Caça a talentos: McKinsey e Bain acirram disputa com Wall St para atrair universitários

McKinsey iniciou a seleção da turma de estágio meses antes do habitual, levando consultorias rivais a seguir o mesmo caminho nos EUA; ‘Não acho que seja bom para as empresas nem para os estudantes. Mas é um mal necessário’, disse Ron Kermisch, diretor global de aquisição de talentos da Bain

Duke University
Por Matthew Boyle
28 de Fevereiro, 2026 | 06:00 AM

Bloomberg — A McKinsey antecipou o cronograma de recrutamento para a próxima turma de estagiários universitários de verão nos Estados Unidos, no mais recente capítulo da disputa por talentos entre as principais consultorias e Wall Street.

A McKinsey começará ainda nesta primavera do hemisfério norte a buscar candidatos para sua turma de analistas de negócios de verão de 2027, em vez de aguardar até junho, como fazia nos anos anteriores.

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A empresa afirmou que a mudança facilitará as candidaturas, já que os estudantes ainda estarão nos campi universitários.

O cronograma antecipado levou a rival Bain a adotar a mesma estratégia e obrigou orientadores de carreira universitários a correr para preparar alunos para entrevistas e atividades de networking que agora ocorrerão alguns meses antes do previsto, aumentando a ansiedade já existente em relação ao mercado de trabalho.

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A iniciativa tende a ajudar McKinsey e Bain a acompanhar os grandes bancos de investimento, que também anteciparam seus ciclos de recrutamento e frequentemente disputam os mesmos grupos de talentos de elite.

Nos Estados Unidos, o summer internship é uma etapa altamente valorizada nas duas indústrias, que costumam convidar participantes de programas de verão a retornar como funcionários efetivos após a graduação.

Blair Ciesil, sócio da McKinsey que ajuda a liderar os esforços de recrutamento da empresa, afirmou que a competição por talentos passou a ocorrer mais cedo, “em parte impulsionada por setores com ciclos muito antecipados, como o bancário”.

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Segundo ele, o objetivo é manter competitividade e ampliar as opções e a experiência dos candidatos.

A Bain, que assim como a McKinsey integra o grupo das principais consultorias estratégicas conhecido como “MBB” — ao lado da Boston Consulting Group — e afirmou que seguirá o movimento para não perder candidatos qualificados.

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“Não podemos permitir que a McKinsey complete todo um ciclo antes de nós”, disse Ron Kermisch, diretor global de aquisição de talentos da Bain.

“Eles estão reagindo a uma força à qual precisam responder: os bancos de investimento”, afirmou. “Fazem o que consideram necessário diante da sobreposição crescente com o Goldman. Nós vemos muita sobreposição com a McKinsey, então precisamos acompanhá-los.”

Aumento da pressão

Greg Victory, diretor executivo do centro de carreiras da Duke University, disse ter sido informado de que o prazo de candidatura da McKinsey para vagas de verão de 2027 passou a ser 29 de março.

Segundo ele, a mudança pode “excluir uma parcela significativa de candidatos que entram mais tarde no processo”, além de ampliar a ansiedade de estudantes preocupados com uma possível recessão no mercado de trabalho qualificado e com o impacto da inteligência artificial nas contratações iniciais.

“Isso aumentou o nível de estresse — não apenas entre os estudantes que participam diretamente do processo, mas também entre aqueles ao redor que nem pretendem seguir essas carreiras”, disse Victory.

“Eles pensam: ‘Meu Deus, estou muito atrasado. O que estou fazendo de errado?’”

Mais de seis em cada dez universitários no último ano demonstram pessimismo em relação às perspectivas profissionais — o maior nível já registrado pela plataforma de carreiras Handshake — e há razões para isso: o número de vagas publicadas na Handshake caiu 15% entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025, enquanto o número de candidaturas por vaga aumentou.

Em busca de qualquer vantagem competitiva, estudantes passaram a se candidatar a estágios já no primeiro ano da graduação.

Há alguns anos, a McKinsey passou a realizar eventos voltados à carreira nos campi universitários durante a primavera, uma iniciativa chamada internamente de “spring attraction”.

A empresa segue recebendo candidaturas de forma contínua para quem ainda não estiver pronto para se inscrever neste período.

“Normalmente realizávamos entrevistas ao longo do verão, mas vamos antecipá-las para a primavera, o que acreditamos ser melhor para os estudantes”, disse Ciesil.

“Do ponto de vista logístico, é difícil conduzir candidaturas e entrevistas durante o verão, quando muitos estão espalhados em diferentes locais. Tentamos tornar o processo mais simples.”

Embora a mudança possa favorecer candidatos já decididos a seguir carreira em consultoria, ela “penaliza aqueles que precisam de mais tempo” para explorar trajetórias profissionais ou desenvolver redes de contato, afirmou Namaan Mian, diretor de operações da Management Consulted, plataforma de preparação para entrevistas e busca de emprego voltada a aspirantes a consultores.

Alicia Pittman, sócia sênior da Boston Consulting Group responsável global por recrutamento, afirmou estar ciente da decisão da McKinsey, mas não comentou como a BCG pretende reagir.

Aaron Fine, responsável pelas Américas na consultoria Oliver Wyman, disse não saber qual será a resposta da empresa, embora o tema do calendário de recrutamento já tenha sido discutido pela liderança.

Os bancos de investimento, por sua vez, disputam talentos com fundos de private equity, que muitas vezes recrutam analistas recém-contratados assim que começam — ou até antes — nos bancos.

O CEO do JPMorgan Chase, Jamie Dimon, disse desaprovar a prática, e o JPMorgan informou no último verão do hemisfério norte que demitiria recém-formados que aceitassem propostas futuras de emprego em outras empresas antes de começar no banco ou durante os primeiros 18 meses de trabalho.

“Essa escalada para antecipar cada vez mais os processos ocorre há cerca de 15 anos”, disse Kermisch, da Bain. “Não acho que seja bom para as empresas nem para os estudantes. Mas é um mal necessário.”

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