Lula enfrenta desafio de reconectar o PT ao novo perfil da classe trabalhadora

Às vésperas das eleições de outubro, presidente ligado ao movimento sindical não conta mais com o apoio dos trabalhadores após a rápida expansão do trabalho por aplicativos, que está remodelando o cenário político

Votos de entregadores e motoristas de aplicativos se tornaram um campo de batalha central para tentativa de reeleição do presidente (Foto: Mario Tama/Getty Images)
Por Daniel Carvalho - Daniela Milanese - Andre Loureiro Dias - Franco Dantas
01 de Abril, 2026 | 03:04 PM

Bloomberg — Usando um boné azul do Brasil e uma camisa vermelha do Partido dos Trabalhadores, Luiz Inácio Lula da Silva fez um alerta em ano eleitoral ao movimento político que fundou há quase meio século.

Ao recordar como dividia com outros militantes uma buchada antes de sair para fazer campanha “de barriga estufada” nas cidades industriais da região metropolitana de São Paulo, o presidente lamentou a perda de relevância de uma força política que já dominou esses bairros.

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“O que aconteceu?”, questionou o ex-líder sindical em discurso realizado em fevereiro, na Bahia, marcando o 46º aniversário do partido. Ao longo do tempo, o PT perdeu conexão com sua base histórica e agora precisa “fazer uma reflexão da nossa trajetória” para voltar a competir, disse.

“Nós precisamos ir para a rua conversar com o povo”, conclamou Lula.

A tarefa ganha ainda mais urgência diante das eleições de outubro, que, segundo pesquisas, indicam risco de derrota de Lula para a direita.

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No centro desse desafio está o reconhecimento de que o Partido dos Trabalhadores, forjado a partir do movimento sindical nos polos industriais do Brasil nos anos 1980, já não pode contar automaticamente com o apoio dos trabalhadores de hoje.

A dificuldade da esquerda em dialogar com sua base é um fenômeno observado dos EUA, do presidente Donald Trump, à política fragmentada da Alemanha, tendo como um dos fatores a transferência de empregos industriais para o exterior.

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No Brasil, a rápida expansão do trabalho por aplicativos está remodelando o cenário político, enfraquecendo o vínculo tradicional entre o PT e a classe trabalhadora que um dia o definiu e, nesse processo, impulsionando a direita.

Para Lula, isso significa que os votos de entregadores e motoristas de aplicativos se tornaram um campo de batalha central para sua tentativa de reeleição.

A classe trabalhadora informal no Brasil sempre teve “empregos precários e humilhantes”, decorrentes de “uma cultura da subalternidade da escravidão”, afirmou Rosana Pinheiro-Machado, professora titular de Global Studies na School of Geography da University College Dublin. O trabalho por aplicativos, porém, está mudando percepções e dinâmicas políticas consolidadas.

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“Quando você tem também esse discurso que valoriza o indivíduo, de que ele é o empreendedor, é o CEO de si próprio, resgata uma dignidade, o que é legítimo. O discurso populista de políticos de extrema direita acena para esse grupo.”

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A vasta maioria dessa nova classe de trabalhadores é formada por homens (84%), e cerca de metade (47%) tem entre 25 e 39 anos, segundo dados mais recentes do IBGE.

Ao cruzar esses dados com pesquisas de intenção de voto, a dimensão do desafio de Lula fica evidente. Segundo levantamentos recentes, é exatamente esse grupo — predominantemente masculino e mais jovem — o que mais desaprova seu governo.

Há pouco mais de um ano, José Wilson Pereira deixou o emprego de garçom para se tornar entregador por aplicativos. Aos 36 anos, morando na periferia de Brasília, ele afirma preferir trabalhar como autônomo a ter um emprego formal com salário fixo.

“É muito melhor por causa da liberdade”, disse Pereira, que se define como de extrema-direita. Ele afirma que suas posições políticas são baseadas na religião e na família e que não votará em Lula, citando denúncias de corrupção e o que considera o uso de programas sociais para manter famílias de baixa renda dependentes do Estado.

“Trabalhei muito tempo sob a legislação trabalhista, cumprindo horário, trabalhando seis dias por semana”, disse. “E, sinceramente, virar motoboy foi uma das melhores coisas que já fiz.”

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Lideranças do PT reconhecem que a dificuldade de se conectar com essa nova classe trabalhadora já teve custo em eleições locais. Agora, buscam evitar impacto na disputa presidencial.

“O PT tem que estar presente nos territórios, nas periferias, nas comunidades”, disse o presidente do partido, Edinho Silva, no fim do ano passado, acrescentando que a legenda não pode se afastar dos bairros mais pobres nem deixar de dialogar com essa nova classe de trabalhadores. “Se nós não vamos conversar, alguém vai”, alertou.

É um contraste marcante com a época em que Lula, aos 34 anos, fundou o partido. Naquele período, os sindicatos eram fortes e os contratos formais dominavam o mercado de trabalho. O PT chegaria à Presidência da República cinco vezes, três delas com Lula.

Em certa medida, o partido é vítima do próprio sucesso. No governo, ajudou a tirar milhões de brasileiros da pobreza. Mas as expectativas aumentaram, e o PT não conseguiu “acompanhar a mudança que ele próprio produziu”, disse Pinheiro-Machado.

Agora, aos 80 anos, Lula enfrenta o desafio de atualizar uma mensagem política antes levada às portas de fábricas para um mercado de trabalho marcado por sindicatos enfraquecidos, proteção trabalhista frágil e trabalhadores que desejam ser seus próprios chefes e se veem como empreendedores.

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O esforço do governo para se reconectar com esses trabalhadores é liderado por Guilherme Boulos, ministro da Secretaria-Geral da Presidência. Histórico líder de movimentos sociais com forte presença nas periferias de São Paulo, Boulos é peça-chave na estratégia política de Lula.

Para os trabalhadores formais, a principal proposta do governo é uma emenda constitucional para reduzir a jornada em setores nos quais os empregados frequentemente têm apenas um dia de folga por semana, a jornada 6x1.

Outro foco são os trabalhadores de aplicativos, um grupo que cresceu 170% entre 2015 e 2025, chegando a 2,1 milhões de pessoas, segundo o Banco Central.

Após flexibilizar regras para obtenção da carteira de motorista, o governo agora tenta avançar com uma legislação que garanta um valor mínimo para as corridas, imponha transparência aos algoritmos que determinam trabalho e remuneração e assegure cobertura previdenciária para motoristas e entregadores de aplicativos.

Caso alcance essa meta, o Brasil se posicionará na linha de frente de um debate em curso em diversos países.

Não é a primeira vez que o governo Lula tenta regular a relação entre empresas de tecnologia e trabalhadores. Uma iniciativa semelhante fracassou em 2024 após se tornar alvo de campanhas de desinformação por adversários políticos e pelas próprias plataformas, segundo Boulos.

“O desafio que nós temos é conversar com esses trabalhadores, ter a humildade de ouvi-los entender quais são suas demandas, suas expectativas”, disse Boulos em entrevista em seu gabinete no Palácio do Planalto.

“A partir disso, podemos garantir formas institucionais de que esses trabalhadores tenham direitos, possam ter o apoio do Estado.”

O governo espera aprovar a proposta no primeiro semestre, antes que as atividades no Congresso desacelerem com a proximidade das eleições.

O setor, por sua vez, faz lobby contra o projeto, argumentando que ele elimina a flexibilidade que caracteriza esse tipo de trabalho ao introduzir benefícios que o aproximariam das regras do emprego formal.

“O projeto desestrutura completamente o setor, então não condiz com nenhum dos princípios que defendemos para uma regulamentação adequada”, disse André Porto, diretor-executivo da Amobitec, associação que representa plataformas de mobilidade e tecnologia no Brasil. “Tem componente político ao afirmar que esse trabalhador é precarizado, porque efetivamente ele não é.”

Ele avalia que, da forma como foi proposto, o projeto tornaria o setor mais engessado, elevaria a carga tributária com aumento dos custos dos serviços, reduziria a demanda e provocaria queda na renda dos trabalhadores, com efeitos em toda a cadeia.

Mesmo que consiga beneficiar os trabalhadores de aplicativos, o governo pode não colher muitos ganhos eleitorais.

A polarização política no Brasil consolidou resistências em parte da sociedade a qualquer ação governamental, deixando todos os partidos na disputa por um número cada vez menor de eleitores indecisos.

“Quem não gosta de mim não gosta de mim”, disse Lula em entrevista ao portal UOL em fevereiro, defendendo a estratégia de dialogar com os brasileiros “que ainda têm flexibilidade ideológica”.

Para Nicolas Santos, de 37 anos, integrante de duas associações de entregadores, um eventual retorno eleitoral do projeto não é o ponto central.

“O governo precisa fazer porque precisa fazer. Ele não precisa fazer porque precisa ganhar algum retorno eleitoral”, afirmou.

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