Do arroz ao café: El Niño coloca em risco alimentos da cesta básica na América Latina

Agências da ONU alertaram que o fenômeno pode empurrar mais famílias para vulnerabilidade; segundo o Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos, há 82% de probabilidade de que o El Niño entre maio e julho

Plantações de café afetadas pelo clima no Brasil: um dos principais efeitos do El Niño sobre a agricultura é a alteração dos calendários agrícolas. (Foto: Jonne Roriz/Bloomberg)

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Bloomberg Línea — Um fenômeno El Niño que pode atingir intensidade histórica está se formando no oceano Pacífico mais rapidamente do que o previsto e ameaça elevar os riscos de insegurança alimentar na América Latina, com impactos em culturas que vão do café ao arroz.

Agências da ONU alertaram que o El Niño pode empurrar mais famílias para uma situação de vulnerabilidade, ao provocar aridez no Corredor Seco da América Central e alterar os padrões de precipitação e temperatura na região.

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A esses riscos se somam os elevados preços internacionais de combustíveis, fertilizantes e alimentos, o que pode agravar ainda mais o quadro.

A combinação desses fatores pode reduzir o poder de compra das famílias e aumentar a pressão sobre os sistemas de proteção social e as respostas humanitárias.


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Segundo o Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos, há 82% de probabilidade de que o El Niño se desenvolva no Pacífico equatorial entre maio e julho. Além disso, há 67% de chance de que seja um fenômeno forte ou muito forte quando atingir seu pico, entre novembro e janeiro.

“É provável que o fenômeno El Niño seja declarado nos próximos dois meses”, afirmou Nathaniel Johnson, meteorologista do Laboratório de Dinâmica de Fluidos Geofísicos dos EUA e membro da equipe de previsão do El Niño.

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A Organização Meteorológica Mundial (OMM) situa a probabilidade do fenômeno entre 70% e 80%, com intensidade máxima prevista para o fim do ano.

Durante uma mesa-redonda de alto nível, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) e o Programa Mundial de Alimentos (PMA) ressaltaram a necessidade de se preparar para eventos climáticos extremos.

“Os fenômenos climáticos extremos continuarão ocorrendo, mas podemos evitar que desencadeiem crises humanitárias. Combinando seguros, crédito e serviços financeiros digitais, ajudamos governos e comunidades a resistir a secas, inundações e tempestades”, explicou Lena Savelli, diretora regional do Programa Mundial de Alimentos.

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“Estamos transformando as respostas humanitárias como as conhecemos, para que os sistemas de proteção social não deixem ninguém para trás e as comunidades possam poupar, se segurar e receber apoio assim que os alertas precoces forem ativados, em vez de esperar pela ajuda após o impacto”, acrescentou.

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Segundo dados da ONU, apesar dos avanços alcançados nos últimos anos, mais de 33 milhões de pessoas ainda passam fome na região, 167 milhões enfrentam insegurança alimentar moderada ou grave e mais de 181 milhões não conseguem custear uma alimentação saudável. A América concentra 22% das perdas globais causadas por desastres agrícolas, estimadas em US$ 713 bilhões.

Impactos do El Niño na agricultura

Um dos principais efeitos do El Niño sobre a agricultura é a alteração dos calendários agrícolas, segundo a OMM. O fenômeno pode modificar o início do plantio, reduzir a umidade do solo em algumas zonas, provocar alagamentos em outras e aumentar o estresse térmico sobre culturas e rebanhos.

El Niño América Latina

Estima-se que o setor agrícola da América Latina absorve cerca de 26% dos danos causados por desastres climáticos — proporção que pode chegar a 82% nos casos de seca.

As culturas mais expostas costumam ser o milho e o feijão na América Central, especialmente na agricultura familiar do Corredor Seco, e a soja em diversas áreas da América do Sul, sobretudo quando períodos de seca ou chuvas excessivas coincidem com etapas críticas do ciclo produtivo.

Arroz, café, cacau, cana-de-açúcar, pastagens e pecuária também podem ser afetados, dependendo da sub-região e do tipo de ameaça predominante.

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