Bloomberg — O Banco Central cortou ontem (20) a taxa Selic em 0,50 ponto percentual, para 12,75% ao ano, como amplamente esperado pelo mercado, e sinalizou a manutenção do ritmo de afrouxamento pelo menos até o fim do ano, ao dizer que vê, de forma unânime, corte de mesma magnitude nas “próximas reuniões”.
Também como esperado por parte dos analistas, o Copom elevou as projeções de inflação em 0,1 ponto percentual para 2023 a 2025. A variação, no entanto, foi vista como menor que a esperada, indicando um “viés mais dovish” para Victoria Jorge, economista do Opportunity.
O comitê disse ainda que observou “maior resiliência da atividade” e que as medidas mais recentes de inflação subjacente ainda se situam acima da meta para a inflação, apesar da queda. Sobre o exterior, o Copom destacou a elevação das taxas de longo prazo dos EUA e a perspectiva de menor crescimento na China, “ambos exigindo maior atenção por parte de países emergentes”.
Os juros futuros curtos e médios subiam na quinta-feira em reação ao Copom, enquanto o Ibovespa tinha queda de mais de 1%, com destaque para as perdas da ações de consumo e serviços domésticos diante da menor chance de uma aceleração do afrouxamento monetário.
Veja o que disseram os analistas:
Cassiana Fernandez e Vinicius Moreira, economistas do JPMorgan
A mudança hawkish mais importante foi a ênfase na persecução e execução das novas metas fiscais.
“Isto envia claramente uma mensagem de que uma revisão da meta fiscal primária – uma possibilidade reportada como tendo sido discutida recentemente por congressistas e membros do governo – teria impacto na política monetária, provavelmente levando a uma taxa terminal mais elevada, reduzindo as probabilidades de maiores cortes nas taxas ou mesmo aumentando as probabilidades de cortes menores.”
BC também revisou para cima suas projeções de inflação e acrescentou que o crescimento econômico é mais resiliente do que o esperado.
“Todos estes pontos, combinados com o resultado hawkish de Fed, reduzem o risco de uma aceleração do atual ritmo de flexibilização de 50 pontos base nas próximas reuniões.”
Caio Megale e Rodolfo Margato, economistas da XP
Linguagem mostra que talvez não haja a aceleração no final do ano.
Na passagem de ano, a política fiscal do governo estará em foco com o IPCA 2025 no horizonte e medidas de arrecadação passam a ser tema da reunião que pode ditar aceleração.
Mudança na projeção de inflação é sinal um pouco mais dovish dado que o aumento foi menos significativo do que o estimado.
“Mas isso foi compensando pela inclusão de um parágrafo falando sobre fiscal, que na nossa leitura é um elemento hawkish.”
David Beker, chefe de economia para Brasil e de estratégia para América Latina do Bank of America
Comunicado continuou a sinalizar reduções na mesma magnitude, ao mesmo tempo que tentava suprimir expectativas de cortes maiores.
O banco prevê cortes de 50 pontos-base nas próximas reuniões, com Selic a 11,75% para o ano de 2023 e 9,50% para o ano de 2024.
Roberto Secemski, economista para Brasil do Barclays
Apesar do seu balanço de riscos inalterado, foi acrescentada uma preocupação explícita sobre potenciais alterações nas metas fiscais, sugerindo pouco apetite para uma aceleração nos cortes por enquanto.
O banco mantém projeções para Selic em 11,75% para o final de 2023 e 9,5% para meados de 2024.
Mirella Hirakawa, economista da AZ Quest
É uma comunicação hawkish pela composição, revisão de inflação para cima, indicação de mesma magnitude nas próximas reuniões no plural, colocando pelo menos novembro e dezembro.
Comunicado atribui um viés altista para a Selic terminal.
Sergio Goldenstein, estrategista-chefe da Warren Rena
Do lado mais dovish, as projeções de inflação para 2024 e 2025 abaixo do que o mercado esperava.
Pelo lado mais hawkish, mostrou uma maior preocupação com o ambiente externo e com a execução das metas fiscais.
Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter
Cenário de corte de 75 pontos-base em dezembro deve ser revisado em decorrência da piora externa e um cenário que indica uma possível deterioração do fiscal em 2024.
O maior risco é de pausa do ciclo de afrouxamento antes de a Selic em 2024 a 9% previsto pela Focus por causa destes dois fatores.
Leonardo Costa, economista da Asa Investments
Nas projeções, conforme esperado, modesta piora, provavelmente efeito da alta do petróleo e do câmbio mais desvalorizado.
Comentário sobre fiscal pode ser lido como mais duro perante as dificuldades do governo em conseguir mais receita.
Há o risco de aceleração para 0,75% na reunião de dezembro, mas por ora é risco.
Álvaro Frasson, economista do BTG Pactual
Ajustes de mesma magnitude “nas próximas reuniões”, propositalmente no plural, a fim de reduzir as expectativas sobre a aceleração de corte de juros em dezembro.
Cecília Machado, economista-chefe do Banco BOCOM BBM
Alta das projeções de inflação foi modesta quando se considera a trajetória de queda da Selic no Focus e ao cenário cambial e de preço do petróleo menos favoráveis.
Alberto Ramos, economista-chefe para América Latina do Goldman Sachs
Decisão de cortar em 0,50pp foi “esperada e sensível”.
“A sinalização não mudou. Aponta a manutenção do atual ritmo de alívio nas ‘próximas reuniões’. Sugere o mesmo passo ao menos até o final do ano.”
William Jackson, economista-chefe para mercados emergentes da Capital Economics
Comunicado frustra esperanças de aceleração do ritmo do ciclo de flexibilização, pelo menos no curto prazo.
“Não há nada no comunicado que sugira que isso está na mesa.”
Parece que seria necessário muito mais para um corte maior, como uma surpresa significativa na inflação ou melhora acentuada do fiscal.
Ritmo deve seguir em 0,50 ponto, com reduções menores para 0,25 pp em meados de 2024 e Selic final a 9,50%.
Débora Nogueira, economista-chefe da Tenax Capital
“Alta das projeções de inflação foi menor do que víamos com nossos exercícios a partir dos coeficientes de câmbio, petróleo e hiato. São projeções que se encaixam nos cenários mais benignos possíveis.”
“Qualquer aceleração depende de uma evolução positiva da agenda do Haddad em Brasília.”
Vê espaço para aceleração entre dezembro e janeiro pelo cenário benigno de inflação e expectativa de moderação da atividade.
“De todo modo, a aprovação das medidas de arrecadação, pelo menos as relacionadas a offshore e fundos, é crucial para a concretização desse cenário.”
Daniela Lima, economista da Kinea Investimentos
“Não achamos que o mercado vai mexer muito amanhã, achamos que foi um não evento.”
“Considerávamos que o modelo do BC ia mostrar uma alta até maior da projeção para 2024, veio só 10 pontos para cima. Apesar da reapresentação do fiscal no comunicado possa ser lida até como mais hawk na margem, as projeções não mudaram bastante.”
Kinea vê juro terminal a 9% e que o BC irá manter o ritmo de corte de 0,50pp até o fim do ciclo, dados o hiato fechado, questão fiscal e maior incerteza externa.
Victoria Jorge, economista do Opportunity
Projeção de inflação para 2024 e 2025 veio abaixo do esperado, num viés mais dovish.
BC reintroduziu tema do fiscal, mesmo que fora do balanço de riscos.
Copom não se comprometeu com qualquer aceleração ainda.
Luis Cezario, economista-chefe da Asset 1
“Os membros do Copom mantiveram o tom cauteloso da reunião anterior, reforçando que a conjuntura atual recomenda manter uma política monetária contracionista.”
“Comunicado reforçou ser pouco provável que o ritmo de corte seja intensificado no curto prazo.”
“Debate sobre intensificação do ritmo pode ganhar força no final do ano, caso os núcleos de inflação permaneçam em patamares benignos e a atividade apresente sinais claros de arrefecimento.”
-- Com a colaboração de Patricia Xavier, Guilherme Bento e Raphael Almeida Dos Santos.
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