Bloomberg Opinion — Um dos argumentos a favor da fusão da SpaceX com a Tesla é que o sempre ocupado Elon Musk poderia realizar apenas uma teleconferência sobre resultados por trimestre, em vez de duas. Talvez não seja um argumento decisivo, mas a ideia de priorizar suas preferências é bastante relevante.
As especulações sobre a fusão da Space Exploration Technologies (SPCX) com a Tesla (TSLA) ofuscaram as teleconferências trimestrais de ambas as empresas nesta semana. Os resultados, no entanto, ilustraram o quão estranha essa fusão seria.
Musk confirmou durante a teleconferência da SpaceX na terça-feira (20) que as duas empresas formaram comitês especiais para examinar a questão. Ele observou que seus conflitos de interesse como diretor executivo e acionista majoritário em ambas as empresas o impedem de participar das discussões, ao mesmo tempo em que declarou sua preferência pessoal a favor do acordo.
Não uma, mas três vezes, com seu entusiasmo aumentando à medida que detalhava oportunidades de colaboração na “singularidade da superinteligência”. É quase possível imaginar aqueles membros independentes do comitê ouvindo e trocando sorrisos irônicos diante do discurso empolgado de Musk, antes de solenemente bloquear tudo isso de suas mentes e se concentrarem exclusivamente no que é melhor para todos aqueles acionistas que não são trilionários.
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Quanto aos resultados, a SpaceX ofuscou completamente a Tesla. A empresa de foguetes superou amplamente uma previsão de lucros relativamente estável, enquanto a Tesla conseguiu, por pouco, superar um consenso que vinha caindo ao longo do ano. O primeiro lucro líquido positivo trimestral da SpaceX, de US$ 4,4 bilhões, foi consideravelmente maior do que o da Tesla nos últimos quatro trimestres combinados.
Basta dizer que a fabricante de veículos elétricos parece um pouco desbotada em comparação com sua prima intergaláctica, apesar de estar avaliada em um valor absurdo de 187 vezes os lucros futuros. Ambas as empresas convergiram para os setores mais promissores do mercado, como inteligência artificial, robótica e chips. Mas o ímpeto da narrativa mudou significativamente em favor da SpaceX, sobretudo porque ela possui uma divisão de IA muito maior e claramente divulgada, além de um negócio lucrativo de conectividade.
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A Tesla, por sua vez, não consegue escapar do fato de que seu principal negócio — fabricar e vender carros — parou de crescer há algum tempo. Apesar de todo o alvoroço em torno do recente evento do Roadster voador, o veículo está destinado a vender em números ainda menores do que o Cybertruck, que nunca foi popular.
Musk apresentou uma nova projeção de vender 5 milhões de veículos anualmente até 2030 durante a teleconferência da Tesla, um aumento em relação aos 1,8 milhão previstos para este ano. Mas não podemos esquecer que, há pouco tempo, a Tesla tinha como meta 20 milhões de veículos até 2030. As ostentações de que seus táxis-robô acumularam quase 3,2 milhões de quilômetros de direção sem supervisão empalidecem em comparação com a rival Waymo, que percorre mais do que o dobro disso em uma semana.
Esse contexto traz ecos de uma fusão anterior no império de Musk, a saber, a aquisição da SolarCity pela Tesla em 2016. Naquela época, a Tesla absorveu uma empresa de energia solar residencial em dificuldades, da qual Musk era presidente do conselho. A Tesla não está entrando em espiral como a SolarCity, mas seus desafios significam que a SpaceX seria uma compradora bem-vinda.

Tanto os valuations da Tesla quanto os da SpaceX se baseiam em visões otimistas de crescimento. No caso da Tesla, isso fica ainda mais evidente diante do descompasso entre as enormes avaliações dos analistas para iniciativas como os táxis-robô e a falta de progresso da empresa em relação às suas afirmações grandiosas.
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A fusão da Tesla com a SpaceX provavelmente facilitaria o financiamento de seus gigantescos projetos de infraestrutura, mas o bônus adicional seria incorporar as dificuldades da montadora a uma narrativa maior e mais abrangente.

Podemos esperar grandes sinergias anunciadas assim que um acordo for divulgado. A principal racionalização, no entanto, diz respeito à estrutura acionária pessoal de Musk. Como escrevi aqui, consolidar o controle de seu império oferece toda a justificativa de que Musk precisa.
Seu controle rígido sobre a SpaceX, com cerca de 85% do poder de voto por meio de uma classe especial de ações, torna a empresa o veículo ideal. Se a SpaceX usasse ações para adquirir a Tesla com um prêmio de 30%, avaliando esta última em US$ 502 por ação, o poder de voto pro forma de Musk cairia apenas para 74%, segundo meus cálculos.
Musk observou que conseguir que mais da metade dos acionistas da Tesla aprovasse um acordo poderia ser um “grande obstáculo”. Um preço de oferta que estabelecesse um novo recorde histórico ajudaria nesse aspecto.
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Mesmo com um prêmio menor, eles poderiam ser facilmente convencidos, dadas as dificuldades atuais da Tesla e o valor das opções de longo prazo. Claro, eles deteriam ações em uma aposta concentrada no setor de IA, que parece cada vez mais efervescente, e com pouco poder de influência, mas quão diferente isso realmente é da situação atual deles?
As maiores objeções podem vir dos acionistas ordinários da SpaceX. Nesse nível de preço, os acionistas da Tesla acabariam detendo quase 50% da empresa resultante da fusão — uma participação quase igual à de seus homólogos na SpaceX, apesar de a Tesla contribuir muito menos em praticamente qualquer métrica que se possa imaginar.

Por outro lado, tais objeções teriam pouquíssima importância, dado o insignificante poder de voto dos acionistas ordinários da SpaceX, de cerca de 11%. Além disso, eles investiram na empresa sabendo exatamente que esse foguete em particular tem apenas um piloto. Musk caracterizou as discussões dos comitês especiais sem a sua presença como um “teatro kabuki estranho”, e este pode ser um daqueles casos em que vale a pena acreditar na palavra dele.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Liam Denning é colunista da Bloomberg Opinion e cobre energia. Ex-banqueiro, ele editou a coluna “Heard on the Street” do Wall Street Journal e escreveu a coluna “Lex” do Financial Times.
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