CEO da NotCo, startup apoiada por Bezos, conta por que levantou US$ 70 milhões

Em entrevista à Bloomberg Línea, Matías Muchnick afirma que a empresa de alimentos à base de plantas está com dinheiro em caixa, mas decidiu aceitar o novo a aporte mesmo assim

'Por que não garantirmos o dinheiro hoje e ficarmos fora do mercado pelos próximos cinco anos?'
12 de Dezembro, 2022 | 02:14 PM

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Bloomberg Línea — A NotCo, startup chilena que tem entre os seus investidores o fundador da Amazon, Jeff Bezos, recebeu uma nova rodada de investimentos de US$ 70 milhões em uma extensão da Série D liderada pela Princeville Capital. A empresa diz que os recursos serão direcionados para uma nova unidade de negócios focada em parcerias com empresas. Um exemplo de parceria é a joint-venture formada com a Kraft Heinz (KHC), anunciada em fevereiro.

O fundador do Mercado Livre, Marcos Galperin, também participou da extensão da rodada, que manteve o valuation (valor de mercado) estável em US$ 1,5 bilhão.

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Em entrevista à Bloomberg Línea, o cofundador e CEO da NotCo, Matías Muchnick, disse que a startup não estava em busca de financiamento no momento, mas decidiu aceitar a proposta de investimento da Princeville Capital, que desejava adicionar uma empresa com produtos à base de plantas ao seu portfólio.

Em julho de 2021, a NotCo levantou US$ 235 milhões, e Muchnik disse que boa parte desse valor ainda está no caixa da empresa. A startup tinha “mais de 18 meses de vida” na época, então não fazia sentido buscar uma nova captação de recursos, segundo ele.

“Mas começamos a anunciar coisas. Anunciamos o acordo da Kraft Heinz, anunciamos a parceria com a rede Shake Shack (SHAK) e anunciamos a parceria com o Starbucks (SBUX). Isso permitiu que a NotCo crescesse muito em termos de valor econômico real. Muitos investidores queriam investir na NotCo nas Séries B, C e D, e não conseguiram chegar a tempo ou o tamanho do cheque era muito grande”, disse o executivo.

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Muchnick diz que aceitou o aporte do novo investidor porque o conselho acredita que 2023 e 2024 serão anos de muita incerteza e as empresas precisarão captar recursos no próximo ano. Para algumas startups, o dinheiro em caixa pode não ser suficiente para manter a operação durante todo esse período, já que muitas receberam rodadas em 2021 e não captaram neste ano para evitar uma queda dos seus valuations.

“Em vez de voltar a angariar fundos ativamente no próximo ano sem saber se podemos aumentar a avaliação, nós pensamos: por que não garantirmos o dinheiro hoje e ficarmos fora do mercado pelos próximos cinco anos?”, disse o executivo

A NotCo diz que se esforçará para trazer uma empresa lucrativa para IPO em 2026.

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Nova avenida de negócios B2B

Após o anúncio da Kraft Heinz, a empresa disse que recebeu pedidos de muitas empresas para começar a fazer as “NotVersions” de seus próprios produtos.

Agora, a NotCo quer capitalizar com acordos de licenciamento. “Teremos uma porcentagem do faturamento líquido de uma marca que pode colocar um produto globalmente de um dia para o outro”, disse Muchnick.

Não é um esforço “white-label”, porque está estabelecido que a marca NotCo tem que estar na frente da embalagem de todos os produtos, mas é uma estratégia de co-brand.

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“O acordo com a Kraft Heinz foi feito em duas dimensões. Um é P&D (pesquisa e desenvolvimento) e o outro é branding. Estávamos conversando como uma marca com pessoas com as quais a Kraft Heinz não poderia falar, como da Geração Z e millennials. Eles queriam manter a marca porque o conceito da NotCo fazia sentido para as pessoas com quem eles precisavam começar a falar. Eles também querem ter acesso à marca. Então não é como se estivéssemos empurrando a marca em si, mas ela está sendo puxada por essas grandes empresas que gostam do conceito”, afirmou.

Muchnick diz que o acordo com a Kraft Heinz tem exclusividade apenas “em certos produtos em certas regiões do mundo”, então a empresa pode fazer negócios com outras companhias.

“O que queremos fazer daqui para frente não é apenas potencialmente criar joint-ventures, mas também fazer acordos de licenciamento, porque joint-ventures são realmente complexas. Você tem uma parcela de governança, pessoas vindo de um lado e do outro lado, então você precisa alinhar uma nova cultura com uma empresa totalmente nova”, diz.

A startup chilena espera que essa estratégia B2B traga receitas com uma margem bruta alta.

Classificando as prioridades

Muchnick diz que a NotCo lançará cinco novas categorias com a joint venture da Kraft Heinz em 2023 e pretende converter a América Latina em uma operação lucrativa.

“Precisamos tornar as estruturas mais eficientes, precisamos selecionar produtos que realmente movam os palitos com gestão. Isso significa que precisamos crescer significativamente no Brasil e no México, além de aumentar significativamente os negócios nos Estados Unidos”, disse.

No Brasil, a NotCo ainda está concentrada no Rio de Janeiro e em São Paulo, e não anunciou uma grande parceria com multinacionais como foi feito em outros países da América Latina, mas apenas parcerias de hambúrgueres.

No Chile, a empresa fez parcerias com o Starbucks, Burger King e Papa John’s. Na Argentina, a startup tem negócios com o Burger King e a Freddo.

Sem fornecer números, Muchnick disse que a NotCo está aumentando as receitas duas a três vezes por ano e se concentrará em ampliar as parcerias no Brasil para alcançar uma melhor distribuição.

A empresa afirma ainda que não está planejando nenhuma demissão, mas manterá a política de congelamento de novas contratações, mesmo que com a nova injeção de capital. “É importante se comportar de acordo com a realidade. Não é porque levantamos dinheiro que vamos começar a gastá-lo loucamente”, disse.

Período difícil para plant-based

De acordo com dados da Dealogic, o IPO da Beyond Meat (BYND), concorrente americana da NotCo, foi um dos mais bem-sucedidos em mais de duas décadas. Mas depois de atingir um valor de mercado de US$ 10 bilhões em 2019, as dívidas subiram e os papeis da empresa se desvalorizaram, acumulando uma queda de 77% em 2022.

Questionado sobre como surfar em um momento ruim para as principais empresas de produtos à base de plantas, Muchnick citou o piloto brasileiro Ayrton Senna dizendo “é muito difícil superar outros carros em um dia ensolarado. Só posso fazer isso em dia de chuva”.

E, segundo o CEO, são dias chuvosos. “Precisamos ficar longe das sombras do que são nossos concorrentes comparáveis. E eles não são realmente comparáveis quando você vê que o P&L da NotCo parece muito diferente do P&L da Beyond. Nós crescemos e eles não. Nós inovamos, mas eles carecem de inovação. São muitas decisões que eles tomaram porque se tornaram uma empresa pública que não eram muito boas para o consumidor”, disse.

“Acho que estamos aprendendo o que não fazer, focando em P&D e desenvolvendo tecnologia. E abrir essa unidade de negócios que está gerando receita com margem bruta de 85% é definitivamente o que precisamos continuar fazendo, o que nos levará a um potencial IPO em 2026 em uma situação muito melhor do que todas essas empresas”, afirmou.

Muchnick não revela as despesas vinculadas à pesquisa e desenvolvimento, mas disse que das 415 pessoas da NotCo, quase 200 trabalham em tecnologia e P&D.

As vendas de produtos plant-based caíram nos Estados Unidos e há incerteza do consumidor sobre os reais benefícios desses produtos, dada a quantidade de sódio e o fato de serem produtos ultraprocessados.

Questionado sobre isso, Muchnick disse que a recessão é um dos fatores do crescimento descontinuado do setor, já que o preço dos produtos à base de plantas é sempre consistentemente mais alto.

“Num ambiente recessivo, claramente os produtos que vão ser prejudicados são os produtos premium. As pessoas estão fazendo orçamentos para produtos mais baratos.”

Se o maior fator que afeta os produtos à base de plantas é o preço, negócios como o da Kraft Heinz dão à NotCo a capacidade de chegar ao supermercado com preços competitivos em relação aos de origem animal, segundo Muchnick.

“Existem pessoas que se preocupam com a saudabilidade dos produtos à base de plantas, mas isso não é tão popular como a mídia gosta de dizer. Geralmente, quando você compra carne, ela não vem com sal. Quando você coloca no churrasco, você adiciona muito sal. Então é meio que uma comparação que não faz o menor sentido”, disse.

“2021 era um mundo mais fácil para as pessoas focarem na sustentabilidade, agora é mais difícil porque afeta o seu orçamento”, disse Muchnik, acrescentando que a sustentabilidade não deixou de ser algo relevante e que o aquecimento global não parou.

“A ciência mostra que comer vegetais é bem melhor para a saúde humana do que proteína animal. Existem muitos estudos que conectam o processo de envelhecimento ao consumo de carne também. Acho que foi Peter McGuinness, o CEO da Impossible Foods, que disse que falhamos no marketing. Concordo plenamente com essa afirmação, precisamos deixar mais evidente o que é verdade e o que não é”, disse.

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