fora da base tradicional de esquerda. No governo, porém, Lula não conseguiu converter plenamente essa aliança eleitoral em uma coalizão de governo, o que enfraqueceu a articulação política mais ampla que havia prometido construir.

A questão agora é definir a melhor forma de sustentar um argumento eleitoral forte e consistente contra Flávio, estratégia que ainda não foi fechada. Alguns dos ataques que a campanha esperava que o prejudicassem — entre eles os relacionados ao escândalo do Banco Master e questionamentos sobre o Dark Horse, filme biográfico sobre seu pai — aparentemente tiveram impacto limitado, disseram duas pessoas a par do assunto.

A questão maior ainda é saber se a campanha de Lula conseguirá absorver o choque da derrota sem entrar em conflito interno. Uma pessoa envolvida descreveu dois caminhos possíveis: os aliados se unem e pressionam Lula em direção a uma última virada, ou as acusações mútuas pelos erros que produziram o resultado do primeiro turno começam a fragmentar a coalizão justamente no momento em que a campanha entra na reta decisiva.

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