Frimesa aposta em escala e cooperativismo para dobrar receita a R$ 15 bi até 2032

Cooperativa do Paraná é quarta maior empresa em carne suína no país, atrás de Seara (JBS), Aurora e MBRF, e tem atuação também em lácteos; CEO Elias José Zydek explica à Bloomberg Línea estratégia de crescer com escala e foco em produtos de alto valor agregado: ‘ou você cresce ou desaparece’, disse

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26 de Março, 2026 | 09:37 AM

Bloomberg Línea — A cooperativa paranaense Frimesa vê espaço para mais do que dobrar o faturamento até 2032, com meta de atingir R$ 15 bilhões, apoiada na expansão da suinocultura e de produtos de maior valor agregado, sem deixar de lado o portfólio de lácteos.

Segundo o presidente e CEO, Elias José Zydek, a empresa também vislumbra crescer em São Paulo, sobretudo na região metropolitana, no Sul do país (principalmente Santa Catarina e o Rio Grande do Sul) e em regiões que até então a companhia não tinha tanta presença consolidada.

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O plano estratégico da empresa é desenhado sem deixar de lado um dos pilares centrais do modelo da companhia: operar com margens comprimidas para sustentar a base produtiva e os próprios cooperados.

“Nosso objetivo não é ter 5%, 10% de lucro no fim do ano”, disse Zydek, à Bloomberg Línea. “Eu distribuo o resultado ao longo da cadeia”, afirmou, ao acrescentar que a empresa trabalha com margens em torno de 3%.

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A Frimesa foi criada no fim da década de 1970 em Medianeira (PR) e resulta de um modelo projetado entre grandes cooperativas do oeste paranaense.

A empresa concentra a etapa industrial da cadeia e processa a matéria-prima fornecida por C.Vale, Copacol, Lar, Primato e Copagril.

Esse desenho ajuda a explicar a estratégia atual: o crescimento ocorre a partir da base produtiva existente, sem aquisições.

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Zydek construiu toda a carreira na Frimesa, onde atua há mais de quatro décadas. Entrou em 1978 como superintendente industrial, assumiu a diretoria executiva em 1997 e tornou-se presidente executivo (CEO) em 2023.

Escala como resposta à consolidação

A estratégia da Frimesa também parte do movimento de consolidação em curso na proteína animal no Brasil, com ganho de escala e redução de players pequenos, segundo o executivo.

“Hoje, as quatro empresas das quais a Frimesa faz parte abatem 80% dos suínos no Brasil. A tendência é que o país fique com oito a dez empresas (...) ou você cresce ou desaparece”, disse Zydek.

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A Frimesa é hoje a quarta maior em carne suína no país, atrás de Seara (JBS), Aurora e MBRF.

Sozinho, o segmento de suínos responde por 76% do faturamento total da empresa, sendo a categoria de industrializados a mais representativa: 45,5%. A categoria de lácteos responde por 22,5% do faturamento (desse total, 39,9% vem do leite longa vida e 16,6% de iogurtes.

Nesse contexto, a cooperativa estabeleceu metas mais agressivas de participação e pretende ampliar sua fatia no mercado nacional de carne suína dos atuais 8,5% para cerca de 14% até 2032.


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A companhia já vem respondendo a esse movimento. A produção diária de suínos praticamente triplicou desde 2015 e deve atingir cerca de 23 mil animais por dia até o fim do período. A base industrial que sustenta esse avanço, no entanto, já está majoritariamente construída.

A Frimesa investiu R$ 1,35 bilhão em sua principal planta frigorífica e estima ainda cerca de R$ 650 milhões adicionais até o fim da década, concentrados em equipamentos e ajustes operacionais. Entre 65% e 68% do plano já foi executado, o que altera a natureza do desafio daqui para frente.

Planta de Assis da Frimesa

“O grande investimento já está feito. Agora é mercado”, disse o executivo.

A trajetória da Frimesa pode ser dividida em três fases, disse o presidente da companhia em apresentação nesta terça-feira (23) a jornalistas no novo escritório da empresa na zona leste de São Paulo.

A primeira foi de estruturação da base produtiva e do modelo de intercooperação. A segunda, entre 2005 e 2015, concentrou os investimentos industriais e o ganho de escala. Agora, a empresa entra na terceira fase, em que o crescimento depende mais de execução comercial e ganho de mercado.

Segundo o executivo, a empresa não pretende realizar aquisições nem acessar o mercado de capitais. “Nós não vamos comprar ninguém e não vamos vender também”, afirmou Zydek.

Pressões e tendências

A nova fase ocorre em um ambiente mais adverso para o mercado como um todo. Segundo Zydek, a empresa sentiu efeitos indiretos da guerra no Oriente Médio, que pressionaram os custos relevantes da operação, com aumento de cerca de 7% no frete e de 25% em embalagens.

Essas pressões se somam a um cenário de demanda mais fraca até o momento. Nos primeiros meses do ano, a companhia registrou vendas cerca de 6% abaixo do planejado, com giro mais lento no varejo, especialmente em lácteos.

“Estamos sentindo um mercado muito retraído. O consumo muito estável, muito parado. O produto não está rodando como nos outros anos na ponta da gôndola”, disse.

No mercado externo, a exportação de carne suína também perdeu atratividade com o câmbio em níveis mais baixos. “Com o dólar abaixo de R$ 5,3 já não dá mais [tanto] lucro”, afirmou.

A empresa exporta para 38 países no mundo, principalmente para os continentes europeu, africano e asiático. 30% da receita da empresa é proveniente do mercado externo e o restante, e a maior fatia, do mercado interno.

Ceo da Frimesa Elias José Zydek

Diante desse cenário, a Frimesa vem ajustando o portfólio. No leite, a estratégia passa pela redução de produtos mais “commoditizados”, como o leite longa vida.

Na suinocultura, a lógica é semelhante. A empresa reduziu a venda de produtos básicos, como a carcaça dos suínos, e ampliou o foco na industrialização, buscando capturar ainda mais valor por animal processado.

Enquanto isso, a companhia busca ampliar a participação de produtos processados, de maior valor agregado, e também reposicionar parte da oferta em torno de tendências de consumo, com maior foco em proteína e movimentos iniciais de redução de açúcar, ainda sem metas formais, disse o executivo na apresentação.

Além do plano estratégico visando 2032, a empresa também anunciou um rebranding da marca e do logo.

A expectativa é que a nova identidade visual, com predominância de roxo e dourado, aumente a visibilidade no ponto de venda e diferencie a marca de concorrentes que tradicionalmente utilizam cores quentes, como vermelho e laranja.

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