24 horas de tensão: como o ‘Nostradamus’ da IA evitou o colapso de seu hedge fund

Gestora de Leopold Aschenbrenner viu seus ativos sob gestão encolherem de US$ 45 bilhões para US$ 10 bilhões em julho antes de vender ativos à Citadel e evitar um desfecho ainda mais dramático

Pedestres passam em frente à Bolsa de Nova York (NYSE), em Wall Street (Foto: Michael Nagle/Bloomberg)
Por Katherine Burton - Sridhar Natarajan - Todd Gillespie - Nishant Kumar
PUBLICIDADE

Bloomberg — Ele foi aclamado como o “Nostradamus” da IA — um jovem oráculo com uma profecia ousada para o futuro.

“Em pouco tempo, o mundo vai despertar”, previu Leopold Aschenbrenner, visionário da tecnologia que se tornou gestor de hedge fund, em 2024. Nesta semana, isso de fato aconteceu — mas não da forma como ele imaginava.

PUBLICIDADE

Em questão de horas, sua bem-sucedida gestora, a Situational Awareness, foi obrigada a vender bilhões de dólares em investimentos em tecnologia que tinham perdido valor rapidamente, à medida que bancos passaram a exigir cada vez mais garantias para manter suas operações alavancadas. Então entrou em cena o bilionário Ken Griffin.

Em menos de 24 horas — período que incluiu uma conversa entre Griffin e Aschenbrenner —, a gestora Citadel, de Griffin, procurou a Situational Awareness e comprou os ativos com desconto, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto que falou com a Bloomberg News.


Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.

PUBLICIDADE

Foi uma reviravolta surpreendente para Aschenbrenner, ex-pesquisador da OpenAI que, antes de criar seu fundo hedge há cerca de dois anos, não tinha experiência prévia como investidor. Sua gestora viu os ativos sob administração despencarem de US$ 45 bilhões no início de julho para cerca de US$ 10 bilhões.

(Foto: Aaron Schwartz/Bloomberg)

O episódio coloca a Situational Awareness — nome inspirado no ensaio que Aschenbrenner publicou em 2024 sobre o futuro da inteligência artificial e que viralizou — em uma nova e incerta trajetória, ao mesmo tempo em que entrega a Griffin, veterano de Wall Street, participações em algumas das principais empresas de IA.

Ainda assim, passada a turbulência da semana, tudo indica que Aschenbrenner sairá apenas machucado, e não derrotado. Ele continua à frente de um dos maiores fundos hedge de ações do mundo. E, daqui a apenas dois dias, se casará com sua noiva — chefe de gabinete do CEO da Anthropic PBC — em um evento no vale de Carmel, na Califórnia.

PUBLICIDADE

Leia também: Da fábrica de chips à cidade em crise: como a IA aprofunda a divisão econômica da China

Embora a Situational Awareness tenha acumulado perda de cerca de 67% em julho, o fundo hedge ainda registra ganho de aproximadamente 80% no ano, segundo uma carta enviada aos investidores no fim da noite de quinta-feira.

Oscilações tão extremas significam que os cotistas podem apresentar grandes ganhos ou perdas não realizados, dependendo do momento em que investiram no fundo.

PUBLICIDADE

“Nós decepcionamos vocês neste mês”, escreveu Aschenbrenner na carta.

Em sua curta trajetória como gestor de um grande fundo hedge, Aschenbrenner testemunhou tanto o entusiasmo extremo em torno da inteligência artificial quanto o receio de que ela represente apenas mais uma bolha tecnológica.

Nos últimos meses, bancos como Goldman Sachs, JPMorgan Chase e Bank of America financiaram sua ascensão. Segundo pessoas familiarizadas com o assunto, algumas instituições chegaram a oferecer empréstimos equivalentes a quatro ou cinco vezes o capital do fundo. Mas, quando as ações de tecnologia começaram a cair nas últimas semanas, os credores deixaram claro que não estavam dispostos a atravessar a turbulência.

Aschenbrenner começou então a liquidar posições para atender à avalanche de chamadas de margem (margin calls). As vendas repercutiram nos mercados globais nos últimos dias e levaram investidores a tentar entender o que estava por trás da forte liquidação.

A liquidação de quarta-feira foi “completamente injustificada, para ser sincero”, afirmou Vuk Vukovic, diretor de investimentos da Oraclum Capital. “Tinha que haver alguma outra coisa por trás disso.”

“Agora sabemos o que aconteceu”, acrescentou.

Mesmo antes das chamadas de margem desta semana, já havia sinais de que Wall Street começava a agir com mais cautela.

À medida que algumas de suas posições atingiam máximas históricas nas últimas semanas, a Situational Awareness buscava novos bancos dispostos a financiar suas apostas. O fundo procurou algumas instituições, entre elas o Barclays Plc, para trabalhar com suas divisões de prime brokerage, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.

Leia também: 5 fatores que ajudam a explicar por que a IA amplia o apetite por risco dos jovens

O Barclays recusou a proposta por considerar excessiva a exposição do fundo a um único setor, disseram essas pessoas. Um porta-voz do banco se recusou a comentar.

Representantes do Goldman Sachs, JPMorgan, Bank of America e da Situational Awareness também se recusaram a comentar.

No início desta semana, foram feitos contatos com um pequeno grupo de instituições capazes de adquirir, de uma só vez, uma grande parcela das ações. Millennium Management e Jane Street Group, que também investe na Situational Awareness, estavam entre as empresas que analisaram o portfólio.

A gestora chegou a considerar a venda de parte de seus valiosos investimentos privados enquanto buscava levantar capital e iniciou negociações para vender parte de sua participação de US$ 5 bilhões na Anthropic.

Ao tomar conhecimento das dificuldades, a Citadel entrou em contato com Aschenbrenner, que acabou conversando diretamente com Griffin. Após horas de negociação durante a madrugada, um acordo foi fechado pouco antes da abertura do mercado na quinta-feira, resgatando a gestora e permitindo que ela mantivesse todas as participações em empresas privadas.

Representantes da Citadel, Millennium e Jane Street também se recusaram a comentar.

Leia também: CEOs brasileiros planejam acelerar investimentos em IA, diz EY-Parthenon

Aschenbrenner afirmou que assume total responsabilidade pelos acontecimentos, mas atribuiu parte da queda registrada em julho à atuação de investidores vendidos (short sellers), que miraram as ações que integravam sua carteira, escreveu na carta aos clientes. Ele também prometeu administrar seu portfólio de ações listadas sem alavancagem “enquanto assimilamos as lições desses acontecimentos”.

Além disso, comprometeu-se a mudar a forma como administra o portfólio.

“Minha principal promessa a vocês é que não desperdiçaremos a oportunidade de aprender com esses acontecimentos”, escreveu.

FTX, OpenAI

Nascido na Alemanha, Aschenbrenner mudou-se para os Estados Unidos aos 15 anos para estudar na Universidade Columbia.

“Pulei algumas séries e, na época, pareceu normal entrar na faculdade aos 15 anos e vir para os Estados Unidos”, disse em um podcast em 2024. “Uma das minhas irmãs está completando 15 anos agora e, quando olho para ela, entendo por que minha mãe estava preocupada.”

Durante a graduação em Columbia, fundou o núcleo universitário do movimento do altruísmo eficaz (effective altruism), que busca identificar as formas mais eficientes de promover a filantropia. Formou-se em 2021 em Economia e Estatística Matemática como o primeiro da turma. Em uma viagem a Washington, chegou a entrar na fila às três da manhã para assistir às sustentações orais na Suprema Corte dos Estados Unidos.

Antes de ingressar na OpenAI, em 2023, ajudou a administrar o FTX Future Fund, braço filantrópico do império de criptomoedas de Sam Bankman-Fried, que desmoronou após um esquema bilionário de fraude financeira. Pouco depois, juntou-se à OpenAI, de Sam Altman, mas foi demitido em 2024 da equipe de Superalignment.

A OpenAI afirmou que ele foi desligado por vazar informações confidenciais. Já Aschenbrenner sustenta que alertou a empresa sobre a falta de interesse em impedir ataques de adversários estrangeiros.

Após uma série de textos publicados em seu blog, Situational Awareness, Aschenbrenner criou um fundo hedge com o mesmo nome e recrutou outros jovens entusiastas de tecnologia para integrá-lo, incluindo amigos dos tempos de Columbia.

Entre os primeiros investidores estavam Patrick e John Collison, fundadores da Stripe, além de Daniel Gross e Nat Friedman, hoje envolvidos nas iniciativas de inteligência artificial da Meta Platforms.

No texto que deu origem à sua carreira como investidor, Aschenbrenner refletiu sobre os riscos e o potencial da inteligência artificial. Chegou a brincar que apostar todas as fichas na Nvidia pode parecer uma excelente ideia hoje, “mas o peso da história é grande. Eu não faria essa escolha”.

“Reconhecer o poder da superinteligência também significa reconhecer seus perigos”, escreveu à época. “Precisamos garantir que não estraguemos tudo.”

--Com a colaboração de Katherine Doherty, Dina Bass, Tracy Alloway, Christine Dobby, Bernard Goyder, Hema Parmar, Crystal Tse, Annie Massa e David Scheer.

Veja mais em bloomberg.com

Leia também

Ex-funcionário da xAI alega ter sido demitido após questionar segurança do Grok

Maior risco da IA é ampliar desigualdades, não eliminar empregos, diz especialista