Por que o dólar caiu abaixo dos R$ 5? Veja o que dizem os analistas

Moeda brasileira tem o melhor desempenho entre os emergentes nesta quinta-feira em relação à divisa americana

Linguagem do Copom sugere que o primeiro corte nos juros pode vir mais tarde que o esperado
Por Maria Eloisa Capurro

Bloomberg — O real se fortaleceu para o nível mais alto desde junho, depois que o Banco Central manteve a taxa de juros inalterada e expressou preocupação com o aumento das expectativas de inflação, alimentadas por tensões com o novo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O Comitê de Política Monetária manteve a Selic em 13,75% pela quarta reunião consecutiva na noite de quarta-feira (1°), como esperado. Mas a declaração foi amplamente vista como dura, com os membros do conselho escrevendo que avaliarão se manter as taxas estáveis “por um período mais longo” do que o esperado anteriormente reduzirá a inflação para a meta.

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“O cenário atual, particularmente incerto do lado fiscal e com expectativas de inflação se afastando da meta de inflação em horizontes mais longos, requer mais atenção na avaliação de riscos”, escreveram. “O Comitê avalia que esse cenário eleva o custo da desinflação necessária para atingir as metas” estabelecidas para os próximos anos.

Pressão dos preços está reduzindo com os juros na máxima de seis anos

O real tem o melhor desempenho entre as moedas dos mercados emergentes nesta quinta-feira (2) em relação ao dólar. A cotação foi abaixo dos R$ 5,00 pela primeira vez desde junho. Os juros com vencimento em janeiro de 2024, que indicam as expectativas do mercado para a política monetária ao final deste ano, subiram dez pontos base.

“Os investidores estão dando muita credibilidade ao banco central”, disse Sergio Zanini, sócio da Galapagos Capital. “Sua declaração foi importante para defender seu mandato e sua independência.”

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Os formuladores de políticas liderados por Roberto Campos Neto estão lutando contra as expectativas de aumento do custo de vida que tornam mais difícil justificar os cortes nas taxas, mesmo com a inflação anual diminuindo consistentemente nos últimos meses - para 5,87% em relação ao pico do ano passado de mais de 12%.

O declínio foi impulsionado por cortes de impostos e custos de empréstimos restritivos, mas os preços dos combustíveis estão subindo enquanto as medidas básicas que eliminam os itens mais voláteis estão acelerando.

O que a Bloomberg Economics diz

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“As autoridades se referiram à estratégia de manter os juros por mais tempo do que o assumido em suas previsões, ou seja, projeções de consenso. Achamos que é uma tentativa de soar hawkish sem sugerir um aumento de taxa. Atualmente, a previsão de consenso é que o primeiro corte de juros ocorra em setembro. A linguagem do comunicado sugere que pode vir mais tarde.”

— Adriana Dupita, economista para Brasil e Argentina

A decisão ocorre em meio a tensões políticas depois que Lula questionou a independência do banco central e suas metas de inflação, sugerindo que deveria buscar uma meta de 4,5%. Atualmente, o banco tem como meta de inflação 3,25% para 2023 e de 3% para os próximos dois anos.

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O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, acrescentou à especulação que as políticas podem mudar, dizendo que o Brasil precisa de metas ambiciosas, mas viáveis.

Os investidores também estão preocupados com as perspectivas fiscais, já que Haddad deve propor novas regras de gastos até abril, substituindo a lei atual que limita os aumentos dos gastos públicos à taxa de inflação do ano anterior. O novo governo também está investindo R$ 168 bilhões (US$ 33 bilhões) em gastos adicionais, incluindo assistência social, enquanto pondera um salário mínimo mais alto.

“A declaração é hawkish”, disse Felipe Sichel, economista e sócio da Modal Asset Management. “Isso deixa a porta aberta para manter as taxas estáveis por um período mais longo e alerta claramente sobre a piora das expectativas de inflação.”

Sichel acrescentou que não vê cortes na Selic este ano.

Extremamente duro

No comunicado, os membros do Copom escreveram que as expectativas de aumento dos preços ao consumidor “têm mostrado deterioração em horizontes mais longos”. Enquanto isso, a economia global continua sob pressão inflacionária, apesar dos sinais positivos na margem, escreveram eles.

Mais cedo na quarta-feira (1°), o Federal Reserve desacelerou o ritmo de alta dos juros, mas disse que mais aumentos estão por vir. Regionalmente, os formuladores de políticas do México à Colômbia continuam subindo, enquanto a presidente do banco central do Chile, Rosanna Costa, recuou contra as apostas dos investidores no início de um ciclo de flexibilização.

Em uma perspectiva considerando cortes de juros a partir de setembro, conforme mostrado em sua pesquisa semanal com economistas, o Banco Central do Brasil vê aumentos de preços ao consumidor acima do teto de sua faixa de tolerância em 2023 e acima da meta no próximo ano. Em um cenário alternativo com Selic constante, as projeções de inflação são menores, em 5,5% para este ano e 2,8% para o próximo.

Na perspectiva de custos de empréstimos estáveis, “a inflação está mais próxima da meta de 3% em 2024″, disse Leonardo Costa, economista da Asa Investimentos. “Isso indica que o plano do banco central é manter as taxas estáveis por um período mais longo.”

Cerca de um terço das decisões de juros globais foi para manter taxas

Enquanto isso, os analistas veem a inflação ao consumidor subindo acima da meta de médio prazo do banco no futuro previsível. As autoridades definirão a meta de 2026 este ano.

“A declaração foi extremamente dura”, disse Carla Argenta, economista-chefe da CM Capital. “O Banco Central entende que, nas condições atuais, não temos convergência inflacionária e que a instituição deve fazer alguma mudança em sua política monetária ou manter as taxas estáveis por mais tempo.”

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