Bloomberg Opinion — Lá se foi o pânico.
Mais de quatro meses após o início da guerra no Irã, a América Latina vem demonstrando uma resiliência econômica surpreendente, tendo superado o choque geopolítico e a volatilidade dos mercados que se seguiu praticamente ilesa.
As exportações das maiores economias da região estão batendo recordes, a atividade econômica permaneceu sólida e o pico inflacionário inicial está diminuindo gradualmente, ou pelo menos se estabilizando, à medida que os preços do petróleo recuam. O desemprego permanece baixo, os governos resistiram em grande parte à tentação de excessos fiscais e os bancos centrais preservaram sua credibilidade conquistada com esforço, mantendo uma política monetária prudente.
Os spreads soberanos em toda a região caíram no mês passado para seus níveis mais baixos em quase duas décadas, apesar de um breve salto em março, após o início do conflito no Oriente Médio. As moedas também estão recuperando algum terreno em relação ao dólar.
Na quarta-feira (8), o Fundo Monetário Internacional elevou sua previsão de crescimento do PIB para 2026 na América Latina e no Caribe para 2,4%, 0,1 ponto percentual acima de sua projeção de abril, mesmo tendo rebaixado suas perspectivas globais na mesma proporção. Para o próximo ano, o fundo espera que a região cresça 2,7%, seu ritmo mais acelerado desde os anos imediatamente após a pandemia.
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O resultado contrariou as previsões pessimistas desencadeadas pelo início do conflito com o Irã. Mais notável ainda, ele reflete um quadro macroeconômico que amadureceu de forma constante nas últimas duas décadas. Outrora uma das regiões mais vulneráveis do mundo a choques externos e perturbações no mercado de petróleo, a América Latina vem se comportando cada vez mais — pelo menos em termos financeiros — como uma economia desenvolvida aos olhos dos investidores internacionais.
Essa é uma conquista que vale a pena comemorar e, mais importante ainda, na qual vale a pena apostar. Após aprender que a estabilidade macroeconômica traz benefícios duradouros, os formuladores de políticas devem agora voltar sua atenção para reformas que estimulem a concorrência, aumentem a produtividade, fortaleçam os mercados e reforcem a disciplina fiscal.
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Politicamente, essas reformas são mais difíceis de implementar, pois raramente geram o tipo de pressão pública que obriga os governos a agir. Não são atraentes, é verdade, mas são um passo essencial para impulsionar as perspectivas de crescimento de longo prazo da região. Ainda há muitas nuvens no horizonte; a complacência seria o pior erro. Ninguém sabe de onde virá a próxima crise, mas os choques globais continuarão sendo uma característica recorrente do cenário internacional.

Talvez a prova mais clara de que a América Latina tenha navegado por essas águas turbulentas durante o primeiro semestre do ano tenha sido a inflação. O aumento repentino do preço do petróleo em março e abril, provocado pelo fechamento do Estreito de Ormuz, acionou o alarme devido ao seu impacto potencial sobre os custos dos combustíveis, que tendem a se espalhar rapidamente pela economia e, muitas vezes, desencadeiam agitação social.
No entanto, esses temores se mostraram, até o momento, exagerados. Alguns governos já estão revertendo os subsídios emergenciais aos combustíveis que haviam introduzido. Não está claro até que ponto a retomada dos ataques dos EUA ao Irã altera as perspectivas, mas as maiores economias da região já observaram uma desaceleração da inflação mensal em relação aos picos atingidos no início deste ano.
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“Não houve efeitos de segunda ordem significativos. A inflação não é um fator que eu considere preocupante na região”, disse Martín Castellano, chefe de pesquisa para a América Latina do Instituto de Finanças Internacionais. “Em termos de estabilidade macroeconômica, a América Latina já deu um salto. Os desafios estão no crescimento.”
De fato, a América Latina ainda está longe das taxas de crescimento anual de 3% a 5% necessárias para decolar. A região pode ter se protegido do choque do Oriente Médio e os fluxos de capital estrangeiro podem estar aumentando, mas o boom sustentado necessário para melhorar significativamente os padrões de vida continua sendo difícil de alcançar.

E, é claro, persistem riscos significativos específicos de cada país, incluindo a sustentabilidade fiscal da Colômbia, a possibilidade de um rebaixamento da classificação de crédito soberano do México e as dúvidas quanto ao compromisso com o ajuste fiscal por parte do próximo governo do Brasil após as eleições de outubro. Mesmo que a região pareça ter se deslocado decisivamente para a direita, a polarização política pode complicar a adoção de políticas mais favoráveis aos negócios.
Minha colega da Bloomberg Economics, Jimena Zúñiga, destaca que, apesar dos ganhos de credibilidade nas últimas duas décadas, os fundamentos desses países poderiam ser ainda mais sólidos: “A região está mais madura no sentido de que o mercado é mais tolerante com seus problemas.”
Eu concordo.
Ainda assim, ao fortalecerem suas bases econômicas, os países da América Latina têm agora uma oportunidade melhor de alcançar algo muito mais difícil: prosperidade sustentável.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Juan Pablo Spinetto é colunista da Bloomberg Opinion e cobre negócios, assuntos econômicos e política da América Latina. Foi editor-chefe da Bloomberg News para economia e governo na região.
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