Bloomberg — Quando o La Réserve Firenze abrir, em outubro, dentro de um palazzo do século 15 no bairro de Santo Spirito, na cidade italiana, os hóspedes não encontrarão buffet de café da manhã, um spa gigantesco nem a maioria dos outros símbolos de um hotel.
Em vez disso, os visitantes poderão tomar o café da manhã na hora em que decidirem, tendo feito o pedido antes da chegada. O bar do terraço funciona no sistema de confiança: prepare o seu próprio Negroni e não se preocupe em assinar a conta. A lavanderia está incluída. E, se os hóspedes quiserem jogar uma partida de tênis, o proprietário, Gregory Marciano, os convidará para a vila próxima onde mora com a família para trocar bolas.
São apenas seis suítes. “A intimidade está se tornando uma nova forma de luxo”, diz Marciano.
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Depois de anos em que muitos hotéis de luxo competiram para oferecer cada vez mais comodidades, de múltiplas opções gastronômicas a estruturas de bem-estar cada vez mais amplas, algumas das novas propriedades mais interessantes da hotelaria estão fazendo o oposto.
Na Europa e nos EUA, hoteleiros estão abrindo espaços com número de quartos de um dígito, apostando que, para alguns viajantes, a comodidade definitiva é não sentir que está em um hotel.
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Em lugares como o La Réserve Firenze, o refúgio de montanha Eriro, nos Alpes austríacos (nove quartos), ou o recém-inaugurado Casa Cedo, no Porto (oito quartos), a ideia é fazer o hóspede se sentir na própria casa de luxo.
A redução de escala faz parte de uma mudança no que alguns viajantes procuram na era do overtourism galopante, em que o espaço pessoal é um bem escasso. Muita gente ainda quer a privacidade e o caráter que tornaram tão atraentes os imóveis privados de aluguel boutique e as casas do Airbnb com estilo semelhante. Mas nem todos querem abrir mão dos serviços que vêm com um hotel.
“Hotéis minúsculos são os novos aluguéis de villas”, diz Henley Vazquez, cofundadora da agência de viagens Fora. Ela vê a principal demanda vindo de pessoas que planejam festas e viajam com amigos. Pode ser difícil encontrar uma casa grande o suficiente para um grupo, com um nível de serviço confiável. Os hotéis minúsculos buscam atender a essas necessidades.
Pequenas vitórias
O tamanho reduzido foi uma das coisas de que a profissional de marketing de tecnologia e escritora Ina Yulo Stuve, moradora de Londres, gostou em uma viagem em abril ao Q92, hotel de 10 quartos em Noto, na Itália.
“Basicamente, parecia que você era hóspede na casa de um aristocrata siciliano, e o tamanho menor ajudava. Víamos os mesmos hóspedes no café da manhã e, pela natureza íntima do lugar, nos sentíamos à vontade para puxar conversa com eles”, diz Stuve.
Também ajudou do ponto de vista familiar: “Viajando com uma criança pequena, há também um verdadeiro luxo em não se perder em um resort enorme.”
A tendência surge num momento em que o setor de hotéis boutique como um todo ganha terreno. A demanda nos hotéis boutique dos EUA subiu 3,1% no ano passado, enquanto caiu 0,6% nos hotéis tradicionais, segundo relatório publicado pela CoStar.
Os dados abrangem um grupo mais amplo que o das propriedades minúsculas, mas mostram o prêmio que os viajantes estão dando a hospedagens mais distintivas.
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Marciano diz que o prédio do La Réserve poderia ter abrigado bem mais hóspedes. Quando mostrou o imóvel aos arquitetos, eles disseram que caberiam até 23 quartos de hotel tradicionais. Em vez disso, ele preservou em grande parte o layout existente do palazzo.
Cada um dos seis apartamentos é espaçoso, com cerca de 170 a 210 metros quadrados. As unidades de um quarto partem de cerca de € 1.800 a diária na baixa temporada e podem chegar a € 3.100.
Prédios que podem ser pequenos demais, de configuração estranha ou historicamente sensíveis para receber um hotel de luxo convencional podem ser convertidos mais facilmente em um hotel minúsculo. E ter apenas alguns quartos cria uma escassez que sustenta diárias de valores espantosos.
Parte do apelo é uma reação à saturação do mercado de viagens de luxo, dizem consultores de viagem. Tom Cahalan, cofundador da agência de alto padrão Dorsia Travel, afirma que os turistas estão mais habilidosos em identificar um hotel verdadeiramente excepcional.
“Sinto que há uma superabundância de propriedades de luxo medíocres vendidas como ultraluxo”, diz. “E as pessoas rapidamente ficaram espertas.”
Noites no restaurante
Restaurantes também entraram no negócio dos hotéis minúsculos. No início deste ano, em Edimburgo, o chef Stuart Ralston acrescentou quatro quartos bem decorados, com mantas de tartã, ao sobrado georgiano onde funciona seu restaurante com estrela Michelin, o Lyla.
Os quartos Luxury King partem de £345 (US$ 457) e incluem um café da manhã de Ralston no quarto, com pratos como gravlax de truta-marinha de Loch Etive. Com o jantar para dois no Lyla, o valor sobe para £715.
Em Healdsburg, na Califórnia, um dos maiores chefs do mundo, Kyle Connaughton, e sua mulher, Katina, comandam o restaurante três estrelas Michelin SingleThread. Eles se preparam para abrir o Selvedge, propriedade de 11 quartos que pretende reproduzir o estilo e a intimidade de uma pousada britânica bem-equipada.
Os quartos partem de US$ 1.000 a diária e incluem café da manhã do SingleThread. (Eles também oferecem cinco quartos de luxo acima do restaurante.)

O hotel mais minúsculo ligado a um restaurante é o Dishoom Permit Room Portobello, inaugurado em 2025. A elegante suíte de dois quartos, decorada com móveis da Índia, fica acima da unidade de Notting Hill, em Londres, do famoso grupo de restaurantes.
Os hóspedes têm acesso ao restaurante, sempre lotado, e podem saborear seus célebres rolinhos de naan com bacon, saídos na hora do tandoor, como serviço de quarto no café da manhã.
“Queremos que seja uma experiência ainda mais profunda da hospitalidade do Dishoom”, diz o cofundador Kavi Thakrar. A suíte, que parte de £ 390, costuma estar esgotada, e Thakrar diz que não há planos imediatos de acrescentar outra, embora a empresa pretenda abrir uma unidade em Nova York no início de 2027.
Abrindo espaço
A abordagem do hotel minúsculo pode transformar um prédio aparentemente impraticável em uma propriedade viável. Valentina De Santis e sua família consideraram comprar a Casabianca, uma villa art déco de mármore branco no Lago de Como, na Itália, há cerca de uma década. Eles adoraram o prédio, um marco local que havia abrigado por último um banco privado.
“Originalmente, achamos que era pequena demais para realmente construir outro hotel”, diz De Santis, cuja família abriu depois o Passalacqua, de 24 suítes, no lago, que ficou em primeiro lugar na edição inaugural do World’s 50 Best Hotel Awards, em 2023.
Quando viram que a Casabianca continuava à venda, três anos atrás, decidiram que poderiam transformá-la em uma hospedagem não convencional. Hoje, a coleção de arte contemporânea da família ocupa boa parte da propriedade, ao lado de exposições temporárias, espaços para eventos e um café. No andar de cima ficam três grandes suítes, cada uma dedicada a um artista e repleta de obras feitas sob medida para o local.
Os hóspedes podem explorar a coleção fora do horário de visitação, acompanhados por um funcionário. Os quartos da Casabianca foram abertos neste verão no hemisfério norte, com diárias de cerca de US$ 3.000.

Não é que operadores atentos só agora estejam enxergando o apelo de uma propriedade minúscula. Há doze anos, Mary Lou Sturridge, ex-diretora-geral do lendário clube de sócios Groucho Club, em Londres, abriu sua propriedade de nove quartos, a Seaside Boarding House, em um penhasco em Dorset. Antes disso, o local era um hotel de 19 quartos.
“Um quarto gera muito mais dinheiro do que um restaurante”, diz ela, sobre outro incentivo para os operadores de restaurantes.
Em um hotel minúsculo em um prédio histórico, a arquitetura costuma ditar o conceito. Quando Chris Langenskiöld e sua mulher, Taina Snellman-Langenskiöld, compraram a villa que viraria o Billnäs Gård, no sul da Finlândia, em 2021, ela estava em más condições.
Os moradores a apelidaram de “o queijo”, por causa dos muitos buracos. Durante os dois anos de restauração, o casal resistiu a subdividir os cômodos para aumentar a capacidade. Desenhos arquitetônicos de 1910 mostravam seis quartos.
“É isso que mantém o lugar íntimo e aconchegante, em vez de tender a algo mais parecido com um hotel”, diz Langenskiöld.
Amanda Rejström, que lidera o trabalho de descarbonização do aço no WWF em Helsinque, fez uma viagem em família ao Billnäs Gård em parte por causa do baixo número de quartos do hotel. O tamanho pequeno “faz o lugar parecer quase uma casa”, diz ela.
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