Bloomberg Línea — O médico cardiologista Leandro Rubio aprendeu cedo a lidar com negócios. Aos 33 anos, liderava cerca de 550 colegas como chefe da cardiologia de um hospital privado em São Paulo.
“Sempre consegui gerenciar conflitos e equipes e, nessa posição, tive que aprender a ‘jogar o jogo’”, diz o empreendedor, que hoje tem 40 anos.
Com a pandemia em 2020, tudo mudou. O cardiologista criou um projeto batizado de “Missão Covid”, reunindo 1.500 médicos voluntários para criar uma plataforma de atendimento online. Com a flexibilização das regras sanitárias, Rubio e seu sócio lançaram a Starbem, inicialmente para atender os consumidores (B2C) em um modelo de assinatura.
“O foco inicial era atendimento popular, mas não decolou. Era um negócio de margens baixas e que pagava mal os médicos”, ele reconhece.
Rubio e seu sócio então decidiram redirecionar o negócio para o segmento B2B (voltado para empresas), principalmente pequenas e médias. “Vimos uma oportunidade em PMEs que não conseguem pagar o benefício para seus funcionários”, diz.
A Starbem aposta principalmente na área de saúde mental. Hoje, cerca de 70% dos atendimentos da plataforma são de psicólogos, 10% de nutricionistas e, o restante, de outras especialidades médicas -- 17 no total.
Rubio explica que os beneficiários têm direito a uma quantidade pré-determinada de atendimentos por mês, dependendo do plano contratado. O mais vendido pela Starbem contempla uma consulta com nutricionista; duas com médicos; e quatro de 30 minutos com psicólogos. Se o beneficiário quiser dobrar o tempo da terapia, ele pode abater duas sessões como se fossem créditos.
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Atualmente, a empresa tem três diretores, um para cada área, e a gestão de dados é crucial para gerenciar a oferta e a demanda, conta Rubio. Adicionalmente, ele afirma que há um plano de carreira definido para os profissionais. “Chegamos a essa fórmula errando muito.”
Para 2026, a Starbem projeta faturamento de R$ 56 milhões, 450.000 consultas e um milhão de vidas sob gestão. Em 2030, a meta é atingir 10 milhões de vidas, 5 milhões de consultas e uma receita de R$ 350 milhões. “Provavelmente vamos ter menos clientes e mais vidas sob gestão”, diz.
O desafio, segundo o empresário, é justamente atender as empresas de maior porte. “São clientes que exigem produtos mais customizados.”
Atualmente, a carteira da Starbem possui cerca de 7.000 empresas, sendo aproximadamente 400 contratações diretas. O restante é através de canais como o iFood Benefícios e a Total Pass.
Mudanças no mercado
O mercado em que a Starbem atua passa por duas mudanças relevantes. Uma é local, com as novas diretrizes do Ministério do Trabalho que exigem gerenciamento de riscos ligados à saúde mental (NR-1). Na visão de Rubio, isso deve impulsionar a demanda por terapias com psicólogos.
“O número de afastamentos ligados à saúde mental cresce substancialmente, o que gera um impacto bilionário para os cofres públicos”, diz. Em sua visão, a nova norma regulamentadora deve exigir que as empresas invistam mais nesse segmento.
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A outra mudança é estrutural. A Starbem está aprimorando a jornada dos beneficiários por meio da inteligência artificial. Rubio relata que, na divisão de nutrição, os profissionais não entregavam rapidamente os menus alimentares para os pacientes devido à demanda. “Trouxemos a IA para otimizar o tempo dos profissionais. O paciente já sai com o cardápio pronto da consulta.”
Na divisão de psicologia, a plataforma já oferece o chamado suporte emocional por inteligência artificial 24 horas por dia, em um processo que é avaliado mensalmente pela própria equipe de psicólogos da Starbem para aprimoramento.
Rubio reforça que este não é um caminho para a substituição de profissionais, mas um complemento. “A próxima vez que o paciente for se consultar, o psicólogo já terá acesso às últimas interações dele com a IA”, afirma.
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