Opinión - Bloomberg

Choque do petróleo: estabilidade para Opep+ significa turbulência para mercados

Os preços mais altos do petróleo, um dos mais visíveis criadores de expectativas de inflação, complicam o trabalho dos bancos centrais

Os preços médios da gasolina estão 16% abaixo do nível de um ano atrás, mas subiram 9% até agora em 2023
Tempo de leitura: 3 minutos

Bloomberg Opinion — A Opep+ defende seu corte surpresa na produção de petróleo como uma medida destinada à “estabilidade” do mercado de petróleo. Só se pode imaginar surpresa quando perceberam que, em vez disso, causaram um salto de 8% nos preços. Bem, pelo menos o dinheiro extra vai oferecer algum consolo.

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Este é o segundo abalo da Opep+ em seis meses. Em outubro do ano passado, a agitação ocorreu quando o petróleo já estava acima de US$ 90 por barril e gerou acusações de influência implícita nas eleições americanas de meio de mandato. No final, a demanda por petróleo estava diminuindo e o corte na oferta apenas amorteceu um declínio contínuo nos preços, em vez de provocar um rali contínuo.

O último abalo pode fazer o mesmo – mas as incertezas e os riscos são muito maiores.

Por um lado, parece algo saído do manual de short squeeze. A especulação em futuros de petróleo bruto entrou em colapso após a quebra do Silicon Valley Bank (SVB); de fato, já argumentei que o governo Biden deveria ter usado o pânico para remediar seus planos de reabastecer a Reserva Estratégica de Petróleo do Estados Unidos. De certa forma, a Opep+ fez isso e em um grau muito maior, forçando os money managers a cobrir suas posições vendidas.

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No entanto, a grande diferença entre os abalos de hoje e de outubro de 2022 é que houve uma crise bancária – que parece ter se acalmado um pouco, mas que continua sendo uma preocupação.

Os bancos centrais, que estão em um caminho firme para o aumento das taxas de juros para derrotar o surto inflacionário pós-pandemia, certamente têm motivo para possivelmente tomar fôlego por medo de desencadear mais crises.

A força renovada dos preços do petróleo, um dos mais visíveis criadores de expectativas de inflação nos EUA por meio dos preços nas bombas, complica esse equilíbrio. Os preços médios da gasolina estão 16% abaixo do nível de um ano atrás. Mas eles subiram 9% até agora em 2023 e, com todo o resto igual, a Opep+ no mínimo enfraqueceu uma força desinflacionária útil.

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É possível que, mais uma vez, a Opep+ veja uma fragilidade da demanda que tem escapado a outros no mercado petrolífero. No entanto, se for o caso, pressionar ainda mais os preços pode até aumentar a receita no curto prazo, mas ela enfraquecerá à medida que os consumidores se adaptarem no futuro.

Cada corte também intensifica a capacidade ociosa no mercado petrolífero. A capacidade ociosa efetiva da Opep já havia aumentado de 2,4 milhões de barris por dia em setembro de 2022 para 3,3 milhões em fevereiro de 2023, de acordo com números da Agência Internacional de Energia.

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Se os mercados petrolíferos se revelarem mais fracos do que as expectativas atuais de alta para o segundo semestre de 2023, então esse amortecimento tenderá a reforçar as tendências de baixa. E se, em vez disso, os preços dispararem, então voltamos ao dilema em torno da inflação, da fragilidade financeira e dos bancos centrais que enfrentam a recessão.

Resumindo, a Opep+ está brincando com fogo. Considerando o timing da surpresa do ano passado e o fato de que o petróleo havia retornado a US$ 80 por barril antes do corte mais recente, é claro que a Opep+ exige um preço acima desse nível.

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Além disso, os preços mais altos oferecem um alento à Rússia, parceiro da Opep+ da Arábia Saudita envolvido em uma guerra física com a Ucrânia e em uma guerra de energia com o Ocidente. Esse conflito contínuo exacerba as pressões sobre um panorama econômico delicadamente equilibrado. Para a Opep+, os cortes de abastecimento agora podem contribuir para uma estabilidade – não necessariamente reconhecível por outros.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Liam Denning é colunista da Bloomberg Opinion e cobre energia e commodities. Anteriormente, foi banqueiro de investimentos, editor da coluna “Heard on the Street”, do Wall Street Journal, e repórter da coluna “Lex”, do Financial Times.

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