Bloomberg Opinion — Ao longo dos anos, testemunhei de perto países que literalmente quebraram sob a pressão econômica dos Estados Unidos: Iraque, Venezuela e Cuba. As cenas que vi em Bagdá, Caracas e Havana eram muito semelhantes. A moeda nacional perdeu o valor, a inflação disparou e o desemprego aumentou vertiginosamente. Ainda assim, as sanções econômicas americanas, por si só, não conseguiram provocar mudanças políticas.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aposta que pode quebrar economicamente o Irã e, nesse processo, obter as concessões políticas que deseja — tudo em tempo recorde.
Mas os precedentes históricos sugerem que ele está errado. A República Islâmica já demonstrou muitas vezes sua grande capacidade de suportar dificuldades financeiras, e seu limite de tolerância provavelmente é ainda maior agora que a ameaça é existencial.
Com Trump e seu aliado, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ficando sem opções para encerrar a guerra que iniciaram sem muito planejamento, a via da asfixia econômica provavelmente é a menos ruim. Nem é preciso dizer que “menos ruim” está longe de ser “bom”.
Qual é a alternativa? Trump poderia admitir a derrota e aceitar os termos do Irã; poderia optar por mais bombardeios, na esperança de obter, milagrosamente, um resultado diferente; ou poderia enviar tropas terrestres e embarcar no tipo de guerra interminável no Oriente Médio que prometeu evitar.
Coloque-se no lugar de qualquer pessoa dentro da Casa Branca, analise friamente o tabuleiro e a tentativa de estrangular financeiramente o Irã parece valer a pena. Claro, teria sido melhor se a guerra não tivesse começado ou, pelo menos, se tivesse sido mais bem planejada. Mas a situação é esta.
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Um cerco financeiro terá sucesso? Talvez. A intensidade da pressão econômica sobre o Irã certamente não tem precedentes. Sim, os EUA impõem sanções a Teerã desde a Revolução Islâmica de 1979. Mas nunca haviam impedido completamente o país de vender seu petróleo, como fazem agora, nem o haviam bombardeado com tanta intensidade quanto entre o fim de fevereiro e o início de abril. E Trump não precisa que o regime entre em colapso; precisa apenas de poder de barganha suficiente à mesa de negociações, pressionando o Irã a ponto de Teerã flexibilizar suas exigências para encerrar o conflito.
Para que isso funcione, porém, Trump precisa resistir economicamente por mais tempo que o Irã — e o petróleo é a chave. Se a Casa Branca conseguir manter o barril abaixo de US$ 100, aproximadamente, terá uma chance. Neste momento, o West Texas Intermediate, referência do petróleo nos EUA, é negociado em torno de US$ 85 por barril.
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Para que isso continue, é preciso que um volume suficiente de petróleo continue a passar pelo Estreito de Ormuz. A China também precisa ajudar, mantendo suas importações de petróleo bem abaixo dos níveis anteriores à guerra. Até agora, em agosto, os dois fatores têm favorecido Trump; não há garantia, porém, de que essa situação persista.

O Irã, inegavelmente, sofre as consequências, mas está “quebrado”, como afirma Trump? Certamente parece estar. Sua economia caminha para registrar a maior contração anual desde o pior momento da Guerra Irã-Iraque, em meados da década de 1980.
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A inflação está bem acima de 50%, a maior taxa anual desde o início dos registros, há quase 70 anos. Pior: o custo dos alimentos e de outros itens essenciais já dobrou em relação ao ano anterior. Sua moeda, o rial, perdeu praticamente todo o valor. No mercado paralelo, a taxa de câmbio despencou para a mínima histórica de cerca de 1,85 milhão de riais por dólar; cinco anos atrás, cerca de 50 mil riais eram suficientes para comprar um dólar.
“Esse nível de mudança econômica precisa ser levado muito a sério”, escreveu no início deste mês Masoud Nili, ex-assessor econômico do governo, no jornal liberal Donya-e-Eqtesad.
O bloqueio dos EUA agrava as dificuldades à medida que as exportações iranianas de petróleo caíram praticamente a zero, o que deixa o governo com pouca receita para pagar salários. Em vez disso, Teerã imprime dinheiro, o que alimenta a crise inflacionária. Mas o cerco não é a muralha de aço de que Trump fala.
A geografia é uma poderosa aliada da República Islâmica. Com mais de 5.500 quilômetros de extensão e fronteiras com sete países — Paquistão, Afeganistão, Turcomenistão, Azerbaijão, Armênia, Turquia e Iraque —, a fronteira iraniana supera consideravelmente a distância entre Nova York e Los Angeles e é extensa e porosa demais para ser completamente fechada. As conexões ferroviárias têm se expandido.
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Pelo Mar Cáspio, o Irã também compartilha fronteiras marítimas com Rússia e Cazaquistão. Moscou já ajudou Teerã a se manter à tona por essa rota.

Washington planeja aumentar ainda mais a pressão econômica; os Emirados Árabes Unidos já romperam seus vínculos econômicos e financeiros com o Irã, privando o país de uma rota importante para lavar as receitas obtidas com a venda de petróleo, e o Iraque provavelmente fará o mesmo.
Na noite de quarta-feira, Trump anunciou nas redes sociais o que descreveu como “A OPERAÇÃO ECONÔMICA MAIS DEVASTADORA JÁ REALIZADA CONTRA QUALQUER PAÍS”, e ameaçou qualquer nação que ajudasse o Irã com “contrabando de petróleo, linhas de swap, transferências de dinheiro, casas de câmbio, registros de navios, empresas de fachada”.
Trump parece esperar que suas ameaças sejam suficientes para convencer outros países a interromper relações comerciais com o Irã, em vez de recorrer a alguma medida específica.
Teerã sabe que essa guerra de desgaste econômico só tende a piorar.
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No início desta semana, Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano e principal negociador do país, afirmou nas redes sociais que, embora a Casa Branca acredite que “apertar ainda mais o cerco ao Irã” forçará concessões, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, não tem competência para conseguir isso: “Parem de esperar que esse bando de palhaços tire um coelho da cartola.”

Deixando a bravata de lado, o regime parece preocupado — e deveria estar.
Quando o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, reuniu-se pessoalmente com o líder supremo Mojtaba Khamenei pela primeira vez no início deste mês, o encontro teve como foco as condições de vida e o emprego da população, além dos “problemas causados pelas sanções”.
O Irã é um país enorme, com quase 90 milhões de habitantes que suportaram décadas de dificuldades. Em termos per capita, é mais pobre do que há 40 anos. Não surpreende que a população tenha se revoltado contra seus líderes várias vezes ao longo dos anos.
A maior esperança de Trump é que a pressão econômica crie em Teerã o temor de que a insatisfação social interna esteja novamente próxima do ponto de ruptura. Esperança, porém, raramente funciona como estratégia.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Javier Blas é colunista da Bloomberg Opinion e escreve sobre energia e commodities. Anteriormente, ele foi editor de commodities do Financial Times e é coautor de “The World for Sale: Money, Power, and the Traders Who Barter the Earth’s Resources”.
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