Bloomberg — Um jeito de pensar no movimento de equilíbrio entre vida profissional e pessoal é chamar de “gastar menos para trabalhar menos”.
O comportamento das gerações em relação ao trabalho, alimentado pela pandemia de covid-19, deram origem ao Grand Resignation, o movimento anti-trabalho e agora o “fazer o mínimo”. Mas a busca por um melhor equilíbrio entre vida profissional e pessoal também está lançando uma nova luz sobre uma estratégia antiga: aceitar salários mais baixos por um trabalho menos exigente.
Para tomar essa decisão, o trabalhador deve avaliar cuidadosamente seu orçamento e abrir mão de alguns luxos, mas quem opta por isso diz que vale a pena.
Por exemplo, Marie Crespin. Viver uma vida mais modesta foi um sacrifício que ela fez para deixar seu emprego estressante na área de recursos humanos e ir para o web design. Com 31 anos de idade e morando em Nantes, na França, ela agora ganha cerca de 1.600 euros por mês, em comparação com os 2.300 euros que ganhava em seu emprego em recursos humanos.
Isso significou menos jantares fora e o uso de roupas de segunda mão. Ela também conseguiu reduzir sua jornada de trabalho pela metade – de 40 horas para 20-25.
“O trabalho não deveria ser a coisa mais importante na vida”, disse Crespin. “Ter a liberdade de fazer o que você quer com seu tempo é o verdadeiro luxo de hoje”.
O panorama dos trabalhadores está mudando à medida que aumentam as demissões e os receios de recessão, mas o mercado de trabalho continua apertado, principalmente nos Estados Unidos. O percentual de americanos que pedem demissão de seus empregos caiu em julho, mas continua em um nível muito superior aos anteriores à pandemia, e as ofertas de emprego estão em altas recordes.
Por enquanto, as mudanças dos ventos econômicos não foram suficientes para desencorajar os trabalhadores de procurar empregos menos onerosos. Uma pesquisa realizada em julho pelo site de empregos online FlexJobs constatou que quase dois terços dos entrevistados aceitariam um corte salarial para melhorar o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.

“A pandemia fez muitas pessoas perceberem que o trabalho não precisava ser o foco de suas vidas”, disse Céline Marty, autora do livro Work Less, Make More e pesquisadora da universidade francesa Sciences Po. “Alguns descobriram que podiam gastar menos, comprar menos e não precisavam trabalhar tanto para curtir um estilo de vida confortável”.
Cortes salariais
Sem dúvida, a inflação e a incerteza econômica deixaram muitas pessoas sem escolha a não ser trabalhar mais horas e trabalhar em mais de um emprego. Outros, que têm a sorte de ter uma renda maior e mais estável, decidiram reduzir suas despesas a fim de reduzir sua carga de trabalho.
Jerome Lemay, morador de Québec, no Canadá, diz que ser austero lhe permite passar mais tempo com sua família, curtir a natureza e assumir o controle de sua riqueza pessoal.

O técnico em telecomunicações de 36 anos de idade, sua esposa e seus três filhos sobrevivem com cerca de 100 mil dólares canadenses (US$ 77 mil) por ano depois que ambos os adultos passaram a trabalhar quatro dias por semana no ano passado e aceitaram cortes salariais de 20%.
Eles compram artigos de segunda mão, consertam seus eletrodomésticos sozinhos, compram roupas infantis de seus vizinhos e frequentam festivais gratuitos de música e atividades ao ar livre para se divertirem. Lemay consertou sua máquina de lavar três vezes, o aspirador duas vezes e o fogão uma vez.
“Trata-se de encontrar o equilíbrio certo na vida, parar a correria louca e realmente aproveitar o tempo de qualidade com a família”, disse.
A tendência de viver frugalmente para reduzir a jornada de trabalho é muito comum entre as gerações mais jovens, que têm dificuldades para acumular riqueza em meio aos altos preços da habitação e à inflação que está superando os ganhos salariais.
Cerca de 61% dos jovens entre 15 e 25 anos dizem valorizar o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, em comparação com 42% que dizem valorizar o salário, de acordo com pesquisas recentes da organização educacional sem fins lucrativos Murmuration e da Walton Family Foundation.

Redução da pegada de carbono
Muitos jovens em todo o mundo se interessaram por cortar despesas e reduzir sua jornada de trabalho para reduzir sua pegada de carbono em meio à crescente consciência ambiental, diz Geneviève Provencher, fundadora da empresa de recursos humanos Flow, com sede no Canadá.
Nikita Crocker, de 32 anos, simplificou seu estilo de vida ao máximo no ano passado para não ter que trabalhar. Crocker, que é uma ex-babá que estudou inicialmente para ser engenheira em Londres, decidiu eliminar sua dependência do trabalho corporativo para que ela pudesse dedicar seu tempo ao voluntariado relacionado ao clima.
Enquanto mora na casa do avô de seu marido e sobrevive do salário de professor primário de seu marido, de 50 mil libras (US$ 58 mil) por ano, o casal gasta 1.200 libras de aluguel e apenas 500 libras por mês em comida e algumas outras despesas para si e seus dois filhos pequenos.
“Depois dos estudos, fiquei desiludida com o sistema capitalista”, disse Crocker. “Eu percebi que qualquer trabalho corporativo faria mais mal do que bem”.
--Com a colaboração de Ainsley Thomson.
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