Bloomberg Línea — A Totvs tem ampliado sua aposta em serviços financeiros e caminha para transformar a Techfin, sua joint-venture com o Itaú Unibanco, cada vez mais em um banco digital para pequenas e médias empresas, integrado com suas soluções de tecnologia.
O braço financeiro da companhia de software de gestão (ERP), formado em 2023, se tornou sua terceira maior unidade de negócio, com uma oferta que vai de crédito para capital de giro e antecipação de recebíveis a serviços de pagamentos.
O plano agora é lançar novos produtos e serviços, incluindo uma conta digital, com a visão de que isso pode ajudar a atrair mais clientes - principalmente pequenas e médias empresas - que já fazem parte da base da Totvs (TOTS3).
“Este ano tem sido um marco transformacional porque nós, de fato, integramos três produtos importantes de crédito dentro do Proteus [sistema de ERP da Totvs]. Isso é muito disruptivo, não existe precedente hoje disso que estamos fazendo”, disse Mauro Wulkan, CEO da TechFin ERP Finance, em entrevista à Bloomberg Línea. “É o início deste banco dentro do ERP”.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
A proposta é de que, após a integração de produtos como capital de giro, antecipação de recebíveis e maior prazo, novos produtos sejam lançados para ampliar as ofertas aos clientes da Totvs, com uma jornada que nasce conciliada. Além disso, outros softwares da companhia também passarão por processos semelhantes.
Leia também: Mercado Pago reforça aposta em PMEs com maior apetite ao crédito e plataforma unificada
“Começamos agora a contar um pouco mais profundamente para os nossos clientes. Obviamente, estamos testando algumas coisas ainda e começa, de fato, a escalar essa operação de crédito dentro do ERP”, disse Wulkan.
A Techfin reúne dois núcleos de negócios. Os produtos mais tradicionais são oriundos da Supplier, fintech de crédito B2B adquirida pela Totvs em 2019, quando a companhia decidiu investir na tese financeira sob comando do CEO Dennis Herszkowicz. E o segundo é o núcleo de embedded finance, em construção já dentro da Totvs para usar a base de clientes e oferecer outros serviços.
A joint-venture da Totvs com o Itaú fechou o último trimestre de 2025 com carteira líquida de crédito em R$ 2,49 bilhões e produção de crédito de R$ 3,4 bilhões. Ao longo de todo o ano, a originação atingiu R$ 13,2 bilhões e a receita líquida de crédito chegou a R$ 350,2 milhões, alta de 13,9% na comparação com 2024.
Empresas com receita entre R$ 100 milhões e R$ 1 bi no foco
A expansão do negócio deve se dar por análise de propensão ao uso, mais do que focar em determinadas indústrias, segundo os executivos.
A partir dos dados de gestão, a Totvs vai procurar identificar os clientes que estão nos momentos mais propícios para as ofertas. Empresas com receita entre R$ 100 milhões e R$ 1 bilhão são o perfil preferencial, embora a companhia diga que toda a sua base de clientes pode se beneficiar dos novos serviços.
Leia também: CEO da Totvs mira expansão na própria base e espera segundo semestre de 2025 ‘saudável’
O argumento principal para atrair a clientela para o “banco da Totvs” é a integração que, no fim do dia, pode elevar a produtividade e eficiência.

“O nosso produto de pagamentos é igual ao dos outros. O Pix, por exemplo, não tem diferença, o processo é o mesmo, mas pelo fato dele ser integrado e conciliado, gera essa economia em processos e em pessoas, benefício que se transforma em resultado para a companhia”, disse o CEO.
Na esteira de produtos, a Techfin tem um cronograma de lançamentos. Ainda neste semestre, a conta digital deve ser apresentada, seguida por um produto de rendimento de saldo até o final do ano e uma linha de hot money, empréstimos de curto prazo para cobrir necessidades imediatas de caixa.
“A conta digital é um tipo de produto muito importante para gerar algum grau de principalidade com o cliente”, afirmou Herszkowicz.
“Esse vínculo com a conta digital, seja com pagamento de tributo, aplicação financeira, seja com uma taxa de juros competitiva, quando falta dinheiro nessa conta digital, faz com que o empresário nos veja como um meio para essa principalidade e nos dê uma fatia relevante no relacionamento bancário dele”, disse Herszkowicz.
Leia também: Totvs compra Linx por R$ 3,05 bi com ‘desconto’ de 50% e ganha força no varejo
De acordo com o CEO, ter um portfólio completo de um banco que serve pequenas e médias empresas leva tempo. A oferta de cartões, por exemplo, não está no horizonte de curto prazo.
A estratégia da companhia é de composição, com a ambição de reunir em torno de 80% dos produtos mais demandados às instituições bancárias. Por isso, serviços de crédito e pagamentos, que carregam uma certa recorrência, puxam a movimentação.
Segundo números da companhia, o mercado endereçável é 30 vezes maior do que o de software de gestão, o que demonstra o potencial do negócio. Herszkowicz afirma, no entanto, que não tem nenhum planejamento para que a Techfin se torne a segunda maior ou a vertical mais importante da Totvs.
“Eu não teria nenhum problema que a TechFin fosse maior do que gestão, mas ela precisa trabalhar para chegar lá e a área de continua trabalhando para avançar”, diz. “Nós deixamos o mercado decidir se ela será segunda ou a terceira.”
Os esforços atuais também serão direcionados para Linx. A empresa voltada para soluções de varejo foi adquirida pela Totvs da Stone no ano passado em transação de R$ 3,05 bilhões, que, para além das cifras, marcou o desfecho de um “namoro” de longo prazo. O negócio foi concluído no início de março, depois das aprovações de órgãos reguladores.
De acordo com Wulkan, que é co-fundador da Supplier, hoje há apenas “um festival de ideias” de como as ofertas poderiam ser inseridas no negócio.
“Nós temos dúvida zero que temos oportunidades. O varejo é um dos setores que mais precisa de serviço bancário, seja pelo tamanho, seja pelo dinamismo. Um dos motivos de comprar a Linx, não é o principal, mas certamente é um motivo, é exatamente o cross-sell que a gente pode fazer com a Techfin”, disse Herszkowicz.
Leia também
‘O SaaS não morreu’, diz Sidney Chameh, fundador da DGF e pioneiro do VC no Brasil
Por que a SAP, empresa de software mais valiosa da Europa, vê futuro ameaçado pela IA
B3 entra no mercado de previsão e avalia permitir apostas em eleições, segundo fontes
De garagem a império de US$ 4 trilhões em tecnologia: a trajetória da Apple em 50 anos









