Bloomberg Línea — O governo brasileiro é o maior comprador do país — um mercado de R$ 1 trilhão, equivalente a cerca de 16% do PIB, segundo o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos. Em 2025, foram mais de 1 milhão de compras públicas registradas no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP).
Mas, para quem vende ao Estado, esse mercado ainda opera como um labirinto de PDFs: 6 mil editais publicados por dia, entre as esferas municipal, estadual e federal, que as empresas precisam garimpar manualmente para saber o que está na licitação e o que vale a pena disputar.
É esse gargalo que a Settle, startup fundada em 2024, quer resolver com inteligência artificial. A startup roda mais de 100 agentes de IA que leem, filtram e pontuam editais automaticamente. E, segundo os fundadores, dobram a participação dos clientes em licitações enquanto reduzem pela metade o custo de aquisição de clientes (CAC).
“Quando uma empresa começa os nossos agentes, ela consegue dobrar a sua participação em editais, em vendas. Justamente porque consegue produzir mais, dar no-go e definir qual edital faz sentido mais rapidamente”, afirmou Mateus Brum, cofundador e diretor da Settle, em entrevista à Bloomberg Línea.
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A Settle foi criada no final de 2024, quando captou uma rodada pré-seed de US$ 3,08 milhões (cerca de R$ 18 milhões, na cotação da época), liderada pela Canary. Participaram ainda a Clocktower Ventures, da Row Capital (antiga 468 Capital) e um grupo de investidores-anjo.
Nesse intervalo de tempo, a startup operou em stealth para aprimorar a plataforma, que chega agora ao mercado. Entre os principais clientes, estão a Vivo e a BR Supply.
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Do Guiabolso ao setor público
A Settle nasceu do encontro de quatro sócios com trajetórias cruzadas no Guiabolso. Alice Iglesias, CEO da Settle, passou pela McKinsey — com foco em projetos para o setor público — antes de assumir operações, incluindo operações de crédito, no Guiabolso. Mateus Brum, liderou a área de growth da fintech e depois comandou a integração do Guiabolso ao PicPay, que comprou a empresa. Os outros dois sócios são Bruno Ortiz e José Victor Almada, à frente de tecnologia.

A tese da Settle nasceu enquanto Alice estudava oportunidades de investimento como venture partner do fundo Canary.
“Comecei vendo uma tendência de govtech tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. E aí juntou a minha experiência com o governo com o fato que meu pai tem empresa que vende para o governo há 25 anos”, diz.
A promulgação da Lei 14.133/2021, que digitalizou as licitações — hoje 99% delas ocorrem via pregão eletrônico — e a possibilidade de usar IA para estruturar dados públicos disponíveis apenas em PDF fechou a equação.
Segundo os fundadores, o mercado público impõe duas dores distintas às empresas. A primeira é operacional: separar, dos 6 mil editais diários, quais interessam a cada cliente.
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A Settle ataca esse problema com uma cadeia de agentes especializados. Um de triagem, que identifica se o edital está no escopo do cliente; um de score, que pontua a relevância com base em valor, órgão comprador e cláusulas específicas; e agentes de análise técnica, jurídica, comercial e de habilitação, que avaliam se a empresa reúne as condições para participar.
A segunda dor é de dados: mesmo sendo públicas, as informações de compras governamentais não são acessíveis nem padronizadas.
A Settle conecta portais de transparência de cerca de 5.500 municípios brasileiros e normaliza esses dados para gerar inteligência de mercado — histórico de contratos, participação por órgão, preços praticados e previsão de renovação de contratos vencidos.
“Nós conseguimos criar visões de market share dentro de determinado setor, seja no estado, seja dentro de uma vertical federal, estadual, prefeitura”, diz Brum.
Vivo como cliente-âncora
A operadora de telefonia Vivo foi o primeiro grande cliente da Settle e moldou boa parte do primeiro ano de operação da startup. “Muito cedo, nós fechamos uma parceria com a Vivo e sabíamos que não poderíamos perder esse cliente de jeito nenhum, que precisávamos entregar o melhor produto possível”, disse Alice.
Ao lado da Vivo, a BR Supply é o outro cliente enterprise nomeado pelos fundadores. A startup afirma ter hoje quatro contas enterprise ao todo, incluindo dois clientes não revelados, além de contas de médio porte.
A Settle atende dois perfis de cliente: empresas que vendem diretamente ao governo e buscam eficiência operacional, e fabricantes que não participam das licitações diretamente, mas precisam acompanhar como os seus distribuidores estão performando nos editais.
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O foco comercial está em empresas médias e grandes de tecnologia — software e hardware —, concentradas no Sul, no Sudeste e, sobretudo, em Brasília, onde os fundadores dizem estar presencialmente ao menos duas vezes por mês. Do lado de produto, a prioridade agora é dar autonomia ao cliente para configurar seus próprios agentes, acelerando o processo.
“A grande missão da Settle é ajudar quem vende para o governo a escalar as vendas, automatizando e, principalmente, gerando dados e inteligência”, diz Brum.
O modelo de cobrança combina uma taxa fixa de manutenção da plataforma com uma cobrança variável baseada no consumo de tokens dos agentes de IA. Quanto mais agentes um cliente ativa (triagem, score, análise técnica, entre outros) e quanto maior o volume de editais processados, maior a fatura.
Nos primeiros 12 anos de operação, de fato, a startup trabalha com a projeção de fechar com cerca de R$ 1 milhão em receita.









