El Niño volta a ameaçar a Amazônia após seca histórica causar perdas bilionárias

Floresta ainda carrega efeitos da seca recorde de 2023 e 2024, enquanto novo fenômeno ameaça reduzir chuvas e elevar temperaturas. Governo reservou R$ 1,3 bilhão para enfrentar impactos do fenômeno, que pode aumentar o risco de incêndios na região

A seca na região em 2023 e 2024 foi a pior já registrada, contribuiu para milhares de incêndios e provocou forte aumento da perda florestal (Foto: MICHAEL DANTAS/AFP via Getty Images)
Por Fabiano Maisonnave
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Bloomberg — Mais de um terço da Amazônia brasileira ficou altamente exposto à seca após o último El Niño, de 2023 a 2024, evidenciando os riscos para a maior floresta tropical do mundo com o retorno do fenômeno climático global em intensidade incomum. O El Niño deste ano já tem influenciado desde as recentes enxurradas repentinas no Grand Canyon, nos EUA, até a quebra na produção de arroz na Ásia.

Dados divulgados em 4 de setembro identificaram que 2.172 das 5.673 localidades da Amazônia brasileira, ou 38% do total, estiveram altamente expostas à seca entre setembro e novembro de 2024, após o fim do El Niño em maio daquele ano.

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Durante esses três meses, a área de água superficial na Amazônia ficou 12% abaixo da média de 1985 a 2025. As temperaturas máximas ficaram 2,6°C acima da média, e a precipitação foi 27% inferior ao normal, segundo o MapBiomas, rede de pesquisa formada por organizações não governamentais, universidades e empresas de tecnologia responsável pelo levantamento.


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A seca na região em 2023 e 2024 foi a pior já registrada, contribuiu para milhares de incêndios e provocou forte aumento da perda florestal. A fauna também sofreu: dezenas de botos-cor-de-rosa, espécie endêmica ameaçada de extinção, morreram devido às temperaturas elevadas da água em algumas áreas da bacia amazônica.

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O último El Niño deixou prejuízos de bilhões de reais no Brasil, incluindo os estragos provocados pelas graves enchentes no Rio Grande do Sul.

Em Manaus, maior cidade da Amazônia e importante polo industrial, as interrupções à navegação de embarcações de grande porte causaram cerca de R$ 1,4 bilhão em perdas apenas em 2023, segundo o Centro da Indústria do Estado do Amazonas.

As conclusões surgem no momento em que o Brasil se prepara para os efeitos do atual El Niño, confirmado em junho e com expectativa de se tornar muito intenso antes do fim do ano.

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As previsões apontam chuvas abaixo da média e temperaturas acima da média na Amazônia, o que pode prolongar a estação seca, elevando o risco de incêndios florestais e reduzindo a disponibilidade de água.

Bruno Ferreira, pesquisador da equipe da Amazônia do MapBiomas, afirmou que o risco é agravado pelo período anterior de condições extremamente secas.

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“Alguns componentes do sistema hidrológico podem demorar para se recuperar após secas: água no solo, a zona da raiz, a água subterrânea”, disse. “A Amazônia pode começar novo um evento de seca com menor estoque de água e uma vegetação mais fragilizada.”

Em 2024, centenas de comunidades rurais enfrentaram falta de água potável e não conseguiram pescar, uma de suas principais fontes de alimento, porque os níveis dos rios estavam muito baixos. Para ter acesso a produtos como combustível, os moradores precisaram caminhar por quilômetros em vez de se deslocar de barco.

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O governo brasileiro diz ter reservado R$ 1,335 bilhão no orçamento para lidar com os impactos relacionados ao El Niño, incluindo abastecimento de alimentos, saúde, monitoramento dos rios, fiscalização ambiental e prevenção de incêndios florestais.

Ferreira afirmou que as autoridades agora têm mais experiência para responder a esses eventos, mas advertiu que comunidades remotas, dependentes dos rios para transporte, pesca e abastecimento, continuam particularmente vulneráveis.

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