Opinión - Bloomberg

Qual é o equilíbrio ideal entre gastar por prazer e poupar para o futuro

O Bank of America reportou um aumento de 6% nos gastos em junho, especialmente em itens discricionários como viagens e eletrônicos, com um crescimento notável nas faixas de renda mais altas

Holiday Shoppers Boost Spending As Consumer Resilience Persists
Tempo de leitura: 4 minutos

Bloomberg Opinion — Os americanos gostam de gastar dinheiro e são bons nisso. Mas também se sentem um pouco mal com isso.

De acordo com uma pesquisa do Ally Bank, três quartos dos americanos se sentem culpados quando gastam dinheiro em algo que lhes traz alegria, em vez de destiná-lo a uma meta financeira de longo prazo. Posso confirmar esse sentimento, especialmente depois de ver o extrato do meu cartão de crédito após minhas últimas férias.

Ao mesmo tempo, a pesquisa também observa que quase 70% afirmam gastar “a quantia certa em alegria”. Claramente, a culpa faz parte da alegria, o que diz algo sobre a natureza religiosa da sociedade americana que vai além do âmbito da economia.

Ainda assim, como economista especializada em poupança para a aposentadoria, procuro nunca perder de vista qual é o propósito de economizar — e não se trata necessariamente de gratificação adiada. O objetivo é distribuir a alegria de maneira uniforme ao longo da vida.

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Como os rendimentos aumentam com o tempo, em teoria você deveria gastar sem limites e se endividar quando jovem, poupar bastante na meia-idade, quando os rendimentos atingem o pico, e então usar suas economias quando se aposentar.

Ao longo de todo esse tempo, você deve gastar aproximadamente a mesma quantia com o que lhe traz alegria. Claro, talvez você abra mão de algumas noites de diversão em antecipação a alegrias futuras — uma viagem ao Taiti, por exemplo, ou uma reforma na cozinha.

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Mas o problema aqui é o risco. E se você parar de trabalhar por alguns anos na meia-idade? Ou se o mercado de ações entrar em colapso pouco antes de você se aposentar?

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É aí que entra a economia. Ela diz que você deve distribuir a alegria ao longo do tempo e parte do princípio de que passar por uma grande queda no seu padrão de vida é pior do que nunca ter tido nenhuma alegria.

Por isso, economistas como eu tendem a aconselhar as pessoas a terem poupanças de precaução — o suficiente para amenizar as incertezas da vida — ou a gastar menos quando são jovens e mais à medida que envelhecem, para que nunca precisem passar por uma queda no padrão de vida.

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Se seus gastos são realmente excessivos e merecem culpa depende de sua situação financeira e de suas preferências entre a alegria de hoje e a alegria de amanhã.

O Ally Bank, com base em sua pesquisa e no que chama de “Índice de Alegria”, argumenta que os americanos têm condições de gastar mais com coisas que trazem alegria. Mas os dados sugerem que eles já estão fazendo isso.

Gráfico
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O Bank of America Institute acompanha os gastos com os cartões de crédito do banco. Ele estima um aumento de 6% nos gastos em junho. Parte disso foi destinada a itens necessários, como combustível, mas mais de 4% foi impulsionado por compras mais discricionárias, como viagens de lazer, roupas e eletrônicos.

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Alguns dos maiores aumentos vieram dos gastos com viagens de lazer e restaurantes. O instituto também estima que os gastos discricionários tenham aumentado no último ano em todas as faixas de renda — mas especialmente entre os 5% com maior renda.

A boa notícia é que o número de pessoas que quitam o saldo do cartão de crédito todo mês aumentou em todas as faixas de renda, embora também tenha havido um ligeiro aumento no número daqueles que pagam apenas o saldo mínimo, especialmente entre os grupos de renda mais baixa.

O Federal Reserve de Nova York também constata um aumento na inadimplência e no endividamento com cartão de crédito. O resultado final é que há pessoas em todos os níveis de renda correndo o risco de enfrentar dificuldades financeiras.

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Não sou de julgar, mas, para mim, a questão levantada pelo chamado Índice de Alegria é esta: os americanos estão gastando demais com a alegria de hoje às custas da alegria de amanhã?

Na minha opinião especializada, o grau de culpa que você deve sentir em relação a qualquer compra está relacionado à sua capacidade financeira de gerenciar riscos caso as circunstâncias mudem.

Até certo ponto, os americanos estão mais protegidos do que antes; grande parte da riqueza pode estar no mercado de ações ou no setor imobiliário, mas o patrimônio líquido aumentou nos últimos cinco anos, especialmente para a classe média. Isso pode estar levando a gastos mais alegres, mas com um toque de culpa.

Finanças pessoais não se resumem apenas a gastar versus poupar. Trata-se de gestão de riscos. E é aí que há motivos para preocupação: grande parte do aumento da riqueza provém do aumento das economias para a aposentadoria, o que é uma boa meta de longo prazo, e grande parte dessas economias está investida no mercado de ações.

Algumas evidências sugerem que esse investimento ocorre às custas de ativos mais líquidos. Tudo isso significa que, se o mercado de ações cair e as pessoas precisarem de dinheiro, elas poderão passar por aquela temida queda no padrão de vida — e sentir muito mais culpa e muito menos alegria.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Allison Schrager é colunista da Bloomberg Opinion. É pesquisadora sênior do Manhattan Institute e autora de “An Economist Walks Into a Brothel: And Other Unexpected Places to Understand Risk”.

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