Frigorífico Concepción busca vender ativos no Brasil para enfrentar crise da dívida

Empresa paraguaia que opera unidades também no Brasil e na Bolívia viu seus títulos despencarem a níveis de ‘distress’ diante de prazo iminente de pagamento de dívidas; diretor financeiro diz que empresa está comprometida em cumprir obrigações

Concepción precisa encontrar um total de US$ 59 milhões até o final do ano para cumprir pagamentos da linha. (Foto: Jonne Roriz/Bloomberg)
Por Ken Parks - Maria Elena Vizcaino - Giovanna Bellotti Azevedo

Bloomberg — Títulos do Frigorífico Concepción despencaram a níveis de “distress” conforme a empresa enfrenta pagamentos iminentes de dívida que equivalem a mais de três vezes seus níveis recentes de caixa.

Os US$ 300 milhões em títulos da empresa paraguaia com vencimento em 2028 são negociados por apenas 19 centavos de dólar, queda de 75 centavos em setembro, mostram dados da Trace.

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A Concepción deve cerca de US$ 65 milhões em pagamentos de dívida em junho e julho, incluindo cupom de títulos e US$ 16,8 milhões numa linha de crédito do Bank of America, segundo apresentação da empresa e dados compilados pela Bloomberg. Isso se compara com os US$ 16,7 milhões que mantinha em dólares americanos no final do ano passado.


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A Concepción diz que está comprometida em cumprir suas obrigações financeiras, prometendo vendas de ativos e medidas para refinanciar suas dívidas.

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“Gostaríamos de fazer uma recompra para mostrar o apoio da empresa aos detentores de títulos e reconquistar a confiança do mercado”, disse Gabriel Cordova, diretor financeiro da empresa, em entrevista. A recompra de dívida seria de pelo menos US$ 10 milhões, acrescentou.

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A empresa também tem intenção de se envolver com o Bank of America em negociações sobre a linha de crédito, disse Cordova, que recusou fazer comentários adicionais sobre o assunto. A Concepción precisa encontrar um total de US$ 59 milhões até o final do ano para cumprir pagamentos da linha.

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Choque de confiança

O frigorífico, que possui e opera unidades na Bolívia, no Paraguai e no Brasil, viu seus títulos despencarem em 2024 em meio a alegações de fraude contábil, embora os preços tenham se recuperado quando a PricewaterhouseCoopers considerou as acusações infundadas.

Na última década, a empresa construiu, comprou e arrendou matadouros, ajudando a impulsionar receitas anuais para pico de quase US$ 2,2 bilhões em 2025. A expansão, amplamente financiada por crédito, acumulou US$ 836,3 milhões em dívida até o final de dezembro.

“Crescemos mais do que deveríamos”, disse o diretor da empresa Renan De Lima, cuja família controla a Concepción. “Talvez em algum momento o mercado tenha levado a empresa a acreditar que sempre haveria dinheiro novo entrando.”

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Conforme os problemas se acumularam no ano passado, a empresa fechou cinco de seus nove matadouros no Brasil.

Agora, busca compradores para suas operações de criação e processamento de suínos no Paraguai e Brasil, incluindo o matadouro Incka Foods no Paraguai, programado para abrir este mês, disse De Lima.

“O Frigorífico Concepción cada vez mais parece menos uma queda cíclica clássica e mais um evento de liquidez completo impulsionado por confiança”, escreveu Cesar Fernandez, sócio da Alpha Credit Advisors, numa nota. “O mercado não está mais questionando se a empresa tem ativos valiosos — está questionando se ela pode sobreviver ao ciclo de refinanciamento.”

Classificações de risco

A Moody’s Ratings tem a Concepción sete níveis abaixo do grau de investimento com perspectiva negativa, enquanto a Fitch Ratings cortou sua nota em três níveis para CCC em abril, dizendo que a empresa está “altamente vulnerável à disposição dos credores de continuar fornecendo liquidez e financiamento de capital de giro.”

A S&P Global Ratings retirou sua classificação a pedido da empresa em agosto.

Para alguns analistas, porém, os títulos da Concepción caíram demais. Detentores de títulos poderiam recuperar entre 50 e 75 centavos de dólar com base numa dívida líquida de US$ 820 milhões e valor empresarial de US$ 465 milhões a US$ 620 milhões, escreveu Alexis Panton, estrategista da Caventor Capital em Londres, numa nota recente.

“Embora achemos que um calote seja provável dado a baixa liquidez em relação a requisitos de serviço de dívida de curto prazo, se as operações centrais são reais, então poderíamos ver recuperações em níveis muito mais altos que os níveis de negociação atuais”, escreveu Panton.

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