No Reino Unido, rico vira cliente de brechó e troca grife por marca mais barata

Dois terços dos britânicos compraram algo de segunda mão no ano passado, e o gasto médio mensal com esses itens dobrou em cinco anos. Adquirir produto usado, como celular e bolsa, deixou de ser sinal de aperto e virou hábito também entre famílias de renda alta

Chanel e Hermès dividem a prateleira na Handbag Clinic, que conserta e revende bolsas de grife. Algumas peças custam novas hoje quase o dobro do que custavam em 2019, o que empurra o consumidor aspiracional para o mercado de usados.
Por Irina Anghel
PUBLICIDADE

Bloomberg — Gastar menos virou traço de comportamento nacional no Reino Unido, à medida que a pressão do custo de vida cobra seu preço e desperdiçar menos passa a ser visto como sinal de bom gosto. Até quem tem dinheiro compra cada vez mais produto de segunda mão e manda arrumar em vez de trocar.

São os ricos frugais do Reino Unido que aprenderam a pesquisar preço. Cerca de 40% das famílias que ganham mais de £ 83 mil por ano (US$ 112 mil) compram usado, consertam objetos e fazem as próprias reformas domésticas com mais frequência do que faziam três anos atrás, segundo pesquisa da Retail Economics compartilhada com a Bloomberg News.

PUBLICIDADE

No conjunto dos domicílios, essa proporção cai para um terço. Quem tem renda alta explicou a mudança pela busca de melhor custo-benefício.


Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.


“A gente vê o comprar menos, porém melhor, e vê o prolongamento do ciclo de vida de um item por meio do reparo e do recomércio”, disse Anita Balchandani, sócia sênior da McKinsey que lidera a área de consumo e varejo da consultoria no Reino Unido.

PUBLICIDADE

Ela acrescentou que hábitos como comprar em revenda são cada vez mais um sinal de bom gosto para parte do público, seja com celebridades como Zendaya e Dua Lipa usando peças vintage, seja com a loja de departamentos de luxo Selfridges, em Londres, oferecendo artigos de grife de segunda mão.

Leia também: De Chanel a Balenciaga: as marcas de luxo mais procuradas no mercado de segunda mão

Josephine Kllokoqi, ex-compradora de moda de luxo que mora no leste de Londres, conta que sentia constrangimento ao comprar em brechós beneficentes nos anos 1990, quando era criança. Hoje recorre a revendedores quando alguma peça lhe chama a atenção nas lojas e gosta de vestir os filhos pequenos com achados vintage.

PUBLICIDADE

“Eu fico olhando o Vinted, fico olhando o Vestiaire Collective. Sai mais barato que o preço de varejo e é melhor para o meio ambiente”, disse ela, referindo-se a duas plataformas de revenda de roupa entre usuários, a primeira de moda em geral e a segunda voltada ao luxo.

A intenção de poupar entre os 20% britânicos de maior renda, domicílios que ganham mais de £ 50 mil por ano, quase dobrou desde a pandemia de covid-19, segundo análise da Bloomberg sobre dados do instituto GfK. O salto é significativamente maior do que o observado no conjunto dos consumidores.

Já o apetite dos compradores abastados por gastar com itens de valor alto, como carros ou joias, permaneceu praticamente inalterado, mostram os dados.

PUBLICIDADE

A demanda crescente por reúso e reparo aparece em Richmond, um subúrbio de Londres que está entre os bairros mais abastados do Reino Unido.

Instalada dentro de uma igreja local, a Fixery é um espaço comunitário mantido pela câmara municipal, onde moradores de Richmond podem trocar roupas, comprar refil de detergente e mandar consertar o aspirador de pó. Desde a abertura, em março, os voluntários da Fixery recuperaram dezenas de itens elétricos, peças têxteis e bicicletas.

“Isso reduz muito o nosso lixo e mantém em uso por mais tempo os objetos de que gostamos”, disse Elizabeth Gant, vereadora local.

A iniciativa faz parte do plano de Richmond para cortar resíduos e emissões de carbono, mas o custo de vida também pesa.

“É sobre reconhecer valor no que já temos”, afirmou ela.

Laura Pemberton, professora de 35 anos e mãe de dois filhos, levou à Fixery o carrinho de bebê Yoyo que comprou usado, para um conserto gratuito depois que uma roda quebrou. Novos, os carrinhos leves e dobráveis da marca podem custar centenas de libras.

“Custam muito dinheiro, e foi por isso que compramos de segunda mão. A gente não quer trocar porque adora esse carrinho”, disse Pemberton.

Piora do padrão de vida

O padrão de vida no Reino Unido piorou levemente desde a chegada do Partido Trabalhista ao poder, em 2024, somando pressão sobre famílias que ainda se recuperam do choque inflacionário pós-covid.

Naquele ano, cerca de um terço das famílias classificadas como em dificuldade financeira planejava comprar produtos usados com mais frequência, o dobro da proporção registrada entre as famílias descritas como confortáveis, porém cautelosas.

Agora, os domicílios de todas as faixas enfrentam aumento nas contas de energia e reajustes salariais menores. Os consumidores mais ricos seguem sendo os mais dispostos a gastar com compras de valor alto, mas os custos das famílias de renda mais alta estão subindo mais rápido do que os das de renda mais baixa pela primeira vez desde o início de 2025, puxados principalmente pelo preço da gasolina e pelas altas em restaurantes e hotéis, segundo dados recentes do ONS (Office for National Statistics), o instituto de estatística britânico.

Leia também: De Chanel a Rolex: como o TikTok Shop se tornou um ímã para itens usados de luxo

“A gente fala de comida, de combustível, mas a cesta de luxo também inflacionou”, disse Balchandani, da McKinsey.

Comprar itens de segunda mão ou marcas mais baratas ficou “muito mais relevante e aceitável do ponto de vista social e cultural”, acrescentou a executiva.

Dois terços dos consumidores compraram produtos de segunda mão no ano passado, segundo levantamento do CEBR (Centre for Economics and Business Research), consultoria econômica britânica, enquanto o gasto médio mensal com itens usados mais que dobrou em cinco anos, para £ 124,80.

A Amazon criou um evento com descontos em itens de segunda mão. Consumidores britânicos economizaram £ 95 milhões no ano passado ao comprar produtos usados em vez de novos, segundo a companhia.

A edição deste ano começou em 1º de setembro, com descontos em produtos como bolsas de grife seminovas. Nomes do alto padrão, como a fabricante de calçados Church’s, do grupo Prada, a marca de malas de luxo Rimowa e a fabricante de artigos de couro Mulberry, também anunciam serviços de conserto ou recondicionamento.

Os aumentos agressivos de preço praticados pelas grifes depois da covid estão empurrando o consumidor aspiracional para o mercado de segunda mão, segundo Charlotte Staerck, presidente-executiva da Handbag Clinic, que conserta e revende bolsas de grife. Algumas peças custam hoje quase o dobro do que custavam novas em 2019.

Uma década atrás, “aquele nível de luxo era alcançável, se você trabalhasse duro e economizasse”, disse ela.

“Eu senti mesmo essa distância aumentar”, afirmou Staerck.

O negócio dela recebe agora até 150 pedidos de venda de bolsas por dia, quase o dobro do patamar anterior à pandemia, com mais vendedores aceitando oferta de dinheiro à vista na hora, mesmo com desconto.

De volta a Richmond, Patsy Harper, de 78 anos, foi à Fixery consertar a bicicleta que ganhou do companheiro, já falecido. Ela já pensa no próximo projeto de conserto e reúso: transformar um par de cortinas azuis e amarelas, compradas anos atrás em um brechó beneficente, numa capa de edredom.

“O que as pessoas jogam fora é ridículo, absolutamente ridículo. Principalmente nas áreas boas, as pessoas se desfazem das coisas rapidinho, e dava para modificar com facilidade”, disse Harper.

Veja mais em Bloomberg.com

Leia também

Mercado de roupas usadas ganha força com inflação e novas ferramentas digitais