Bloomberg Línea — Quando a Boa Safra (SOJA3) tirou do papel o IPO, em 2021, sua estratégia era focada em sementes de soja. De lá para cá, a empresa tem diversificado seu portfólio e avançado em direção a outras culturas, em um movimento que se acelerou sobretudo desde 2023.
Mais recentemente, é o milho que passou a ganhar espaço como nova frente de crescimento na empresa com foco no longo prazo: a expectativa é dobrar o negócio do cereal no país nos próximos anos - ainda que a soja siga representando a maior fatia dos negócios
“Fomos uma empresa muito focada em soja até o IPO, em 2021, e a partir de 2023 começamos a ampliar o portfólio”, disse o CEO e um dos fundadores da empresa, Marino Colpo, em entrevista à Bloomberg Línea.
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O executivo disse que tem visto uma retomada “forte” no milho, o que ajuda a explicar alguns movimentos recentes da empresa para aumentar sua capacidade em sementes da cultura, incluindo a criação de uma joint venture na Nigéria e um acordo com a Syngenta.
“O milho foi um produto que teve um momento muito ruim, e agora já está em recuperação.” Segundo o executivo, a maior demanda por etanol de milho e também por proteínas, e, consequentemente, por ração animal, também contribuem com essa retomada.
Apesar da ambição, a soja ainda responde por 87% da receita. O restante vem das demais culturas, como milho, sorgo, trigo e feijão. Há ainda a parte de forrageiras conduzida pela SBS Green Seeds, joint venture entre a Boa Safra, a Sementes Nobre e a Semembrás.
“Nem sempre a baixa da soja é a baixa das outras culturas”, afirmou o executivo. “Diversificar ajuda a atravessar melhor os ciclos.”
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Hoje, essas novas frentes já somam cerca de R$ 300 milhões em receita e crescem em ritmo acelerado.
“Sou filho de produtor, e meu pai sempre me dizia: a cada dez anos, você vai ter três anos muito bons na soja, três médios e três muito ruins. Não se apavore nos anos ruins, nem se empolgue demais nos anos bons.”
Modelo da companhia
Apesar de não possuir terras próprias, a empresa opera com um modelo mais “asset light”, ou seja, mais leve em ativos quando comparado ao de outras empresas e conta com 16 unidades no país, sendo metade fábricas e metade centros de distribuição.
A Boa Safra opera com cerca de 600 produtores parceiros, que cultivam as sementes sob contrato, em uma área estimada de 315 mil hectares.
“A gente não tem um hectare de terra”, explicou o CFO da empresa Felipe Marques à Bloomberg Línea. “Somos donos das fábricas e trabalhamos com produtores integrados.”
Essa estrutura permite à empresa escalar novas culturas com menor necessidade de capital e maior flexibilidade operacional.
Ao mesmo tempo, a Boa Safra elevou o nível de endividamento em 2025, acompanhando a necessidade de financiar o crescimento e o capital de giro em um ambiente mais restritivo no agronegócio.
A dívida bruta consolidada atingiu R$ 1,3 bilhão no acumulado do ano passado, ante R$ 414 milhões no ano anterior, enquanto o caixa e as aplicações financeiras somaram R$ 1,1 bilhão.
Cerca de 5% da dívida (R$ 62 milhões) está no curto prazo, enquanto o restante, R$ 1,2 bilhão está no longo prazo, entre 12 e 60 meses.
Em 2025, a Boa Safra somou R$ 2,6 bilhões em receita líquida, alta de 42%, mas com queda relevante na rentabilidade: o Ebitda recuou 26% e a margem caiu para 5%.
O lucro líquido caiu de R$ 80,2 milhões no quarto trimestre do ano anterior e ficou negativo em R$ 8,4 milhões ao fim do último trimestre do ano passado. No acumulado de 2025, o lucro líquido somou R$ 101,1 milhões, queda de 37% em relação ao mesmo período de 2024.
Na ocasião, o CEO disse que o desempenho financeiro da companhia havia sido “decepcionante”.
Segundo o executivo, o ambiente de margens mais apertadas tem tornado o produtor mais seletivo nas decisões de compra.
Além disso, fatores climáticos e descartes de sementes impactaram a operação, segundo o último balanço financeiro divulgado pela companhia.
Nigéria: aposta no longo prazo
Sem necessidade de aplicar novos investimentos, a Boa Safra iniciou a sua operação internacional. A companhia ainda não revela o nome da empresa com quem fechou a parceria, mas os executivos disseram que essa representa uma aposta no longo prazo.
A Boa Safra foi escolhida justamente para adentrar no negócio com o know-how, sem necessidade de um investimento inicial, em troca de uma participação de 20%, com opção de ampliar para até 40%.

“Foi um ótimo negócio porque a gente entrou com zero investimentos”, disse Colpo. “Nós entramos com o conhecimento, e o parceiro faz o aporte de capital.”
O projeto prevê a construção de uma planta local e deve levar cerca de três anos até atingir maturidade operacional. Segundo os executivos da Boa Safra, os frutos desse projeto devem começar a ser colhidos em 2027.
A Nigéria cultiva cerca de 6 milhões de hectares de milho, aproximadamente um quarto da área brasileira, mas com produtividade significativamente inferior, devido ao uso limitado de sementes melhoradas.
“O grande problema lá é a qualidade da semente”, afirmou o executivo. “Hoje eles ainda usam variedades não híbridas.”
A expectativa é que a introdução de sementes mais tecnológicas permita elevar a produtividade e reduzir a dependência de importações de alimentos. “A ideia é ajudar o país a sair de importador para produtor relevante”, disse.
Parceria com a Syngenta
O principal vetor de crescimento no curto prazo vem da parceria firmada com a Syngenta, que amplia de forma relevante a capacidade da Boa Safra em sementes de milho no Brasil.
O acordo envolve a operação de unidades industriais voltadas à produção de sementes híbridas — um segmento mais tecnológico e de maior valor agregado em comparação à soja.
“Esse negócio começa a rodar agora, mas ainda não pega o ano cheio. A partir do ano que vem, roda full”, disse Colpo. “E aí temos a capacidade de dobrar o nosso business de milho no Brasil.”
A ambição da empresa é ganhar escala em um mercado que, embora menor em área plantada que a soja, representa mais que o dobro de valor agregado por hectare em sementes da oleaginosa.
Além disso, a estratégia da empresa ocorre em um momento de recuperação do milho após um ciclo negativo recente, o que, na avaliação da companhia, cria uma janela mais favorável.
“Talvez por ter passado por um momento ruim, a gente conseguiu entrar no negócio de uma forma mais eficiente”, afirmou.
Segundo os executivos, o momento é de cautela.
“Temos bala na agulha, temos caixa para fazer alguma negociação. Mas isso depende do momento correto de mercado e hoje ainda não me parece ser esse momento.”
No fechamento desta quarta-feira (15), a ação da Boa Safra encerrou o dia perto da estabilidade a R$ 7,21. No acumulado do ano, a queda é de cerca de 19%.
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