Bloomberg — Homenagens ao ex-presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, surgiram em grande número após a notícia de seu falecimento na madrugada desta segunda-feira (22), muitas delas vindas de ex-colegas e participantes do mercado que acompanharam de perto seus 18 anos à frente do banco central dos Estados Unidos.
Vários o descreveram como uma força motriz para a mudança no Fed e um farol para os investidores — à sua maneira enigmática —, mesmo que seu legado definitivo tenha sido ofuscado pela crise financeira global de 2008-09.
Autoridades e funcionários que trabalharam com Greenspan destacaram como seu mandato abrangeu um período de mudanças econômicas significativas, desde uma era de alta inflação até uma economia impulsionada pela tecnologia. Greenspan liderou o Fed de 1987 a 2006 e faleceu na segunda-feira em sua residência em Washington.
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Seus ex-colegas reconhecem seu mérito por garantir que o banco central permanecesse totalmente focado na inflação, por identificar o impacto do boom de produtividade na década de 1990 e por revolucionar a forma como o Fed se comunica.
“Ele foi um grande banqueiro central”, afirmou o ex-presidente Ben Bernanke em declarações enviadas por e-mail. “Ainda estamos aprendendo com ele, mesmo que já não esteja mais entre nós.”
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Greenspan deixou sua marca pela primeira vez ao se concentrar na inflação, reforçando a postura agressiva adotada por seu antecessor, Paul Volcker.
“Quando Paul Volcker derrotou a inflação de dois dígitos no início da década de 1980, ele deixou para Alan Greenspan uma taxa de inflação de 4%”, afirmou Charles Evans, presidente do Fed de Chicago de 2007 a 2023. “Sob a liderança de Greenspan, a inflação foi reduzida de forma deliberada e oportunista para 2%, e para níveis ainda mais baixos no início dos anos 2000.”
Outros reconheceram o mérito de Greenspan por ter transformado a forma como o Fed se comunicava com o público. Em fevereiro de 1994, o comitê de definição de taxas do Fed divulgou, pela primeira vez, um comunicado após uma reunião de política monetária, apresentando os detalhes básicos de sua decisão.
O ‘Greenspan Put’
Entre os investidores profissionais, Greenspan é lembrado com carinho pelos anos de prosperidade dos mercados financeiros sob sua gestão. O índice S&P 500, que reúne ações dos Estados Unidos, quase quadruplicou durante esses anos, proporcionando um retorno anual superior a 10%.
“As pessoas costumavam brincar em Wall Street na década de 1990 e no início dos anos 2000 que, se ele viesse a falecer enquanto estivesse à frente do Fed, teriam que encher um manequim, colocá-lo em uma cadeira e alegar que ele ainda era presidente para manter a confiança dos mercados financeiros”, disse Jeremy Siegel, professor emérito de finanças da Universidade da Pensilvânia.
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A partir da queda do mercado de ações em outubro de 1987, Greenspan demonstrou estar disposto a intervir para injetar liquidez e defender os mercados, o que levou ao que os investidores chamaram de “Greenspan put”.
“Quando se tem uma crise financeira, como a que vivemos em 1987 no mercado de ações, a reação dele foi adequada”, disse Ed Yardeni, da Yardeni Research. “Mas ele criou um legado de que o Fed ajuda Wall Street sempre que ela se encontra em apuros.”
Exuberância irracional
Greenspan também se mostrava disposto, ocasionalmente, a conter os mercados financeiros, o que levou a um de seus momentos mais marcantes.
Em um discurso proferido numa noite de dezembro de 1996, o presidente do Fed perguntou: “Como sabemos quando a exuberância irracional elevou indevidamente os valores dos ativos?”
Um funcionário do Fed que entregou o texto aos membros da mídia disse aos jornalistas que ele não continha nada particularmente digno de nota, e alguns repórteres omitiram essa frase-chave em suas reportagens iniciais. Mas as matérias que a incluíram causaram um impacto imediato nos mercados asiáticos.
“Ele recebeu uma enxurrada de críticas de pessoas do mercado que achavam que ele havia ultrapassado os limites”, disse Charles Lieberman, cofundador e diretor de investimentos da Advisors Capital Management, nesta segunda-feira.
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Hoje, a frase ressurge como uma espécie de homenagem a Greenspan sempre que o mercado começa a parecer efervescente.
“‘Como sabemos quando a exuberância irracional elevou indevidamente os valores dos ativos?’ Acontece que não sabíamos, e sua pergunta serve como um bom conselho nos mercados atuais”, disse Bill Gross, cofundador e ex-diretor de investimentos da Pacific Investment Management Co.
A aposta na produtividade
Greenspan atingiu outra fase crucial em seu mandato durante a década de 1990, à medida que as empresas adotavam rapidamente novas tecnologias no início da era da internet. À medida que a economia se recuperava, ele argumentou que o boom de produtividade resultante impediria um pico de inflação e se absteve de aumentar as taxas de juros.
“É bastante notável como Greenspan chegou à conclusão de que uma política monetária mais flexível era possível”, afirmou David Wilcox, da Bloomberg Economics, que trabalhou como economista na equipe de Greenspan.
“Percebendo que os dados de produtividade da época não eram confiáveis, ele se dedicou ao assunto, trabalhando com um dos assessores sênior para construir evidências empíricas de que o crescimento da produtividade era muito mais forte do que as estatísticas oficiais mostravam.”
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Greenspan frequentemente obtinha pistas sobre o desempenho da economia em fontes inesperadas, segundo o renomado investidor Stanley Druckenmiller, que conheceu o ex-presidente do banco central enquanto era membro do Comitê Consultivo de Emissões do Tesouro.
“O que havia de melhor em Greenspan era que ele adorava os modelos e podia discutir de igual para igual com qualquer pessoa sobre os detalhes, em termos de raciocínio rigoroso”, disse Druckenmiller. “Mas ele também se interessava em conversar com empresários sobre informações em tempo real e o que estava acontecendo com os pedidos na economia que estavam fora do modelo.”
A sombra da crise
No entanto, a eclosão da crise de crédito em 2007, que mais tarde se transformou em um colapso financeiro quase global em 2008, manchou o legado de Greenspan.
Embora Greenspan tenha sido elogiado ao deixar o cargo em 2006, os críticos afirmam que ele não percebeu o aumento da bolha imobiliária que, por fim, causou a pior recessão econômica desde a Grande Depressão.
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Entre as críticas está a visão de Greenspan de que os mercados deveriam seguir seu curso e que o Fed poderia rapidamente corrigir a situação posteriormente.
“Ele fez essa escolha, dizendo: ‘Vamos ter muitos, muitos anos de crescimento e talvez assumir um risco um pouco maior em relação a algumas dessas consequências negativas’”, disse Randall Kroszner, professor de economia da Universidade de Chicago e membro do Conselho do Fed de 2006 a 2009, à Bloomberg TV. “Nós tentamos remediar parte disso, mas provavelmente o custo foi muito, muito maior do que ele teria previsto.”
Embora as críticas sejam justificadas, Greenspan foi apenas uma peça de um quebra-cabeça regulatório e político muito maior, afirmou Don Kohn, ex-vice-presidente do banco central.
“É verdade que ele não deu o alarme e disse ‘algo ruim está acontecendo aqui, precisamos fazer algo’, mas, ao mesmo tempo, sua autoridade para agir, mesmo que tivesse dado esse alarme, teria sido bastante limitada”, disse Kohn.
Outros se lembravam dele por seu domínio dos dados econômicos e por sua capacidade, apesar de sua obsessão pelas minúcias, de enxergar o panorama econômico mais amplo.
“Lembro-me dele nas reuniões do conselho — ele discutia de igual para igual com todos os nossos especialistas na economia real sobre as questões mais minuciosas e detalhadas”, relembrou James Clouse, economista do Instituto Andersen que trabalhou no Fed por mais de três décadas.
“Ele realmente conhecia os dados em um nível extraordinário e conseguia discutir com precisão todos esses detalhes com a equipe do conselho e, ao mesmo tempo, tinha essa perspectiva incrivelmente ampla.”
-- Com a colaboração de Isabelle Lee, Jessica Menton, Denitsa Tsekova, Maya Prakash, Vildana Hajric e Amanda Gordon.
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