Pecuária em alerta: domínio do Brasil na carne bovina esbarra em regras da UE

Novas exigências europeias entram em vigor em 3 de setembro e demandam garantias sobre o uso de antimicrobianos durante todo o ciclo de vida do gado, colocando em risco o acesso do Brasil a um mercado que paga preços mais altos pela carne

O Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina, mas enfrenta novas exigências da União Europeia para manter o acesso a um mercado que paga preços mais altos pelo produto brasileiro.
Por Dayanne Sousa - Ana Mano
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Bloomberg — O domínio global do Brasil no comércio de carne bovina está entrando em choque com padrões europeus mais rígidos, o que ameaça as exportações diante da dificuldade dos fornecedores para certificar o gado segundo novas restrições ao uso de medicamentos que promovem o crescimento.

Exportadores precisam comprovar até quinta-feira que conseguem fornecer carne sem administrar aos animais determinados antimicrobianos. Caso contrário, não poderão vender para a União Europeia. O gado brasileiro não estará pronto.

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A UE obtém do Brasil cerca de um quarto da carne bovina que importa, segundo o Rabobank, e as novas restrições podem redesenhar os fluxos comerciais, levando países europeus a comprar mais de outros fornecedores enquanto o Brasil busca redirecionar a produção para outros destinos.

O bloco europeu trabalha com o Brasil para retomar as importações “o mais rápido possível”, afirmou nesta terça-feira a porta-voz da Comissão Europeia Eva Hrncirova, durante entrevista coletiva em Bruxelas. “Exigimos garantias para todo o ciclo de vida dos animais. Isso é importante e, no caso da carne bovina, não existe no momento.”

As consequências vão muito além do Brasil, já que o país tem sido um fornecedor global importante de carnes em períodos de forte demanda internacional. Limitar o acesso a mercados de alto valor, como o europeu, pode reduzir os incentivos para que pecuaristas aumentem a produtividade, restringindo o crescimento da oferta de carne bovina. A perda do mercado europeu também representa um golpe na credibilidade do Brasil como fornecedor global no momento em que o país tenta entrar em mercados como Japão e Coreia do Sul.

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“A coisa que está sendo minada no Brasil é a credibilidade do sistema”, afirmou Maria Eduarda Blaiklock, ex-integrante do governo brasileiro que atualmente dirige uma consultoria sediada na Europa. “Isso mostra falta de interlocução, gera falta de confiança.”

As normas da UE chegam em um momento delicado para os exportadores brasileiros, que buscam diversificar os destinos ao mesmo tempo que enfrentam limitações nos embarques para a China, maior compradora de carne bovina do mundo. Os países da UE compram uma parcela pequena das exportações brasileiras, mas normalmente pagam um preço médio mais alto que outros importadores, o que obrigará a potência sul-americana a redireccionar volumes a preços potencialmente menores.

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Autoridades europeias também realizaram uma auditoria em plantas de frango do Brasil no fim de agosto. Embora as exportações de aves devam ser interrompidas temporariamente até a conclusão do processo, no caso da carne bovina não há auditorias previstas nem novos desdobramentos que possam ajudar a evitar uma proibição.

(Fonte: Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços do Brasil)

Em 2023, quando a UE notificou pela primeira vez o Brasil sobre as novas regras para antimicrobianos, as autoridades locais decidiram que as exigências deveriam ser atendidas por meio de um protocolo do setor privado, afirmou Blaiklock, que na época trabalhava no Ministério da Agricultura do Brasil, na coordenação de assuntos internacionais.

Em maio, a UE deixou o Brasil fora da lista de países autorizados a fornecer produtos de origem animal ao bloco a partir de 3 de setembro. O Brasil correu para criar novos protocolos, mas observadores do setor argumentam que o país agiu tarde demais e que faltou coordenação entre governo e indústria.

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“O único, o único que não estava era o Brasil,” disse Blaiklock. O Brasil, diz ela, “não demonstrou que evidências confiáveis que garantam o cumprimento do regulamento.”

O Ministério da Agricultura do Brasil e a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes, conhecida como Abiec, não responderam a um pedido de comentário.

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Desde então, o Brasil avançou na criação de um sistema voluntário para fornecedores que atendam às novas regras. Não está claro se isso será suficiente para convencer as autoridades da UE, sobretudo porque o gado brasileiro pode passar por várias fazendas antes de atingir o peso de abate.

(Foto: Jonne Roriz/Bloomberg)

Pecuaristas brasileiros que têm como alvo o mercado europeu já precisam cumprir exigências específicas, como o rastreamento individual dos animais. Esse sistema, porém, concentra-se nas etapas finais do desenvolvimento do animal antes do abate e não contempla a rastreabilidade completa desde o nascimento.

Embora alguns pecuaristas estejam se adaptando às exigências europeias, a falta de uma resposta coordenada do Brasil “envia a mensagem errada ao mercado internacional”, afirmou Mauricio Nogueira, diretor da consultoria Athenagro.

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Ainda que pecuaristas afirmem que os tipos de substâncias que a UE está proibindo normalmente só são usados nas etapas finais do crescimento dos animais, a exigência europeia de rastreabilidade durante todo o ciclo de vida impõe desafios adicionais ao Brasil para cumprir as novas regras. Um programa nacional do Ministério da Agricultura pretende estabelecer a rastreabilidade individual do gado até 2032.

“O Brasil quer ser o maior exportador do mundo, mas nem sequer sabemos bois nós temos”, afirmou Fernando Sampaio, ex-executivo do setor e integrante da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. “O Brasil continuará exportando, mas aqueles clientes que poderiam pagar a mais tendem a fugir do risco.”

--Com a colaboração de Max Ramsay.

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